Correio de Carajás

Deletar folhas e colocar frutas; entenda as mudanças propostas para a Nova Marabá

Núcleo Nova Marabá será dividido em 15 bairros com nomes de frutas – Foto: Divulgação

ADEUS QUADRAS E LOTES!

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Quem nunca se confundiu ao tentar chegar a um endereço na Nova Marabá? As folhas e quadras são um verdadeiro labirinto até para o GPS. Mas há quem discorde...

Que tal morar na Rua Tinguaçu-ferrugem? Tem também a Rua Juruva-ruiva, Rua Cajubim e Rua Tucaninho-verde. Esses são alguns exemplos do sopão de 444 nomes de ruas que poderão estar muito em breve em placas nas esquinas do Núcleo Nova Marabá, o maior da cidade.

O Projeto de Lei nº 33, de 06 de julho de 2020, prevê a alteração e denominação das vias urbanas do núcleo. Esta semana, o assunto esquentou nos bastidores e na própria sessão ordinária desta quarta-feira, 12, por conta de uma live promovida para discutir o projeto e, ainda, pelo lançamento de uma Consulta Pública marcada para iniciar nesta sexta-feira, dia 14 de maio, indo até 3 de junho.

A sugestão da Secretaria Municipal de Indústria e Comércio é que as ruas da Nova Marabá – que possui de 15 km² – passem a ter nomes de pássaros do continente sul americano. Além disso, algumas Folhas serão aglutinadas para formar os 15 bairros que vão compor o núcleo. Eles, aliás, receberão nomes de frutas como: açaí, murici e cupuaçu.

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De acordo com PL enviado para a Câmara Municipal de Marabá pelo Executivo, a comunidade marabaense, principalmente quem reside no Núcleo Nova Marabá, necessita de uma nomeação oficial das ruas, para facilitar a localização de suas residências ou centros comerciais.

Ricardo Pugliese, secretário de Mineração, Indústria, Comércio, Ciência e Tecnologia (Sicom) e também de Turismo (Semtur), explica que a maioria das demandas nasceu do Ministério Público Estadual e da sociedade civil, principalmente de órgãos representativos.

“Temos relatos consistentes da Polícia Civil, que afirma ter dificuldades nas operações da região da Nova Marabá. A Polícia Militar e a Justiça Federal também se manifestaram sobre as dificuldades insolúveis de encontrar endereços. Além dos Correios, para quem muitas mercadorias que são endereçadas não são entregues. Essa falta de organização das ruas é uma coisa que acaba tirando a funcionalidade dos serviços”, argumenta.

Possuindo atualmente 444 ruas, a Nova Marabá é composta por Folhas e Quadras, o que segundo o secretário, dificulta até para moradores, que não conhecem a organização real do núcleo.

“Resolvemos pegar essas ruas e utilizar um critério de nomeação para elas. Temos várias cidades no Brasil, como Arapongas, em que as ruas têm nomes de aves”.

Por que pássaros?

Segundo Pugliese, normalmente quando ruas homenageiam pessoas, fatos históricos e datas religiosas, os trâmites são demorados até serem aprovados, o que demanda uma certa complexidade.

“Com nomes de aves isso não existe. Nós precisávamos de um banco de dados grande, que pudesse nos fornecer informações e uma certa similaridade com a ideia inicial do arquiteto ou urbanista – que criou o conceito da castanheira – que era homenagear uma planta típica nossa”, explica, afirmando que a copa da castanheira – que seria o desenho da Nova Marabá – perdeu a função e não existe mais.

O secretário Pugliese explica que a nomeação oficial das ruas irá facilitar a localização de residências e centros comerciais

“Nossa cidade é um polo turístico. Quando chega alguém de fora, isso é uma coisa muito confusa”, avalia.

O secretário explica que após a tramitação na CMM e aprovação por parte dos vereadores, a primeira etapa é a implantação do projeto. “Depois iremos partir para a colocação das mais de 1.800 placas nas esquinas. Após isso, mandaremos uma solicitação para Brasília, para termos o CEP. Posteriormente, a Superintendência de Desenvolvimento Urbano (SDU), colocará os números nas casas, já que ainda é utilizado lote, o que é errado. Por último, vamos contatar com o Google Maps, para que venham à Marabá e mapeiem toda a região. Aí sim, vamos começar a ter referências exatas em GPS e aplicativos de localização”, preceitua.

 

Vereador pede ampla discussão do projeto

 

No início do governo do prefeito Tião Miranda, em 2017, o vereador Ilker Moraes solicitou ao município que fosse criado um programa de organização das ruas de Marabá.

Segundo ele, o problema não está somente no Núcleo Nova Marabá, mas na cidade inteira, onde muitas ruas ainda não têm um nome. “Nesse projeto, apresentado ano passado, fomos pegos meios de surpresa porque não participamos do diálogo da criação. Eles escolheram usar nomes de frutas regionais para os bairros e nomes de pássaros para as ruas”.

O vereador e relator do projeto quer debater com a sociedade sobre o assunto

O projeto, concebido e protocolado na Câmara no início da pandemia, em 2020, assim que chegou à Casa, tramitou em algumas comissões, que sempre apontaram para necessidade de realização de uma audiência ou consulta pública.

