Correio de Carajás

Unifesspa: Acadêmicos encaram dificuldades para cursar Ensino Superior

Foto: reprodução
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Não foram fáceis os dias que levaram Vitor Cesar Pereira da Silva, de 22 anos, ao terceiro período do curso de Ciências Econômicas, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, em Marabá. Problemas financeiros e psicológicos o afetaram e seguem sendo uma pedra no caminho do estudante que, sentindo-se abandonado pelos familiares, depende da ajuda de terceiros para se manter e poder concluir os estudos.

Vitor concluiu o Ensino Médio em 2014 e ingressou na universidade apenas em 2018. A pausa nos estudos acabou dificultando o acompanhamento das disciplinas. “A capacidade de absorção de matérias e conteúdo foi bem difícil já que estava em desuso meu acervo teórico”. Este problema, no entanto, foi o menor dentre os que ainda iria encarar.

Ele conta ter sido expulso da casa da mãe há dois anos por problemas de relacionamento e após ter sofrido diversos episódios de abuso psicológico. Depois, acabou deixando o emprego onde acreditava ser mal remunerado para tentar melhorar o futuro através de um curso superior. A decisão, no entanto, acarretou em problemas financeiros ainda mais graves e o estudante chegou a duvidar até se conseguiria se alimentar no dia seguinte.

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Ao iniciar a faculdade, não tinha acesso a material ou outros meios de estudo, sem contato com internet ou computador e dinheiro sequer para comprar canetas. O caderno pegou usado de um amigo que havia utilizado poucas páginas. Sem condições de se alimentar dentro do campus, passava muitas horas sem comer, o que culminou em problemas gastrointestinais.

“Muitas vezes eu ia de manhã pra lá (universidade) e só voltava à noite, já que ia de carona com amigos e não tinha como escolher os horários. Ficava sem café da manhã ou almoço e voltava quando algum amigo poderia me levar para casa, isso 21 ou 22 horas”. As coisas começaram a melhorar quando a família de um amigo percebeu parte dos problemas enfrentados por Vitor Cesar e ofereceu ajuda, fornecendo moradia e alimentação.

“Estão me dando apoio em moradia, alimentação, acesso à internet e até confortos, como passeios, mas há a tristeza de imaginar isso acabando de alguma maneira inesperada”, destaca. Os professores com quem o jovem conversou também tentaram auxiliar. “Demonstraram interesse em ajudar, já que muitas vezes não tenho dinheiro para ir até a faculdade. Acabo faltando bastante e tento conversar com os professores para tentar suprir isso com meu desempenho universitário”.

Uma forma de melhorar as condições de estudo do universitário seria o acesso aos programas de auxílio estudantil, mas a burocracia em torno da liberação de bolsas, por exemplo,impediu que ele recebesse qualquer apoio durante 2018. “É falho em ajudar quem está em situação de vulnerabilidade excepcional”, comenta. No caso dele, por exemplo, como os familiares têm boa condição financeira, apesar de não sustentarem o estudante, ele não conseguiu acesso.

“Bolsas são muito limitadas e o valor, mesmo que ajude, é pouco. Não dá para viver com R$ 400.Não paga os custos de vida, a não ser que tenha ajuda familiar, mas espero conseguir neste ano vindouro, entretanto as esperanças não são muitas”.

PESQUISA

A realidade vivida por Vitor Cesar, infelizmente, não é exceção. Quase 3 mil alunos participaram de uma pesquisa sobre o perfil socioeconômico e comportamental dos estudantes da Unifesspa, divulgada na última semana pela Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Estudantis (PROEX). Os resultados são pouco animadores.

O levantamento apontou que a maior parte dos acadêmicos vive com renda mensal bruta familiar de até dois salários mínimos (R$1.874), 29,16%, ao todo. Mostra, ainda, que 24,08% dos alunos vive com mais de meio e até um salário mínimo, ou seja, até R$ 937. Se engloba em resultado de até meio salário mínimo (R$ 468) mais 7,31% dos estudantes e 3,24% deles sequer possui renda.

Uma parcela de 27,33% dos estudantes tem renda bruta familiar dividida por até quatro pessoas, 22,16% dividem em três e 16,43% dividem em cinco. Dentre os estudantes pesquisados, 43,19% vive com os pais, enquanto 24,13% mora sozinho ou divide quitinete com colegas. Ainda neste cenário, 90,03% dos alunos informou não ter acesso à assistência estudantil e apenas 5,48% recebe auxílio-moradia, seguido de 2,33% recebendo auxílio-alimentação. Ao todo, 20,90% participa de programas de assistência estudantil e a maior parte dos estudantes, 46,94%, não possui emprego remunerado.

“Os dados demonstram que o corpo discente é composto por mais de 70% de estudantes oriundos de famílias com renda per capita de, no máximo, dois salários mínimos, e quase essa mesma proporção,67%, não trabalha formalmente e não ajuda na renda familiar. Isso mostra que a Unifesspa é feita de estudantes que são filhos da classe trabalhadora e que muitos se encontram em vulnerabilidade socioeconômica”, analisa o Profº Dr. Fábio dos Reis Ribeiro de Araújo, diretor da Diretoria de Assistência e Integração Estudantil (DAIE) da instituição.

Conforme ele, atualmente a Unifesspa conta com mais de 5 mil estudantes e, apenas neste ano, a diretoria recebeu mais de 2 mil solicitações de concessão de auxílio, tendo sido concedidos cerca de 1.200 auxílios para mais de 720 estudantes comprovadamente de baixa renda e alguns em situação de vulnerabilidade.

