Correio de Carajás

Ela sobreviveu aos dias mais difíceis e decidiu fazer da própria vida um Setembro Amarelo

Tassia queria apenas voltar a ser quem era. No caminho, descobriu quem poderia se tornar para recomeçar

Foto: Magnific
Por: Tássia Lopes de Moraes Formachari

Estamos no mês de setembro, onde sempre se fala em relação a alta estatística de suicídio no Brasil e no mundo. Essa data para tais mobilizações foi originada nos Estados Unidos, no ano de 1994, onde um jovem de 17 anos chamado Mike Emme tirou a própria vida. Mike era apaixonado por mecânica e havia restaurado um Ford Mustang 1968, pintando-o de amarelo. No velório de Mike, amigos e familiares distribuíram fitas e 500 cartões amarelos amarrados a fitas com a mensagem: “Se precisar, peça ajuda”.

Os cartões salvaram vidas de pessoas em crise que entraram em contato buscando apoio, dando origem ao programa internacional Yellow Ribbon (Fita Amarela).
Mais recente, em 2015, teve início no Brasil, por uma iniciativa conjunta do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). O mês de setembro foi escolhido porque o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio acontece em 10 de setembro, data estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2003.

Existem diversas campanhas, mobilizações, palestras, rodas de conversas, oficinas, filmes etc.
E foi em uma mobilização desta, na Câmara dos Vereadores de Marabá, no ano de 2022 (eu acredito), onde tomei um dos meus maiores tapas na cara, como estudante de psicologia! O choque de realidade veio de uma adolescente estudante da Escola Acy Barros (onde fiz o meu ensino médio, que mesmo que quisesse expor, não me recordo o nome), mas que nunca esqueci nenhuma palavra do que ela disse!

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“Todos os anos, nesse mês de setembro, muito se fala bonito sobre o suicídio, sobre a importância de acolher, observar, de enviar mensagens para as pessoas, cuidar do outro, ter empatia, mas e nos outros meses? Não temos apoio em casa, da família, a escola é um terror, onde somos apontados, ridicularizados, a gente sofre bullying, é esquecido, eu mesmo já tentei suicídio diversas vezes e não vejo diferença”.

Hoje, quatro anos depois, formada, psicóloga com CRP, mas sem nunca ter atendido em clínica, além dos estágios, trabalhando em escolas, bibliotecas, com muitas crianças e adolescentes, catequista, mãe de adolescentes, ser humano, durante a madrugada, me lembro dessa situação. O que eu tenho feito pra mudar a realidade que aquela menina jogou na cara de inúmeras pessoas naquela Câmara lotada?

Não tenho feito muito, mas tenho feito o que está ao meu alcance! E hoje vou contar a minha história, como virei mãe, bibliotecária e psicóloga (meu objetivo de vida).
Meu maior sonho, acredito que desde que era apenas uma criança, casar e ter filhos, inicialmente queria duas meninas (gêmeas para serem as melhores amigas, assim como eu sempre fui da minha irmã) e um filho, mais novo, pra não mandar nas meninas. Em 2010 casei-me, em agosto de 2013 tive a realização do meu sonho, engravidei e veio o Heitor primeiro. Percebendo que ele também gostava muito de seus amiguinhos, passei a desejar quatro filhos, sendo dois casais. Era tão imatura em meus sonhos, como se a gente e não Deus, pudesse ter essas escolhas e decisões.

Tudo ia bem, uma vida feliz e despreocupada na licença maternidade de 6 meses, estabilizada, com meu esposo e minha família sempre presentes, babá em tempo integral. Uma rede de apoio perfeita.

Com mais de três meses, após o parto, o castelinho começou a desmoronar, comecei a ter sintomas depressivos, insônia, preocupações excessivas desnecessárias, medos, mas era tão intenso, acompanhados de delírios e alucinações. A patologia não muito conhecida, Psicose Puerperal, tão complicada, e tão rara, apenas 0,2 mulheres após o parto apresentam esta condição, (no máximo duas a cada 1000) a mais grave das doenças do pós-parto.

E ali foi um novo começo pra mim, tratamento com psiquiatra, CAPS, Goiânia. Mesmo voltando ao “normal com minha rotina”, trabalhando como professora de ensino médio, eu não estava bem. Foram, em média, dois anos de tratamento! E quando realmente “me senti de volta” decidi que era hora de engravidar novamente, afinal agora queria quatro filhos!

