📅 Publicado em 22/05/2026 16h46✏️ Atualizado em 22/05/2026 16h59
Alunos e professores do curso de Medicina da Afya, em Marabá, participaram do 12º Festival da Colheita da Castanha Nova, promovido pelo povo Gavião Kyikatejê. A iniciativa levou atendimentos médicos de diversas especialidades — como geriatria, dermatologia, pediatria e clínica médica — diretamente ao território indígena, garantindo assistência de saúde para a comunidade local e para os visitantes do evento.
A parceria, que já está em sua terceira edição, foi destacada por Concita Sompré, representante do povo Gavião, como um passo fundamental tanto para o bem-estar dos indígenas quanto para a formação humanizada dos futuros médicos.
“É muito importante pensar na formação desses profissionais de saúde, permitindo uma imersão dentro de uma comunidade indígena. Muitos deles vão atender na cidade e talvez nunca tivessem esse contato direto. Mas nós sabemos que existe uma diversidade de povos, e os povos indígenas têm suas peculiaridades na forma de se relacionar”, afirma.
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Um dos grandes diferenciais da ação é o atendimento in loco, que evita o deslocamento dos pacientes até os centros urbanos e leva especialidades médicas escassas na região.
“Eles trouxeram especialistas aos quais não temos acesso todos os dias. Ontem tivemos atendimento com geriatra, um profissional muito escasso em Marabá. Também trouxeram pediatras e clínicos gerais, além de dermatologista pela primeira vez — especialidades com grande demanda tanto no SUS quanto na rede privada. É um projeto que vale a pena ser apoiado. Para o futuro, queremos estender a parceria para incluir também o atendimento odontológico”, completou Sompré, ressaltando que o festival reúne cerca de mil pessoas entre moradores e visitantes.
Prática médica e respeito cultural
Para o corpo docente da instituição, a oportunidade de tirar os estudantes da sala de aula e levá-los para a realidade de campo enriquece o processo de aprendizagem. A médica pediatra e professora Dra. Lígia Leal explicou como a dinâmica funciona durante o período de festividades da aldeia.
“É um momento de grande aprendizado e imersão cultural para os estudantes. Como está acontecendo o festejo da colheita da castanha, os alunos vão a campo e fazem a busca ativa dessas crianças na própria festa para oferecer o atendimento. Na pediatria, que conta com 12 alunos nesta ação, realizamos consultas de puericultura, acompanhamento de peso, estatura, orientações alimentares e revisão vacinal, além de atendimentos de emergência”, relatou a médica.

A pediatra citou casos práticos acompanhados pelo grupo, como o de uma criança diagnosticada com otite grave, que recebeu orientação e a prescrição do antibiótico necessário para o tratamento. Casos de desnutrição e erros alimentares também foram identificados e corrigidos pela equipe. Além da pediatria e da clínica médica, a presença da dermatologia foi estratégica.
“Contamos com o apoio de uma dermatologista nesta ação. Como os indígenas utilizam muito as pinturas corporais tradicionais, às vezes ocorrem irritações na pele, e aproveitamos o momento para tratar essas e outras lesões cutâneas descobertas durante os exames”, disse a pediatra.
O forte calor da região foi outro fator que demandou atenção redobrada da equipe médica. A delegação de Tocantínia (TO), que viajou para o festival com uma comitiva de 51 pessoas, sentiu de perto o impacto da mudança climática. O secretário dos povos indígenas do município tocantinense, Reginaldo Xerente, relatou que o clima paraense afetou diretamente o bem-estar físico de seus atletas.
“Nós sentimos, sim, essa mudança. Até os nossos atletas sentiram. Alguns tiveram episódios de diarreia e outros não aguentaram o calor e precisaram retornar ontem por não terem se adaptado ao clima local”, explicou o secretário.
Mesmo diante do mal-estar provocado pela desidratação e pelo choque térmico, a comitiva recebeu suporte imediato da equipe de saúde presente no festival. Os competidores foram atendidos, o que permitiu a recuperação do grupo para dar continuidade às competições tradicionais.

“A equipe médica que está aqui presente nos atendeu. O pessoal já está se recuperando. É uma situação um pouco complicada para competir, mas os nossos atletas são guerreiros e queremos seguir firmes até o encerramento do evento”, concluiu Xerente.
Worlly, da Aldeia Anambé, do município de Moju, aproveitou a presença dos estudantes e médicos para consultar o filho de quatro anos. Segundo o pai, o menino misturou açaí com suco de frutas e acabou tendo problemas digestivos, vomitando durante a madrugada.
“Muito bom ter esses médicos aqui. Aproveitamos para ver como ele está. Eles atenderam bem, explicaram que precisa hidratar bastante e que não é necessário medicamento”, disse o indígena.
