

- Comprova Explica
- Especialistas explicam que jogos caça-níqueis e bets utilizam estratégias de persuasão e algoritmos para manter o apostador jogando, sem a certeza de obtenção do lucro.
Conteúdo analisado: Conteúdos viralizados nas redes sociais incentivam a prática de apostas em casas virtuais e divulgam cursos para orientar novos apostadores. O Comprova identificou influenciadores relatando supostas experiências de sucesso com plataformas de jogos, ensinando a apostar e dando dicas aos jogadores. Muitos desses conteúdos são divulgados em transmissões ao vivo que reúnem milhares de espectadores e mostram o passo a passo para apostar.
Comprova Explica: As casas de apostas lucram com o grande volume de apostas e usam estratégias para estimular a permanência dos usuários nos aplicativos. Um estudo recente, com base em dados do Banco Central, aponta que essas plataformas provocaram uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025.
A seguir, esta seção do Comprova Explica mostra como essas plataformas operam no país, como evitar sites clandestinos, como se proteger das bets e como procurar ajuda em caso de vício em jogos.
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Como funcionam as casas de apostas?
Há diferentes jogos na modalidade virtual, sendo os mais comuns os caça-níqueis, conhecidos como “’tigrinho”, e as apostas em esportes, as “bets”.
Augusto Vargas, doutorando em Matemática da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que, em qualquer um desses casos, as plataformas operam com a “vantagem matemática da casa”, ou seja, o dinheiro do apostador garante o lucro de quem oferece o jogo.
Se imaginarmos, por exemplo, um cassino físico, o clássico jogo da roleta possui números divididos entre vermelho e preto, e o zero é representado pela cor verde. Quem aposta em uma das cores não tem exatamente 50% de chance de ganhar. O zero garante uma espécie de taxa ou comissão que a casa recebe.
Essa vantagem matemática é explicada pela Lei dos Grandes Números. Ela determina que, se uma moeda for lançada três vezes, por exemplo, qualquer sequência de ‘cara ou coroa’ é possível, mas, se for lançada dez mil vezes, a proporção entre caras e coroas ficará muito próxima de 50%.
“Uma diferença pequena em cada aposta, multiplicada por milhões de apostas, gera um lucro elevado para a plataforma. Em outras palavras, o volume de apostas é muito mais importante do que o tamanho exato da vantagem matemática”, afirma Vargas. A lógica na aposta virtual é a mesma e as chances do apostador são sempre menores que 50%.
Nas apostas em caça-níqueis, os números ou símbolos caem aleatoriamente por sorteio. No caso das bets, os apostadores se guiam pelas “odds”, isto é, as cotações que indicam o retorno potencial e a probabilidade de um resultado. Quanto menor for esse número, maior é a probabilidade atribuída àquele resultado pela casa. A margem das casas está inserida nas cotações.
Ahmed El Khatib, professor de Finanças da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que as odds são estimadas por algoritmos que utilizam modelos estatísticos altamente sofisticados. “Quando uma odd aponta que vai pagar 1,2 ou 1,5 caso Neymar faça um gol, é porque eles analisaram dezenas de milhares, senão milhões, de probabilidades de história daquele jogador”, detalha.
Existe jogo sem riscos?
Em teoria, explica Vargas, seria possível ganhar dinheiro com riscos reduzidos com as bets caso fosse viável reunir todas as apostas realizadas, todos os valores pagos e recebidos pelos apostadores, o que na prática não acontece. “Essas informações normalmente não estão disponíveis ao público de forma completa”.
Sem acesso aos dados internos da empresa ou sem auditorias independentes e abrangentes, é extremamente difícil estimar com precisão a taxa de acerto.
“Toda aposta, como o nome já diz, é uma aposta, é um jogo de azar, envolve incerteza”.
Quais são os truques das casas para lucrar?
As propagandas financiadas por casas de apostas – inclusive com influenciadores digitais – passam a impressão de que ganhar nesses jogos é fácil, o que, como afirmado, é mentira.
El Khatib observa que muito da sensação de vitória se baseia em um viés de sobrevivência, ou seja, um erro estatístico que ocorre quando se olha apenas para os casos que passaram por um processo de seleção ou que “sobreviveram”, ignorando aqueles que falharam ou desapareceram.
As sequências de acertos exibidas em vídeos, por exemplo, podem acontecer naturalmente, mas muitas pessoas começam a achar que “é uma dádiva de Deus” ou que “a sorte virou”, até perderem na próxima jogada e tentarem recuperar essa perda.
No caso das bets, diz o professor, as odds são variáveis e podem mudar inclusive próximo de um jogo. “Imagine que 90% dos apostadores apostem dinheiro na vitória do Flamengo. Antes do jogo começar, a casa toma medidas para reduzir a odd do time. Ela aumenta a odd do adversário para atrair apostas do outro lado. Ela limita apostas muito grandes”.
O envio de notificações e a oferta de bônus ou promoções a usuários que passam algum tempo sem apostar também são comuns. “Mas raramente é dinheiro grátis. A plataforma oferece R$ 200, mas exige que se aposte 10 vezes esse valor para sacar”, exemplifica.
Outro artifício é oferecer rodadas de poucos segundos para reter a atenção do usuário. Eles trabalham, ainda, com a “psicologia de quase vitória”, ou seja, a sensação de que faltou pouco e que aumenta a motivação para continuar jogando.
