O que significa ser professor? Essa questão me acompanhou por toda a minha carreira docente, a partir dos dois primeiros exemplos que tive: primeiro minha mãe, que era dura e impaciente e me dava livros como se fossem brinquedos, mas para serem levados a sério; depois dela, tive a minha segunda professora, no primário, Dona Terezinha, meiga, suave e acolhedora que me fazia querer ficar na escola para sempre.
Ao longo de minha vida esses dois modelos se alternaram na figura de dezenas de professores e me deixaram com a impressão de que o bom professor deveria reunir as qualidades daquelas duas primeiras e que certamente, influenciaram meu modo de ser e de fazer docência, muito antes de estudar para tal. Fato é que, a despeito da força da formação acadêmica, ela não nos prepara suficientemente para a vida real da escola, um lugar sempre urgente e atual, de forma que os ecos de minha mãe e de minha primeira professora, e todos que e seguiram, ressoaram na professora que me tornei.
Dizem que há um provérbio africano que afirma: É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança, eu tomo a liberdade de dizer que isso também é necessário para se tornar professor, pelo menos é a minha verdade.
Leia mais:Na carreira docente, tudo é desafio, urgência e impermanência, pois não há garantias sobre o que vai dar certo numa sala de aula: cada dia é uma experiência em si mesma, um pequeno tropeço e todo o planejado se esvai num instante. O trabalho docente é de alta complexidade: como eu digo aos meus alunos, essa é a única profissão em que o profissional precisa lidar com várias pessoas, ao mesmo tempo, para produzir conhecimento, a despeito das diferenças individuais, frutos de suas histórias. Cada aula é sempre um acontecimento. Não basta saber o conteúdo, é preciso saber lidar consigo mesmo, com as gentes e as instituições.
Segundo a educadora Selma Garrido Pimenta, a constituição da identidade docente e o exercício da profissão exigem a articulação de três saberes essenciais da docência: Saberes do Conhecimento (ou de Conteúdo), Saberes da Experiência, Saberes Pedagógicos. Tais saberes não se obtém plenamente pela formação inicial, é preciso viver a experiência para tornar-se docente, não um mero transmissor de conteúdos, mas um docente crítico e reflexivo, que seja capaz de transformar a informação em conhecimento emancipatório na realidade: o sonho desse docente é formar pessoas com conhecimento científico de qualidade e também com capacidade de saber interpretar crítica e reflexivamente o mundo.
Então, o desafio para atingir esse objetivo é superar as limitações do sistema educacional, as próprias limitações e as limitações desses muitos outros sujeitos singulares chamados de alunos.
É um caminho árduo, longo e muitas vezes desalentador, mas, como somos movidos à esperança, a cada nova aula, levamos na alma o desejo de fazer a diferença no mundo por meio de nossos alunos. Como nos ensinou Paulo Freire, ter esperança é uma exigência ontológica (isto é, da própria natureza humana) e em especial uma condição para ser docente. Não há como ser educador sem acreditar que a mudança é possível. Ser educador é esperançar. Sempre.
* Profa. Dra. Eliane Pereira Machado Soares é professora de Linguística na Unifesspa
