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A marabaense Larissa Michele Araújo tem 21 anos e uma grande diferença entre ela e grande parte das jovens da mesma idade: ela toca bateria. Também há um abismo de distinção entre ela e outros amantes do instrumento: ela toca sem ouvi-lo, pelo menos da maneira tradicional.

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Larissa nasceu surda e sua maneira de escutar o som é diferente da conhecida por grande parte das pessoas. Quem conseguiu ajudá-la a descobrir o sentido e a ensinou diferentes ritmos musicais que já consegue reproduzir foi o músico Walkimar Guedes Silva Amorim, de 32 anos.

As vidas dos dois se cruzaram na 1ª Igreja Batista do Bairro Novo Horizonte, onde, inclusive, cerca de 30 outros surdos também congregam por causa de uma especificidade: o templo possui interpretação em Libras de cultos e outras atividades, o que se deve a mais uma personagem dessa fascinante história.

Há alguns anos Miciléia Loyola e a família se mudaram de Parauapebas para Marabá e passaram a frequentar a igreja. Ela, intérprete de Libras, logo achou uma forma de integrar a profissão – e dom – à vida religiosa, mobilizando os surdos da região que tivessem interesse em frequentar os cultos e realizando tradução em Libras durante eles.

“Às vezes eles têm vontade de frequentar, mas procuram outros locais e não têm intérpretes. Como o português é a segunda língua e a gramática dos surdos é diferente fica complicado. Tendo intérprete é o ideal, fica mais fácil de acompanhar”, comentou Walkimar.

ENCONTRO

Ele se envolveu com música ainda na infância, aos 11 anos, quando aprendeu a tocar trompete e em seguida saxofone. No decorrer dos estudos ampliou o conhecimento, passando dos instrumentos de sopro para outros, dentre eles a bateria, enquanto ainda frequentava a igreja, onde já tocava.

Aos 18 anos começou a empregar profissionalmente os resultados dos anos de estudo, se afastando um tempo da igreja e se apresentando musicalmente, além de produzir shows. Há cerca de seis anos se reaproximou da religião e voltou a tocar em templos. Em 2015 foi para a Igreja Batista onde hoje é diretor de Música.

Larissa Michele frequentava a mesma igreja e havia se aproximado de Miciléia. De longe, observava a banda e em meados de 2017 manifestou desejo de aprender bateria. “A Larissa sempre ficava de olho nos músicos tocando e falou que queria tocar bateria, mas falou meio sem fé. A Miciléia veio falar comigo e questionou como poderíamos fazer isso. Eu disse que nunca tinha ensinado nenhum surdo, mas que aceitava o desafio. Disse que iria estudar, pesquisar, me aprofundar e ensinar ela. Foi assim que começou nosso trabalho”, explica Walkimar.

A partir disso, o músico começou a estudar um pouco de Libras e se aprofundar nas formas de ensino. “Passei a pesquisar como ela sentia o som, de que forma. A bateria é um instrumento completamente acústico, então ela vibra mais, ou seja, mesmo sem ouvir tem como sentir ela no corpo. Além disso, as baquetas – ao tocarem no instrumento – fazem o contato de vibração na mão”, diz.

A partir da vibração sentida pelo corpo, ressalta, Larissa já consegue diferenciar todas as peças da bateria. “Ela toca em um e sabe qual é, sabe qual é a caixa, qual é o chimbal, sente tudo, os outros tambores… não é simplesmente sentir, ela diferencia todos eles. Isso que fui pesquisar como trabalhar”.

Walkimar teve auxílio de intérpretes para se comunicar inicialmente com Larissa, quando começou tentando ainda mostrar como tocar. Diante da dificuldade encarada pela jovem desta forma, lançou mão da teoria musical, técnica com a qual ela se identificou rapidamente. “Foi o que ela aprendeu, ela consegue ler a partitura e tocar, ela foi alfabetizada musicalmente. Eu escrevo a partitura do ritmo e ela sabe, consegue decifrar. Foi a forma mais fácil que ela conseguiu assimilar”, conta. Segundo o músico, Larissa já toca diversas músicas junto do Ministério do Louvor.

PEDAGOGIA

O que começou a partir do desejo de Larissa em aprender e da força de vontade de Walkimar em ensinar acabou rendendo frutos ainda maiores e o resultado foi um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que ele defendeu há alguns dias no curso de Pedagogia, na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).

Ao longo da execução do trabalho, intitulado “Musicalização de pessoas surdas –  Estratégias didático-pedagógicas de ensino”, Walkimar aplicou o método a outros quatro jovens surdos no Centro de Atendimento Especializado na área da Surdez (CAES), da Secretaria Municipal de Educação (Semed) de Marabá.

“Diante do contato com ela esse estudo foi surgindo, ela foi minha experiência inicial, fui analisando o que dava e o que não dava certo, observando as respostas e enveredei no estudo que resultou no meu TCC. Diante disso, além da questão vibracional tem a questão visual. Os surdos são muito visuais, inclusive ela fica vendo tudo, ela percebe tudo, todos os movimentos que eu faço. Esse fator também tive que trabalhar porque às vezes muita distração visual atrapalha. A metodologia que utilizei foi explorando a questão visual e vibro-tátil”, afirma.

Na unidade do CAES foram explorados outros métodos. “Lá trabalhei a questão visual com slides, gifs e eles observavam muito. Levei também os instrumentos de sopro e percussão, apresentei a eles e os alunos conseguiram perceber bastante. Trabalhamos a musicalização, que é a imersão da pessoa na música, seja surda ou ouvinte. Ela vai perceber os sons, grave, agudo, alto, baixo, mais rápido, mais lento, a questão do ritmo, trabalhamos todos os aspectos de forma bem detalhada”, explica.

O resultado do trabalho apresentado diante da banca foi um excelente e Walkimar até recebeu a proposta de fazer um livro a partir deste estudo. “Prezamos o bilinguismo – em português e em Libras – usando de forma transversal a música, como ferramenta pedagógica. Utilizando ela, posso trabalhar português, matemática, física, biologia, tanto com o ouvinte quanto com o surdo, assim chegamos à questão da inclusão numa sala de aula mais abrangente. A questão não é ensinar música para surdos é utilizar a musicalização para ensinar tanto ouvinte quanto o surdo na mesma sala”.

MUDANÇAS

Ao final das aulas no centro especializado, uma das atividades desenvolvidas por Walkimar para o TCC foi uma entrevista junto aos familiares dos participantes, onde descobriu que eles acabaram aguçando a sensibilidade para ruídos, mesmo sendo surdos. “Questionei se perceberam mudanças neles e a maioria respondeu ‘parece que ele voltou ouvindo’, disseram que qualquer movimento, qualquer barulho, eles prestam atenção. A gente pensa ‘será que tá conseguindo ouvir alguma coisa?’, mas não, está mais sensível a qualquer tipo de movimento ou vibração, pela pele, o movimento que tem ele é capaz de captar”, discorreu.

Larissa, por exemplo, que é surda profunda, ela passou a perceber melhor alguns sons, principalmente os mais agudos, como a buzina dos veículos. “Outro dia eu estava caminhando com ela e um rapaz assoviou, ela olhou pra trás. Ela tinha percebido o som agudo, ela começa a estar mais atenta a isso, inclusive no trânsito onde é importante. Ficam mais sensíveis às buzinas, barulhos mais fortes dos carros, vento que o carro produz. Estão mais sensíveis a isso e eles sentem pela pele, não que não sentissem antes, mas é questão do estalo, de perceber melhor agora”, finalizou. (Luciana Marschall e Ulisses Pompeu)

 

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