Correio de Carajás

Atleta trans reclama de transfobia em corrida do Corpo de Bombeiros

A atleta veio à Redação do Correio para denunciar a possível discriminação / Reprodução
Por: Kauã Fhillipe
✏️ Atualizado em 23/06/2026 14h59

A atleta trans Rayta Solaires denunciou ter sido vítima de transfobia durante a edição deste ano da Corrida do Fogo, realizada pelo 5º Grupamento de Bombeiros Militar (GBM), em Marabá. Segundo ela, após concluir o percurso de 7 quilômetros na primeira colocação da categoria feminina, seu resultado foi desconsiderado pela organização da prova.

Rayta afirma que participa da corrida há três anos e que, nas edições anteriores, recebeu normalmente as premiações conquistadas. Desta vez, porém, relata que foi impedida de subir ao lugar mais alto do pódio após vencer a disputa feminina.

“Nos outros anos eu fiquei em segundo e terceiro lugar e nunca houve problema. Este ano, porque fiquei em primeiro, não quiseram me dar o pódio”, declarou à reportagem. A atleta informou ainda que registrou um boletim de ocorrência e pretende buscar medidas judiciais. Ela também defende a criação de categorias específicas para atletas LGBTQIA+ em competições esportivas realizadas no município.

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Organização nega discriminação

Procurado pela reportagem, o comandante do 5º GBM e organizador da prova, tenente-coronel Felipe Galucio, negou qualquer ato discriminatório e afirmou que a atleta foi tratada com respeito durante toda a situação. Segundo ele, a organização se deparou com uma questão não prevista de forma específica no regulamento da corrida e buscou respaldo em normas esportivas adotadas por entidades da modalidade.

“O que aconteceu é que nos deparamos com uma situação complexa, envolvendo interesses que precisavam ser analisados com cuidado. A Corrida do Fogo não é uma prova federada, não existe uma norma específica que nos orientasse diretamente sobre o caso”, explica.

Galucio informou que a comissão utilizou como referência as regras da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), que atualmente restringem a participação de mulheres trans na categoria feminina em competições oficiais da entidade.

De acordo com o comandante, o regulamento da prova previa inscrições nas categorias masculina e feminina com base no sexo biológico. Por esse motivo, a organização decidiu invalidar o resultado da atleta na classificação feminina. “A manutenção do resultado acabaria impactando a classificação das demais atletas da categoria feminina, inclusive alterando a composição do pódio”.

O comandante acrescentou que a organização pretende discutir alternativas para as próximas edições da corrida, incluindo a possibilidade de criação de uma categoria LGBTQIA+.

“Reconhecemos que esse é um tema sensível e que vem sendo discutido em diversos lugares do mundo. Precisamos amadurecer essa discussão para tratar situações semelhantes de forma ainda mais clara e adequada”, completa.

O caso reacende o debate sobre a participação de atletas trans em competições esportivas e sobre os critérios adotados por organizadores de eventos. Enquanto Rayta Solaires considera ter sido alvo de discriminação, a organização sustenta que a decisão foi baseada nas regras esportivas utilizadas como referência para a prova.

A atleta informou que continuará buscando reconhecimento de seus direitos por meio das vias administrativas e judiciais cabíveis.

Outras polêmicas

Rayta Solaires não foi a única a ter queixas sobre a competição. A atleta Kátia Sirene Feitoza de Souza divulgou uma nota de repúdio após a realização da Corrida do Fogo, alegando que um erro na cronometragem teria alterado sua colocação na categoria feminina de 50 a 59 anos. Kátia afirma que concluiu o percurso em 37 minutos e 2 segundos, resultado que lhe garantiria a terceira posição no pódio, mas que o tempo registrado oficialmente acabou favorecendo outra competidora.

De acordo com a atleta, ao perceber a divergência, ela procurou a equipe responsável pela cronometragem para solicitar a revisão dos dados. No entanto, relata ter sido tratada com grosseria e que sua reclamação não teria sido analisada de forma adequada. Ainda segundo a nota, embora o sistema utilizado pela organização registrasse um tempo próximo ao apresentado por ela, a correção não foi realizada. Posteriormente, o resultado oficial passou a exibir um tempo superior ao inicialmente registrado.

Na manifestação, Kátia critica a condução do caso e defende que eventos esportivos devem ser pautados pela ética, transparência e respeito aos participantes. Ela também cobra mais rigor na apuração de possíveis falhas e afirma esperar que situações semelhantes não voltem a ocorrer, para preservar a confiança dos atletas e a credibilidade das competições.