📅 Publicado em 03/09/2026 11h49
“É o melhor momento da minha vida.” É assim que Jennifer Viana dos Santos, 33 anos, define a formatura no curso de Sistemas de Informação da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa). A estudante chegou à graduação depois de fazer o Enem, em 2017, e escolher entre duas aprovações o curso que queria seguir.
A cerimônia que corou essa trajetória aconteceu na segunda-feira, 31 de agosto, e, para isso, Jennifer teve sua cota desafios que começaram antes mesmo da entrada na universidade. Ela tem paralisia cerebral, que afeta seus movimentos e sua fala. Mas a condição nunca foi um desafio dentro da sala de aula.
Durante a graduação, ela precisou lidar com as dificuldades de transporte entre a casa, no bairro Laranjeiras, no Núcleo Cidade Nova, e a Unidade II da Unifesspa. É a avó de Jennifer, Rosailda de Sousa Mendes, quem conta que a família chegou a pagar R$ 800 por mês em transporte particular para garantir que a estudante frequentasse as aulas.
Leia mais:Rosailda destaca que o transporte coletivo não atendia às necessidades da neta. Mas, mesmo diante das dificuldades, Jennifer seguiu em frente. Em alguns momentos ela até chegou a pensar em desistir e, quando questionada sobre o que a fez permanecer, ela cita a avó, a família e as pessoas que a acompanharam durante a graduação.
Nessa trajetória, o Núcleo de Acessibilidade e Inclusão Acadêmica (Naia) tem sua importância reconhecida. O departamento acompanha estudantes com deficiência e atua junto a professores e outros setores da universidade para garantir condições de acessibilidade.
Ou seja, o Naia é responsável por assegurar o princípio da equidade aos alunos, criando condições para que pessoas diferentes deficiências e condições de vida tenham oportunidades reais de acessar, permanecer, participar e concluir a graduação.
Isso não significa necessariamente oferecer exatamente as mesmas condições a todos, mas disponibilizar os recursos necessários para que as diferenças existentes não impeçam o estudante de ter acesso às mesmas oportunidades educacionais que os demais.
No caso de Jennifer, ter acesso à graduação trouxe mudanças para além da formação profissional. Ela afirma que aprendeu mais do que imaginava durante os anos de universidade. E ela segue cheia de sonhos. Depois da formatura, ela pretende trabalhar e continuar estudando. O plano é partir direto para uma pós-graduação.
Ao relembrar o percurso da neta desde a época do vestibular, Rosailda conta que a escolha pelo curso de tecnologia foi uma surpresa e que nem toda a família acreditava que ela chegaria ao fim da graduação. Jennifer, porém, insistiu.

“Eu disse pra ela: se você acha que chega lá, manda ver. Vamos para frente”, conta a avó, lembrando o incentivo dado a, agora, recém-formada.
O acidente que mudou quase tudo
Antônio Radson Lourenço da Silva, 31 anos, já cursava Engenharia da Computação na UNIFESSPA quando sofreu um traumatismo cranioencefálico em 2020, depois de bater a cabeça durante uma partida de futebol. O acidente quase mudou o rumo de sua graduação, mas, assim como Jennifer, ele chegou ao final da jornada e agora pode exibir seu diploma com orgulho.
Mas antes de ter o sonho realizado, Radson teve que superar um longo processo de reabilitação. Após o acidente, o estudante precisou passar por uma cirurgia e chegou a ficar em coma. Ele e a família passaran dois anos e meio em Fortaleza onde ele recebeu atendimento no Centro Internacional de Neuroreabilitação e Neurociências Sarah (Sara), antes de decidir retornar a Marabá.
A família, natural de Santa Luiza do Pará, também se mudou para a terra de Francisco Coelho para apoiar Radson em sua nova realidade. Maria Simone da Silva Vieira, mãe dele, conta que nesse primeiro momento o filho enfrentava mudanças nos movimentos e na fala e precisou reconstruir sua rotina acadêmica.

Quando questionado se em algum momento pensou em desistir, ele sorrir ao confirmar e é categórico ao responder que a mãe é a responsável por fazê-lo continuar.
A ordem foi clara e direta: “Não, você vai terminar”, dita com o amor e a coragem de uma mãe que não estava disposta a vê-lo abandonar a graduação. E o reforço para continuar neste caminho veio do padrasto, Francinaldo de Souza Vieira, que passou a acompanhá-lo nas aulas. A dupla saia do Núcleo Cidade Nova para a Folha 17, onde está localizado a Unidade II da Unifesspa.
Ao falar sobre o que a graduação mudou em sua vida, Radson lembra principalmente da experiência de morar sozinho em outra cidade e do início da vida adulta. O processo de amadurecimento o enche de orgulho.
Finalizada a graduação, o estudante e a família já pensam nos próximos passos. A ideia é que Radson faça também uma formação em Segurança do Trabalho e, depois, uma pós-graduação. Ele também demonstra interesse pela área de negócios e não pretende encerrar os estudos com o diploma.
Para os pais, a formatura tem um significado que vai além da conclusão do curso. Depois do acidente, a família que não sabia como seria a recuperação de Radson, hoje, vê o filho formado em Engenharia da Computação.

“É mais que um diploma. É um sentimento tão grandioso. Como eu costumo dizer, esses sete anos desde o acidente a gente viveu tudo e mais um pouquinho, mas não estávamos sozinhos, Deus conduziu cada momento da nossa vida. Foram os melhores sete anos da minha vida”, compartilha a mãe.
NÚCLEO DE ACESSIBILIDADE E INCLUSÃO
As histórias de Jennifer e Radson mostram que a permanência de estudantes com deficiência na universidade depende de uma estrutura de apoio. Segundo Andreza Reuter, coordenadora do Naia, o objetivo das políticas de acessibilidade é oferecer condições para que esses estudantes tenham oportunidade de aprender e concluir seus cursos.
Uma das medidas citadas por ela é a possibilidade de ampliar o prazo para a conclusão da graduação em situações que exigem mais tempo. No caso de Jennifer, por exemplo, as dificuldades de transporte eram um dos fatores que interferiam diretamente em sua rotina acadêmica.
O Naia também oferece auxílio para aquisição de tecnologias assistivas. Atualmente, o benefício é de R$ 3.100, explica Andreza, pagos em parcela única. A Unifesspa também possui o auxílio PCD, de R$ 300 mensais para estudantes com deficiência da graduação.

Atualmente, a Unifesspa tem mais de 200 estudantes com deficiência na graduação e na pós-graduação, distribuídos entre Marabá e outros municípios onde a universidade atua.
Para Andreza, a inclusão precisa ser tratada como um processo contínuo. Por isso, o Naia considera que a universidade “se pretende inclusiva”, reconhecendo que sempre há aspectos que podem ser aperfeiçoados a partir das demandas dos próprios estudantes.
“São condições diferentes, mas é para que todos tenham oportunidade de aprender, de se formar”, explica Andreza ao definir o princípio da equidade.
Jennifer e Radson agora deixam a graduação com planos diferentes para o futuro, mas com algo em comum: os dois querem continuar avançando na formação profissional.
Para Jennifer, o próximo passo é trabalhar e fazer uma pós-graduação. Para Radson, novas formações e a busca por oportunidades na área de tecnologia estão no horizonte. O diploma encerra a graduação, mas não as trajetórias que eles começaram a construir dentro da universidade.