“Sou o relator na Comissão de Administração e Serviços e vamos começar a debater com a sociedade e externar um pouco sobre esse projeto. Vamos realizar uma consulta pública online, onde um link de acesso irá circular nas redes sociais para que os cidadãos marabaenses possam opinar se concordam ou discordam. Precisamos tabular os resultados para ter uma noção de como a sociedade de Marabá enxerga essa proposta”.

Alguns nomes de pássaros, pouco ou nada conhecidos na região, formam um verdadeiro trava-língua em um primeiro momento. “Nossa intenção é mudar o projeto. Precisamos ouvir a sociedade para que a gente chegue a um consenso com os moradores. As folhas fazem parte da cultura de Marabá, apesar de saber que muitas delas cresceram desordenadamente, fazendo com que alguns problemas de localização aconteçam”, discorre.

A preocupação do vereador e relator do projeto na CMM é que a cultura seja deixada de lado com essa mudança, por isso quer debater com a sociedade. “O primeiro voto, que é do relator, aponta para uma decisão. Esse projeto pode ser arquivado se existir uma decisão consensual da sociedade em não aceitar essa mudança”.

Questionado pelo CORREIO se é a favor ou contra a mudança, o vereador é enfático. “Eu particularmente não concordo”.

Pelo novo projeto, a Folha 28 se fundirá com a Folha 20 e serão bairro Piquiá

 

Em sessão remota, criticas ao projeto do Executivo

 

A mudança proposta pelo Poder Executivo de alterar o nome das Folhas e ruas do Bairro Nova Marabá, por frutas e pássaros, respectivamente, tem causado grande debate na sociedade marabaense e nas discussões na Câmara.

A vereadora Elza Miranda avaliou que a Câmara faz o correto ao dar oportunidade para os cidadãos opinarem e expressarem seu sentimento sobre o projeto. “Esse núcleo tem história, com mais de 40 anos de existência e não o nome não pode ser deletado sem ouvir os moradores”.

A vereadora Vanda Américo opinou que o assunto é importante para toda a cidade.

“Para fazer uma mudança dessa requer ouvir a comunidade. Isso é nossa cultura, a história da cidade. O projeto das Folhas foi colocado pra gente e depois de 40 anos mudar sem consultar e ouvir não pode. Não se faz dessa forma. Isso mexe com a história das pessoas. Acho importante o diálogo e exercitar a democracia, para que as pessoas possam participar. Quem mora nos bairros são as pessoas, e elas precisam emitir algum juízo de valor. Não estou convencida da mudança. Não se faz cultura mudando a história, se faz cultura preservando-a”.

Para o vereador Cabo Rodrigo, existe uma divisão de opiniões na cidade. “Há muita gente em dúvida. Esse projeto tem 50% querendo que mude e 50% não. É verdade que na Nova Marabá as empresas de transporte por aplicativo têm dificuldade de deixar o usuário na porta do endereço”, contemporizou.

Raimundinho do Comércio também colocou que está ouvindo posicionamentos contrários e a favor. De acordo com ele, é papel da Câmara ouvir a comunidade, como representante do povo. “A Casa tem de continuar com as lives para ouvir o povo”.

O vereador Frank do Jardim União expressou que a inciativa é boa por abrir a oportunidade de a comunidade falar o que é melhor para ela. Mas, na visão dele, ao invés de focar na mudança de endereço, o Executivo deveria centrar forças na política habitacional, voltada para a regularização fundiária. “Acredito que 70% da área demográfica do nosso município se deu por ocupação. E esses bairros hoje, nem CEP têm. Então, há coisas mais importantes e de urgência para se tratar. O cidadão precisa ter seu título definitivo do imóvel”.

  

O que dizem os moradores sobre as propostas de mudanças?

 

Morada da Folha 21 – possível Bairro Murici – Geisa dos Santos não concorda com a mudança. Para ela, as pessoas já estão acostumadas com a nomenclatura das folhas.

“Se mudar as pessoas vão se confundir ainda mais. Já é meio difícil, com nomes de pássaros vai ser tornar mais difícil ainda. Tem uns nomes que a gente não vai conseguir lembrar”, argumenta.

O mototaxista Fabiano Fernando Guedes crê que a mudança vai ser muito importante para a cidade. Segundo ele, em algumas situações os endereços causam confusão, mesmo para ele, que roda a cidade toda. “Vai dar um certo trabalho para as pessoas se habituarem com os novos endereços, mas logo se acostumam.

Morador da Folha 30, o comerciante José Gonzaga se mostra bastante otimista: “Por um lado seria bom né, porque se juntarmos a 30 com a 34 o endereço vai ficar mais fácil de se achar, mas por um outro lado vai ficar meio complicado para se acostumar.

Ao ser informado sobre como ficaria a alteração do endereço do local, que se chamaria Rua Tachã, Bairro Cajuaçu, ele sorri e diz que ficará mais fácil de se localizar e que vai dar certo.

Carlos Alberto Pereira Rocha, morador da Folha 10, é totalmente contra a mudança. Ele alega que a Nova Marabá já nasceu assim, trata-se de um planejamento antigo para esse núcleo e que nunca teve problema com entrega de correspondência, por delivery.

Maria da Conceição dos Santos, há 35 anos residente na Folha 8, disse que iria achar maravilhosa e que é aberta à mudança. Quando soube que seu endereço pode mudar para Bairro Pupunha e Rua Socoí ela disparou: “Lindo, ótimo com café fica 10 anos e Socoí moram na beira do rio. Combinou, não é?”

(Ana Mangas, Zeus Bandeira e Henrique Garcia)

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