Correio de Carajás

“Araguaia, Guerra dos Ossos” será lançado nesta sexta em Marabá

A produção resgata a busca pelos desaparecidos da Guerrilha do Araguaia e será apresentada ao público nesta sexta-feira (7), na Unifesspa

Pichação em muro sob viaduto com a frase 'Onde estão os mortos da ditadura?' e a sigla PCR/UJR.
Produzido em três episódios, "Araguaia, Guerra dos Ossos" é um resgate histórico necessário
Por: Chagas Filho
✏️ Atualizado em 06/08/2026 17h14

Marabá recebe nesta sexta-feira (7), a partir das 18h, o lançamento do primeiro corte da minissérie documental “Araguaia, Guerra dos Ossos”. Trata-se da nova produção da TramaTeia Filmes, que resgata a busca pelos restos mortais dos guerrilheiros desaparecidos durante a Guerrilha do Araguaia, episódio marcado pela repressão da ditadura militar brasileira na década de 1970.

A exibição acontece na Unidade III da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), em sessão especial aberta ao público. Após a apresentação, haverá um debate com o diretor da obra, o professor e produtor cultural Evandro Medeiros, e com Sezostrys Alves da Costa, presidente da Associação dos Torturados da Guerrilha do Araguaia (ATGA).

Para Evandro Medeiros, o filme busca fazer justiça aos desaparecidos da guerrilha

A apresentação vai ter audiodescrição e Libras, para atender à comunidade de surdos e cegos.

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Segundo os organizadores, a sessão tem caráter colaborativo. O objetivo é apresentar ao público o chamado “primeiro corte” da produção para colher avaliações, sugestões e observações que possam contribuir para a etapa final de pós-produção da série.

Produzida em três episódios, “Araguaia, Guerra dos Ossos” reúne relatos de camponeses que testemunharam os acontecimentos da época e de integrantes do Grupo de Trabalho Tocantins (GTT), iniciativa do governo federal responsável por expedições realizadas na região em busca dos corpos de guerrilheiros mortos e desaparecidos durante a repressão militar.

A nova produção dá continuidade ao documentário “Araguaia Campo Sagrado”, lançado em 2010, que registrou depoimentos de moradores da região sobre a convivência com os guerrilheiros e as violações de direitos humanos cometidas durante as operações militares no sul e sudeste do Pará.

De acordo com Evandro Medeiros, a série retoma um trabalho iniciado há mais de 16 anos, quando a equipe acompanhou a presença de representantes do governo federal e da então Secretaria Especial de Direitos Humanos na região para um pedido oficial de desculpas aos camponeses vítimas da repressão.

“Retomamos os arquivos de vídeo produzidos naquela época e reunimos novas entrevistas e imagens para ampliar essa narrativa, abordando a busca pelos corpos dos desaparecidos, a memória dos camponeses e a luta por verdade e reparação”, destaca o diretor.

A produção também relembra o ato público realizado em 18 de junho de 2009, em São Domingos do Araguaia, quando o então ministro da Justiça, Tarso Genro, pediu formalmente perdão, em nome do Estado brasileiro, às famílias e moradores que sofreram violações durante a repressão à Guerrilha do Araguaia. O episódio integrou as ações da Comissão de Anistia voltadas ao reconhecimento e à reparação das vítimas da ditadura.

Homenagem a Paulo Fonteles Filho

Um dos principais personagens da série é o ativista de direitos humanos Paulo Fonteles Filho, conhecido como Paulinho Fonteles, que participou das investigações sobre os crimes cometidos durante a Guerrilha do Araguaia como integrante e coordenador da Comissão Estadual da Verdade do Pará.

Filho do advogado e deputado estadual Paulo Fonteles — assassinado em 1987 por sua atuação em defesa de trabalhadores rurais — Paulinho também colaborou na produção de “Araguaia Campo Sagrado”. Ele morreu em 2017, aos 45 anos.

Segundo Evandro Medeiros, a minissérie também presta homenagem à trajetória dos dois. “Paulinho foi um grande amigo e um dos responsáveis por manter viva a luta pela verdade, pela memória e pela localização dos corpos das vítimas da Guerrilha do Araguaia. Esta série também é uma homenagem ao legado dele e de seu pai”, afirma.

Produção percorreu diferentes cidades

Durante as gravações, a equipe da TramaTeia Filmes percorreu municípios do sudeste paraense e cidades como Belém, Brasília, Salvador e Uberlândia para registrar entrevistas com familiares de guerrilheiros desaparecidos, camponeses e parentes de Paulo Fonteles Filho.

Além do lançamento da série, a programação inclui uma oficina de produção audiovisual com uso de telefone celular, ministrada pelo videomaker Caed Alves, para estudantes indígenas e camponeses da FECAMPO/Unifesspa. A atividade integra as ações de contrapartida do projeto.

Os organizadores também informaram que estão previstas exibições da produção em escolas públicas de Marabá e do município de Palestina do Pará, cujas datas ainda dependem de confirmação.

A minissérie “Araguaia, Guerra dos Ossos” foi contemplada pelo Edital nº 02/2025 de Fomento à Criação de Projetos Culturais da Secretaria de Estado de Cultura do Pará (Secult-PA) e da Fundação Cultural do Pará (FCP), com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Ministério da Cultura.