Vargas acrescenta que as plataformas aplicam estímulos visuais e sonoros durante o uso dos aplicativos, o que pode manter a pessoa atenta e transmitir a sensação de vitória mesmo em caso de perda. “Imagine uma pessoa que aposta R$ 100 e recebe R$ 25 de volta. Financeiramente, perdeu R$ 75, mas o aplicativo apresenta esse resultado com animações e sons de comemoração, e o cérebro pode interpretá-lo como uma recompensa parcial”.
Em resumo, para os especialistas, o maior truque das casas de apostas não é a manipulação de resultados, mas a construção de um ecossistema em que a vantagem matemática da casa, por meio de técnicas de ciência comportamental, aumenta o tempo de permanência do jogador na plataforma.
Regulamentação e alertas sobre plataformas clandestinas
A legislação brasileira estabelece que a aposta nunca deve ser tratada como investimento.
A Lei das Bets proíbe publicidades que contenham afirmações infundadas sobre as probabilidades de vitória ou sobre ganhos que os apostadores podem esperar. Além disso, portarias do Ministério da Fazenda vedam a apresentação da aposta como “fonte de renda adicional” ou como meio de recuperar valores perdidos.
Operadores legalizados são obrigados a informar que o Retorno Teórico ao Jogador (RTP) é uma medida teórica do sistema e não pode ser interpretado como uma expectativa de ganho individual.
Humberto Ribeiro, diretor jurídico do Sleeping Giants Brasil, explica que a veiculação de promessa enganosa constitui, por si só, publicidade ilícita, pois viola o dever de informação previsto no Código de Defesa do Consumidor.
A plataforma de rede social que permite a veiculação dessa publicidade também comete conduta ilícita, o que, afirma, foi definido no julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que analisou a constitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet.
Pontos de atenção
Bets autorizadas (veja aqui) devem utilizar o endereço terminado em bet.br. Elas também devem oferecer ferramentas de jogo responsável, como pausas e autoexclusão, e advertir sobre os riscos de dependência.
As plataformas clandestinas não garantem o pagamento de prêmios. Se um site oferece bônus de boas-vindas condicionado a depósito ou não apresenta identificação completa, ele é ilegal.
Em caso de dúvidas ou denúncias relacionadas à legalização das casas de apostas, os canais oficiais são o Fala.BR e o consumidor.gov.br.
Impacto das bets sobre a economia
Com base em informações do Banco Central, o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) e o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (Cicef) estimam que os brasileiros gastaram com bets, entre outubro de 2024 e março de 2026, um valor líquido médio mensal de R$ 4,7 bilhões. Considerando apenas o ano passado, o montante transferido às plataformas alcançou R$ 62,5 bilhões.
Desse volume, parte retorna aos apostadores na forma de prêmios. O que fica com as empresas é medido por outro indicador: a receita bruta das casas de apostas, que em 2025 somou R$ 36,96 bilhões, segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda. Foram identificados 25,2 milhões de indivíduos apostando (contabilizados por CPF) em 100,7 milhões de contas nas marcas. Do lado público, o governo recolheu R$ 9 bilhões em tributos sobre as bets no mesmo ano. Entre janeiro e abril de 2026, foram mais R$ 3,1 bilhões.
Onde encontrar ajuda e tratamento gratuito
Segundo a psicóloga Aline Batista, durante o jogo ocorre a liberação de dopamina, o neurotransmissor responsável por regular o sistema de recompensa cerebral e transmitir a sensação de bem-estar.
A partir dessa liberação, um comportamento repetitivo pode surgir, e isso é a principal evidência de dependência. “Não saber parar o comportamento quando está jogando; ficar irritado ou ansioso para jogar; negligenciar tarefas do dia a dia para continuar jogando. É importante procurar canais de atendimento ao notar esses sinais”, orienta.
O Procon-SP lançou, em 2025, um documento que orienta os consumidores sobre os primeiros sinais do vício em bets.
Já o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece teleatendimentos a pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas. Os atendimentos são feitos pelo aplicativo Meu SUS Digital, no qual o usuário poderá agendar a consulta e receber automaticamente a confirmação do atendimento.
Também existe o site Jogadores Anônimos, uma entidade que auxilia gratuitamente apostadores compulsivos por meio de uma metodologia de 12 passos.
Fontes consultadas: Consultamos a lista de casas de apostas regularizadas e pesquisamos as obrigações legais das plataformas de apostas e de redes sociais na Lei das Bets, no Código de Defesa do Consumidor, no Marco Civil da Internet e no Tema 987 ( STF).
Foram ouvidos os seguintes especialistas: o advogado Humberto Ribeiro, diretor jurídico do Sleeping Giants Brasil; Augusto Vargas, doutorando em Matemática pela UFMG; Ahmed El Khatib, professor de Finanças da Unifesp; e a psicóloga Aline Batista. Recorremos, por fim, às orientações sobre vício em jogos do Procon-SP, do SUS e da rede Jogadores Anônimos.
Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições e golpes digitais. Quando detecta, nesse monitoramento, um tema que gera muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Para se aprofundar mais: A Agência Lupa mostrou que empresas promoveram, na Copa do Mundo, a venda de sites de apostas ilegais. O Aos Fatos constatou que sete em cada dez anúncios nativos de bets em portais de notícias prometem benefícios exagerados ou irregulares.
Este texto foi produzido por jornalistas que participam do programa de Residência no Comprova e conta com o apoio do TikTok.
