Correio de Carajás

Atacado por quero-queros dentro de estacionamento

Crônica Ouriço Cheio

Crônica Ouriço Cheio

Ulisses Pompeu

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Foi nesta quarta-feira, dia 17 de novembro, finalzinho da tarde. Estava chegando ao Centro de Convenções, estacionei o carro e caminhava em direção ao auditório onde acontecia o encerramento da V Conferência Municipal de Educação. De repente, no corredor inóspito entre dezenas de veículos, um pedacinho de um canteiro, uma grama rala servia de ninho para um pássaro.

Ele estava deitado e também se assustou com minha presença e mandou um aviso para que eu não o importunasse. Não me aproximei mais do que aquilo. Peguei o celular e comecei a filmar. De repente, fui surpreendido por outras duas aves da mesma espécie que se aproximaram pelo flanco. Os três iniciaram, quase que ao mesmo tempo, um grito ensurdecedor, que entendi, logo, ser a defesa do território.

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A fêmea, que estava deitada, levantou-se e deu para ver os ovos que estavam sob a grama. Enquanto a fêmea mantinha-se a menos de dois metros dos ovos, os machos começaram a voar e me atacar. Afastei um pouco mais, mas o grito deles me convenceu de que ainda não se sentiam seguros.

Fiz fotos e mandei o vídeo para meu amigo biólogo Maricélio Guimarães, para ter certeza do nome da ave. Me confirmou que se tratava de quero-queros, cujo nome científico é Vanellus chilensis, e avisou que essa espécie de ave tem um ninho de incubação mas não usa material. A fêmea deposita os ovos diretamente no chão e senta-se sobre eles para incubá-los. O local de postura é sempre o mesmo do ano anterior. O casal defende o território agressivamente contra qualquer invasor voando rasante sobre quem se aproxima perigosamente do ninho e tem esporões nas asas.

Estavam ali porque a fêmea não faz ninho em árvores. Ela procura um buraco raso no chão e reúne um pouco de grama seca para formar uma base, sobre a qual os ovos são postos. As fêmeas geralmente põem de três a quatro ovos, que demoram entre 21 e 30 dias para eclodir. Os filhotes saem do ovo cobertos de plumagem. “Se você voltar aí daqui a alguns dias, vai ver os filhotes lá, com certeza”, disse Maricélio.

Tomei conhecimento de que os funcionários da limpeza do Centro de Convenções atuam para proteger o ninho dos quero-queros e até mesmo colocaram um cone ao lado dele para que nem os veículos ou as pessoas façam algum mal às aves ou aos ovos.

Segundo outra bióloga, Vanessa Kanaan, o quero-quero é uma ave fácil de ser encontrada em ambientes urbanos. “Com a diminuição de áreas naturais disponíveis, os locais dos ninhos podem incluir campos de futebol, praças, já que as aves não se intimidam com a presença humana. Porém, é preciso ter cuidado, pois há relatos de pessoas ameaçadas pelas aves porque resolveram se aproximar demais do ninho”, explica a bióloga.

A mesma bióloga adverte que os quero-quero são guiados e protegidos pelos pais e/ou grupo de apoio. Ou seja, se encontrar um filhote, observe atentamente se ele precisa de ajuda antes de resgatá-lo.

Aquele encontro não marcado do final de tarde foi suficiente para renovar as energias do dia. Passaram o sono, a dor de cabeça e veio a vontade de voar. Sim, voar, como fazem os quero-queros.

* O autor é jornalista há 25 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

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