Correio de Carajás

Conheça o jovem que, aos 23, é protagonista do movimento LGBTI em Marabá

Conheça o jovem que, aos 23, é protagonista do movimento LGBTI em Marabá
Com um discurso equilibrado e agregador, Igo Silva assumiu a coordenação da Parada LGBTI em Marabá e a elevou a outro status
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Quando saiu da pequena cidade de Rondon do Pará, em 2003, e se mudou para Morada Nova, em Marabá, Igo (sem R mesmo) Silva não imaginava que se tornaria uma das lideranças mais destacadas do movimento LGBTI nesta cidade. Com apenas 23 anos de idade, ele divide o tempo entre as atividades do curso de Ciências Sociais na Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará) com a militância homossexual e o trabalho em um blog de notícias que mantém na Internet.

Igo, que agora vive uma versão mais “paz e amor”, também está à frente da 11ª Parada LGBTI de Marabá e conseguiu ampliar o leque de entidades e personalidades apoiadoras da manifestação, que no início fazia confrontação com autoridades e com quem mantinha preconceito em relação ao movimento. Prefeitura, Ministério Público Estadual e, agora a Câmara Municipal, estão apoiando as ações desenvolvidas em torno do evento do próximo final de semana em Marabá. Acompanhe a seguir a entrevista concedida por ele aos jornalistas Ulisses Pompeu e Zeus Bandeira na Redação do Portal CORREIO DE CARAJÁS na tarde desta quarta-feira, 11:

CORREIO – De onde você é e como veio parar em Marabá?

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Igo Silva – Em 2003, minha mãe veio embora de Rondon do Pará, onde eu nasci, para Marabá. Ela havia se divorciado do meu pai e viemos viver com a família materna no distrito de Morada Nova.

CORREIO – Como foi sua infância e como lidou com sua homossexualidade junto à família?

Igo Silva – Eu acredito que sou um privilegiado em relação ao restante dos LGBTs. Graças a Deus, apesar da família do meu pai ser evangélica, principalmente a mãe e o pai dele, nunca tive problemas com isso. Recentemente, minha mãe me mandou um ‘áudio’ parabenizando pela minha fala na Parada LGBT de Parauapebas, dizendo que ‘estava certo’, que tinha mesmo que ‘queimar o mau’, e isso me deixou surpreso, eu não esperava. Minha família materna ficou sabendo da minha orientação sexual primeiro. Eu me dei conta de que sou homossexual aos 16 anos de idade e contei primeiramente para minha mãe. Toda mãe, no fundo, sabe, mas o diálogo não acontece em tempo hábil, e com a minha não foi muito diferente.

CORREIO – E como ela reagiu ao ficar sabendo por você?

Igo Silva – Ela me levava para sessões de descarrego nas igrejas pentecostais e círculos de orações, dizia que eu tinha de ser ‘homem de verdade’, mas não teve oração certa que me mudasse. Eu não engrossei a voz e não peguei gestos mais masculinizados porque eu sempre fui assim, na escola sempre muito comunicativo, bom de texto, de linguagem, e a partir dos 16 anos me descobri homossexual de verdade.

CORREIO – Explique melhor essa história de sessões de descarrego?

Igo Silva – Eu fazia parte de uma igreja neopentecostal e participava do grupo de obreiros. Percebi que estava tentando apagar o que eu sou e não aguentei a pressão de ter de fingir. Eu nasci assim. Até porque ser homossexual não é uma escolha, ninguém escolhe ser desrespeitado, ser maltratado com palavras na escola, no trabalho ou na rua, ninguém quer isso. A biologia ainda não chegou aos termos exatos do que é a homossexualidade, mas eu, particularmente, desde criança, com uns cinco ou seis anos já sofria acusações de parentes questionando minha sexualidade, o que deixava minha mãe furiosa. Ela acabava por armar várias confusões dizendo ‘parem de falar da vida dele! Vão cuidar das suas’. Incansáveis vezes já vi minha mãe discutindo com parentes, pois ela não aceitava. Por isso imagino que ela tenha recorrido às igrejas, já que até então não éramos muito religiosos. Eu devia ter entre 13 e 14 anos, já bem afeminado, quando ela decidiu se converter. Até que com 16 eu vi que não teria saúde mental para seguir em frente com aquilo.

