📅 Publicado em 03/09/2026 14h43
A investigação sobre a morte de Valentina Irene Alves Pereira, de 15 anos, revela uma trama de violência e rivalidade entre organizações criminosas que atuam em Marabá. Segundo a Polícia Civil, o crime teve como ponto de partida uma fotografia da adolescente fazendo gestos associados a uma facção.
O caso foi detalhado durante coletiva realizada na sede da Polícia Civil nesta quinta-feira (3). Na quarta (2), três pessoas apontadas como participantes do crime foram presas: Adriele Vitória Silva dos Santos, Leonarda Sousa Silva, conhecida como Léo, e Jonas Mikael da Silva Rocha, conhecido como ‘Black’ e companheiro de Adriele. Conforme a Polícia Civil, duas prisões ocorreram por meio de mandados judiciais, enquanto Jonas foi detido em flagrante.
“Foi feita uma ‘casinha’ para Valentina”
Leia mais:
O desaparecimento da adolescente foi registrado no dia 25 de agosto por uma equipe plantonista da Delegacia Especializada no Atendimento à Criança e ao Adolescente (Deaca). A partir da comunicação do desaparecimento, a investigação foi encaminhada à Delegacia de Homicídios, que passou a realizar diligências para descobrir o paradeiro da jovem.
Oito dias depois, a operação resultou na localização do corpo. Valentina foi encontrada enterrada em uma área de mata atrás do Residencial Tiradenes, com sinais de violência. A perícia identificou diversas perfurações provocadas por arma branca e, posteriormente, localizou projéteis que serão submetidos a exame complementar.
Segundo a investigação, a fotografia em que Valentina aparece fazendo gestos associados a uma facção teria sido encaminhada a lideranças de um grupo criminoso rival. A partir disso, conforme a polícia, teria sido tomada a decisão sobre o destino da adolescente.
“A vítima foi privada de sua liberdade no dia 25 (de agosto), permaneceu por horas amarrada para no dia seguinte, aproximadamente depois de 15 horas desse sequestro, ter sua vida suprimida”, informou o delegado Antônio Mororó, superintendente regional de Polícia Civil.
A polícia identificou que a adolescente estava no núcleo Cidade Nova quando foi levada até à área de mata, próxima a Morada Nova. Conforme as investigações, ela teria acompanhado voluntariamente integrantes da facção, mas, ao chegar ao destino, descobriu que seria submetida ao chamado ‘tribunal do crime’. Esse é o nome dado ao método utilizado por facções para julgar e executar pessoas consideradas rivais ou que descumprem regras impostas pela organização.
Antes desse episódio, segundo o delegado Leandro Benício, da Delegacia de Homicídios, teriam sido realizadas diversas “sabatinas” entre integrantes da facção para decidir o que seria feito com a adolescente. A decisão, conforme a investigação, terminou no sequestro, tortura e morte da jovem.
Durante o período em que permaneceu sob domínio do grupo, Valentina teria sido submetida a mais de uma dezena de golpes de faca. A polícia também encontrou indícios de que houve disparo de arma de fogo dentro da boca da vítima. Os projéteis encontrados serão encaminhados para perícia complementar.
Suspeita senta sobre o corpo
De acordo com a Polícia Civil, na noite em que o caso chegou à Delegacia de Homicídios já havia indícios de que Valentina poderia estar morta. Nesta quarta, equipes policiais deram cumprimento a um mandado de busca e apreensão no Residencial Tiradentes, no endereço de Adriele e Jonas. A essa altura, Leonarda já havia sido alvo de um mandado de prisão temporária.

Ao ser abordado, Jonas confessou que a adolescente havia sido submetida ao ‘tribunal do crime’. Ele alegou não ter participado diretamente do crime, mas disse que foi ao local levar água e mantimentos para pessoas que participaram da execução.
Na área de mata, Jonas apontou uma árvore onde o grupo se encontrou e onde foram localizadas garrafas, embalagens de alimentos e uma carteira de cigarro. Ele negou, em seguida, saber onde estava o cadáver.
Afirmou, no entanto, que Adriele participou do crime, afirmando que, pelas regras da facção, mulheres são responsáveis pela execução de outras mulheres.
Adriele então confirmou aos policiais que teria participado da ação e apontou uma área de mata, onde o crime teria ocorrido. Foram observadas manchas de sangue em duas folhas de árvore e localizada uma faca, sem cabo, supostamente usada no crime.
Adriele negou ter participado da ocultação do cadáver e, em seguida, pediu para se sentar no chão, mantendo a partir disso um diálogo amistoso com a equipe policial. Com a chegada da equipe pericial, um auxiliar observou que o local onde ela estava sentada tinha alguns sinais de terra solta. A equipe então cavou no ponto onde a suspeita estava e localizou o corpo.
Para os investigadores, Adriele insistiu em sentar naquele ponto para dificultar a descoberta da cova, já que havia diversas equipes policiais circulando pela área de mata.
Crime gravado
As diligências começaram por volta das 13h e o corpo foi encontrado aproximadamente às 17h. Durante a operação, também foram encontradas drogas e uma arma de fogo em uma das residências.

Segundo Mororó, houve demora para abrir a porta de uma casa e Jonas chegou a fugir pulando o muro. Com apoio de moradores vizinhos, as equipes conseguiram acessar outros imóveis e prendê-lo.
Ele arremessou um celular durante a fuga, mas o aparelho foi recuperado. Nos celulares apreendidos na ação, a polícia encontrou fotografias e vídeos da adolescente morta e da execução. O crime, segundo Benício, teria sido registrado com o objetivo de comprovar que a ordem havia sido cumprida para outras lideranças que estavam acompanhando a situação de forma virtual. O material reforça a participação dos presos e a autoria investigada.
Para a delegada Simone Felinto, diretora da 21ª Seccional Urbana de Polícia Civil, o resultado da investigação representa uma atuação conjunta das forças policiais de Marabá, destacando a atuação integrada entre as unidades policiais e a Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core), e que a Polícia Civil pretende manter a atuação diante de crimes que provocam forte impacto na população.
Ao final da operação, além de esclarecer parte da dinâmica do assassinato, a polícia conseguiu localizar o corpo e entregá-lo à família para a realização do velório e sepultamento. As investigações continuam para esclarecer integralmente a participação de cada envolvido e a dinâmica do crime.