Em junho de 2016 veio a Isabella! Mas meu sonho teve algumas alterações, com medo de apresentar novamente a doença (que até então eu não sabia nem o nome) não procurei médicos e psicólogos qualificados, pra fazer um tratamento preventivo, nem sequer comentei sobre o assunto nas consultas de pré-natal, mas meu esposo decidiu por nós, e fiz a laqueadura.

Como eu tentei evitar, na hora da cirurgia, ia pedir para o médico não fazer, que tínhamos mudado de ideia, mas como ele estava conversando empolgado na sala, a anestesia veio primeiro, o parto iniciou e minha voz se calou.

Lembro que na minha consulta após o parto, a pergunta foi: qual exame posso fazer pra saber se realmente houve a laqueadura ou o médico esqueceu? A esperança de ter mais filhos não queria desaparecer! Mas enfim, novamente após os três meses, veio tudo (psicose puerperal) com uma intensidade que costumo medir (80% pior) e na primeira consulta com o psiquiatra no CAPS ele perguntou: Você já é laqueada? E respondi: infelizmente, sim! Queria ter 4 filhos

Sua resposta foi a seguinte: infelizmente não, felizmente! Pois se não fosse, já sairia daqui com um encaminhamento pra fazer, seu caso é grave, certamente genético, e você não pode mais ter filhos. Naquele momento entendi os propósitos de Deus pra mim, e percebi que tudo deve ser feito conforme Sua vontade.

E não foi fácil, todos os sintomas depressivos, fora alucinações e delírios o tempo todo. Eu era um risco sério para minha família, minha mãe, meu esposo e irmãos que sabem o que passaram com meus surtos e ataques. E, claro, um risco ambulante para meus bebês! Não ficava sozinha com eles nem por um minuto. Não queria amamentar, rejeitava meus filhos, esposo.

Em média, 15 dias em surto grave, trancada na casa de muros altos da minha mãe, e isso sem saber nem sequer quem eu era, tendo imaginações persecutórias, (sempre alguém me seguindo), rede de apoio perfeita tinha que fazer milagres.

São tantos detalhes desse período longo de três anos e meio em que fiz tratamento no CAPS, com psiquiatra, enfermeira, psicóloga, terapeuta, artesã, que daria um longo livro.

Não conseguia comer sem sentir dor nas mãos, ir ao banheiro sozinha era uma batalha, até cortei o meu cabelo, pois dava muito trabalho para cuidar, minha coordenação motora ficou tão abalada que não conseguia fazer uma simples trança, sempre calada, pensativa, triste, com saudades de quem eu era, vontade de estar bem naquele momento dos meus filhos pequenos em que eu mais sonhei na vida!

Como sempre fui da Igreja, grupos de jovens, de casais, catequista, sempre tinha medo de cometer suicídio, mas não foram raras as vezes em que viajava de carro, e “esquecia” de colocar o cinto de segurança, e sempre pedindo pra Deus: Senhor, eu não tenho coragem, tenho medo de não ter salvação eterna, mas se for da tua vontade, já que minha vida é dopada de remédios, não converso, não interajo, não sei criar meus filhos, dar amor e carinho, só vivo em sofrimento e não faço falta pra ninguém, pode me levar…estou pronta!

E Ele não quis, não era o momento. Longos anos se passaram como se fossem séculos, e estou aqui pra escrever essa história da minha vida, passar essa mensagem, que não foi fácil. mas busquei, não um final, como as estórias que eu conto diariamente para as crianças na biblioteca, e busco até hoje uma vida feliz, onde eu possa contribuir com mulheres que, assim como eu, ficaram muito mal e buscam por uma luz.

Em agosto de 2020, já incomodada com minha apatia, meus filhos precisavam de uma mãe ativa, capaz de ensiná-los e educá-los, meu esposo ansiava por uma mulher parceira, viva, percebendo que ser professora estava fora do meu alcance, decido entrar nos cursos de Psicologia e Biblioteconomia. Mesmo sem conhecer, usei muito da logoterapia e da biblioterapia.

Hoje me sinto uma mulher realizada, mesmo nos momentos em que choro, ensinando e mostrando para meus filhos os valores que quero deixar para eles, a importância de respeitar o próximo, de ser luz na vida do outro, de acolher, ter empatia, compreender, ver o lado e as dificuldades dos outros antes de julgar, de apontar, de ridicularizar! Sempre que posso também nas escolas que trabalho tenho esse cuidado de conversar e acolher adolescentes! Sempre tentando fazer da minha vida, dos meus ensinamentos, um constante SETEMBRO AMARELO!

* A autora é psicóloga marabaense e busca usar sua realidade pessoal como ferramenta para ajudar outras mulheres