CORREIO – Na sessão da Câmara, nesta quarta-feira, você usou as expressões “sou bixa” e “sou viado”. Você vê algum problema quando uma pessoa heterossexual utiliza termos pejorativos como esses?

Igo Silva – Não vejo problema, acho que é uma questão de empoderamento. Por exemplo, se aparecer um homem todo ‘marombado’ que seja eleitor do Bolsonaro enquanto eu estiver passando no meio da rua com esse cabelo (disse olhando para suas tranças sintéticas) e ele gritar ‘Ei veado!’, ‘Ei sua bicha!’, eu vou olhar pra ele com desprezo e dizer ‘sou mesmo!’. É diferente de outra situação, se eu chegasse ao Correio e encontrasse a Tayana Marquioro (Chefe de Redação da TV Correio) com a qual eu tenho uma intimidade, nós vamos nos tratar com um ‘E aí bicha? Tudo bem, veado?’. Não haveria maldade, pois estamos falando com a intimidade de amigos. É tudo uma questão de respeito, de contexto e de empoderamento. Então, não me preocupo que me chame de ‘veado’, eu sou o que sou: um veado empoderado. São palavras que fazem parte do dialeto LGBTI, sendo até discutida na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o que demonstra um movimento nacional de apropriação dos termos pejorativos de forma empoderadora para os LGBTIs.

CORREIO – Como você ficou sabendo das Paradas LGBTIs em Marabá?

Igo Silva – No ensino médio, quando estava estudando na escola Gabriel Sales Pimenta, em Morada Nova, em meados de 2013, no 2º ano do ensino médio, vi um outdoor próximo do Hospital Regional de Marabá com a fotografia de um homem e os dizeres “Noé Lima, um gay de luta”. Fiquei curioso e fui pesquisar quem era esse sujeito. Descobri que ele era o organizador da Parada LGBT em Marabá, e me dei conta de que aqui também havia o evento, já que até então o que eu conhecia era apenas o que eu via pela televisão, de maneira bem ridicularizada, em São Paulo. Mas só em 2017 cheguei a ir para minha primeira Parada LGBTI.

CORREIO – E como você se engajou no movimento LGBTI?

Igo Silva – O que me engajou, de fato, no movimento, foi a militância estudantil, começando pelo grêmio da minha escola e, posteriormente, em 2015, com a minha entrada na Unifesspa. O próprio conteúdo do curso me fez abordar essas questões sociais e como eu já sabia quem eu era, pensei em me aprofundar mais nisso. Conversei com várias pessoas, conheci o Noé Lima, a Kiara, a Vanessa Camelo e assim tive mais envolvimento com a militância. Me envolvi partidariamente também, com o Partido dos Trabalhadores (PT) que é de esquerda e acolhe, debate e luta muito pela causa LGBTI. Hoje não milito mais por ele, mas o considero muito importante para o meu despertar na militância.

CORREIO – Estar hoje no posto de coordenador geral da Parada estava nos seus planos, quando ingressou no movimento?

Igo Silva – Não. claro, que não. Em 2018, com o falecimento do Sandrinho – um dos organizadores pioneiros da Parada em Marabá – e meses depois do esposo do Noé, ele ficou sem ‘chão’. Noé resolveu estudar, cuidar mais de si, e como nós (os coletivos) da universidade estávamos já nos mobilizando e nos reunindo com a promotora Lilian Viana Freire, que em 2017 já havia começado a recomendar para a Prefeitura algumas políticas públicas para os LGBTs, acabamos nos aproximando da Parada. Como tenho mais articulação política, mais diálogo, acabou ‘caindo no meu colo’, então resolvi dar seguimento sempre frisando o coletivismo.

CORREIO – Quem está apoiando financeiramente essa versão do evento?