RECURSOS

Os auxílios são divididos em categorias como permanência, moradia e para pessoas com deficiência no valor de R$ 300. Há, ainda, o auxílio-creche de R$ 200 e o auxílio-transporte, que é de R$ 170. Bolsas são concedidas a discentes que requeiram e que sejam oriundos da rede básica de ensino público e com renda per capita de no máximo um salário mínimo na família.

Neste ano, a universidade recebeu R$ 3, 710 milhões a partir do Plano Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes) e 80% desse montante foi destinado à concessão dos auxílios. Caso não haja contingenciamento pelo Governo Federal estima-seque o mesmo valor seja encaminhado em 2019, o que já não é o suficiente.

“Manter o mesmo valor para a Unifesspa significa diminuição dos recursos porque como a universidade é muito jovem, tem apenas cinco anos, entram muito mais alunos que saem, diferente de universidades estabilizadas. Estamos criando novos cursos, as pessoas estão entrando nestes cursos e a nossa saída é apenas de cursos antigos”. Por este motivo, explica o professor, em 2017 o valor individual das bolsas precisou ser reduzido. 

“Até 2017 o valor máximo dos auxílios era de R$ 400 reais, mas como foi aumentando o número de discentes e o Pnaes manteve o mesmo recurso, tivemos que fazer assembleia estudantil e de comum acordo diminuir para R$ 300 para podermos atender um número maior de discentes ingressando”.

A maior parte dos alunos que respondeu ao questionário entrou na universidade pelas vagas de ampla concorrência, 40,17%, enquanto 21,14% adentrou com cotas atreladas à renda bruta per capita igual ou inferior a 1,5 salários mínimos e 11,63% por cotas independentes de renda.

SAÚDE MENTAL

Todas as dificuldades financeiras, o desamparo por parte da família, histórico de problemas psicológicos e medo de futuramente não ter novamente onde morar acabam desestabilizando emocionalmente o estudante Vitor Cesar Silva.
“Desde antes de sair de casa já tinha certa ansiedade, primeiro o que fazer da vida já que eu trabalhava, mas não via possibilidades devido ao salário baixo. Depois que saí, como conseguir pagar contas, como almoçar no outro dia, como iria ao trabalho. Fiquei desempregado, o que piorou as crises de ansiedade e dificultava a concentração, tinha crises de pânico”.
A ideia de suicídio chegou a rondar os pensamentos do estudante. “A ideia de morte passa à cabeça desde muito jovem, devido a muitos problemas de saúde, familiares, psicológicos que não foram tratados pela minha família, foram deixados de lado. Até hoje vem à mente pensamentos suicidas, mas graças ao acolhimento de amigos e à esperança de que a universidade me dê um melhor futuro acaba sendo sobrepujada”.
Neste quesito, o acadêmico também não está sozinho. À pesquisa, dos 3 mil alunos que responderam ao questionário, 1.354 relatam sentir ansiedade, por exemplo. Houve grandes porcentagens também em relação à desânimo, insônia, pensamento suicida, sensação de desamparo, entre outros.


Sobre as dificuldades que interferem significativamente na vida ou no contexto acadêmico, a maior parte destacou dificuldades financeiras, 33.33%, mas outros quesitos também atrapalham a vida dos estudantes, como adaptação a novas situações, carga excessiva de trabalhos estudantis, dificuldade de aprendizado, relacionamento familiar e relacionamento social.

Outros dados levantados pela pesquisa

Dentre os estudantes que responderam ao questionário, 63,55% se declararam pardos, seguidos de 15,97% brancos; 12,09% pretos que não vivem em comunidades quilombolas; 2,61% pretos quilombolas, 2,54% amarelos; 1,64% indígenas vivendo em aldeias, 1,30% sem declaração e 0,30% indígenas não vivendo em aldeias.


No questionário relacionado ao gênero com o qual as pessoas se identificam, a maioria se declarou homem cisgênero (heterossexual), 38,99%, seguido de mulher cisgênera (heterossexual), 36,38%. Na terceira colocação aparecem as pessoas que preferiram não responder à questão, somando 8,91%, seguido de pessoas que se identificam com outros gêneros não citados, 7,89%, e dos participantes da pesquisa que preferiram não se classificar, 6,47%. Dentro do mesmo universo, 0,61% se identificaram como mulher transexual/transgênera, 0,47% como não-binário e 0,27% como homem transexual/transgênero.


No quesito orientação sexual, a maioria das pessoas pesquisadas, 71,33%, se afirmou heterossexual. A segunda maior fatia é das pessoas que preferiram não responder à pergunta, seguido de 7,46% que afirmaram ter orientação sexual diferente das opções apresentadas. Foram contabilizados, ainda, 4,87% de homossexuais, 3,88% de pessoas que preferem não se classificar, 3,06% de bissexuais, 0,39% de assexuados e 0,20% de pansexuais.


A maioria diz nunca beber (52,46%), enquanto 36,17% diz que bebe ocasionalmente, 9,34% aos finais de semana, 1,53% várias vezes na semana e 0,50% todos os dias. Em relação ao uso de tabaco, a maior parte 90,67% afirma não usar, enquanto 5,30% faz uso ocasionalmente, 1,91% todos os dias, 1,07% aos finais de semana e 1,04% várias vezes na semana.

As drogas ilícitas, no entanto, são mais consumidas pelos universitários que a bebida e o tabaco. A taxa de quem afirma nunca usar cai para 88,33% neste caso, enquanto 6,24% afirmam usar ao menos uma vez por semana, 3% uma vez por semana, 1,26% todos os dias e 1,16% várias vezes por semana.

Quando o assunto é medicação psiquiátrica, 92,78% relata que nunca tomou, enquanto 4,23% diz não tomar mais e 2,99% ainda toma. Dentre os estudantes que participaram, 3,37% fazem atendimento psicológico. (Luciana Marschall)

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