Igo Silva – A 11ª Parada do Orgulho LGBTI conta com apoio de diversas instituições do poder público, como a Prefeitura de Marabá, a Câmara Municipal e até o Governo do Estado. Um destaque para a atração principal do evento, a Banda Fruto Sensual, foi custeada por uma emenda impositiva do vereador Marcelo Alves, no valor de R$ 40.000,00, repassada pela Secretaria Municipal de Cultura. A Prefeitura ofereceu apoios de estruturas para as atividades da programação, além da divulgação, com cinco outdoors pela cidade e 150 camisetas. Já o Governo do Estado garantirá as emissões dos documentos.

CORREIO – Quem está por trás da organização da programação da Parada?

Igo Silva – A comissão organizadora é constituída por cinco ONGs que tomam a frente do evento. São eles o Levante Popular da Juventude, Atitude, Coletivo Empodere-se, Consciência LGBT e Articulação Brasileira de Jovens LGBT. Além das ONGs, temos também o apoio do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Unifesspa, que formam uma coordenação de mais de 15 pessoas que se reúnem desde junho para discutir e organizar a programação.

CORREIO – Qual será o diferencial da Parada LGBTI deste ano em Marabá?

Igo Silva – Ressaltamos a coletividade e a Parada como um cunho social. Então, levar uma programação com foco no social e na comunidade é o objetivo dessa edição. Queremos retirar essa imagem de que as pessoas pensam que seja um ‘Carnaval fora de época’ e mostrar que, na verdade, se trata de uma manifestação social. Não é uma tentativa de provocar as igrejas, nada disso. É um ato por direitos, por visibilidade, onde divulgamos com mais destaque o nome ‘marcha’, sem tanto foco nos demais atrativos do evento. É a luta, a causa.

CORREIO – Quando inicia a Parada LGBTI, exatamente?

Igo Silva – O primeiro dia será nesta sexta-feira (13), pela manhã, com uma coletiva de Imprensa no auditório da Prefeitura Municipal de Marabá, onde serão apresentadas as ações da Parada 2019. Também discutiremos o compromisso desses órgãos com as políticas públicas LGBTI’s, exaltando o envolvimento com a causa.

Ainda na sexta-feira, à noite, serão feitas visitas aos pontos de prostituição e vulnerabilidade social para distribuição de preservativos e convites para as atividades da Parada. Iremos até pontos como a Praça Monsenhor Baltazar Jorge, no Km 6, na Avenida Nagib Mutran e outros locais, onde estão não só LGBTs, como também muitas mulheres que são até mães. Lá, distribuiremos, além dos preservativos, alguns panfletos do CTA e convidaremos para a ação no sábado de manhã, no Mutirão de Saúde e Direitos Humanos.

CORREIO – E no sábado, como será a programação da Parada?

Igo Silva – Nessa ação, que ocorre no sábado de manhã, vamos oferecer serviços para todos que comparecerem, com foco na comunidade LGBTI, como emissão de carteiras de nomes sociais para pessoas trans e segunda via de Registro Geral (RG). Também ofereceremos consultas médicas, realização de testes rápidos de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), entre outros exames.

CORREIO – O que mudou, na sua avaliação, desde a realização da primeira Parada LGBTI em Marabá para agora?

Igo Silva – Estamos alcançando um ponto de equilíbrio. Para nós, da organização, são os exemplos, ao construir um evento que agrega um cunho social. É o caso da festa da pré-Parada, que arrecada latas de leite Ninho como entrada no local, sendo posteriormente doadas para as mães que vivem com HIV e não podem amamentar, as quais são cadastradas no Centro de Testagem e Aconselhamento de Marabá. Nomeada ‘Close The Stonewall’, a festa ocorre por ser uma tradição da Parada.

Já no domingo, será realizada a Marcha LGBTI na Orla de Marabá, com concentração na Colônia de Pescadores Z-30 às 16h seguindo em direção à Praça São Félix de Valois, onde serão realizadas as apresentações culturais e a atração principal, que é a Banda Fruto Sensual. Escolhemos a orla por ser muito frequentada pelas famílias aos domingos e é justamente com esse público que queremos dialogar, para que vejam que o evento não é uma ‘micareta’ e sim um ato social. (Zeus Bandeira e Ulisses Pompeu)

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