Correio de Carajás

A mente mounjaro que meus amigos criaram

Um cronista observa a ascensão de um fenômeno que promete emagrecimento sem sofrimento físico, apenas com sacrifício financeiro, e reflete sobre o custo da 'facilidade'.

Imagem promocional de A Crônica Ouriço Cheio com Ulisses Pompeu, um homem sorridente de óculos e camisa cinza.
✏️ Atualizado em 19/02/2026 08h07

Descobri, com um certo atraso sociológico, que estou cercado por uma nova religião. Não é o crossfit, não é o jejum intermitente, não é a dieta paleolítica, nem o culto aos 30 ovos diários que fedem a existência inteira. É a Igreja Universal do Mounjaro, com suas missas silenciosas, suas canetas discretas e seus fiéis cada vez mais magros e sorridentes.

Enquanto eu acordo às 5 horas e tomo minha creatina com a solenidade de quem assina um tratado de paz com o próprio corpo, eles acordam e tomam outra decisão. Não suam. Não gemem. Não pedalam contra o vento. Apenas aplicam.

É uma fé sem sofrimento físico. Apenas com sacrifício financeiro.

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Tenho feito um levantamento empírico, quase antropológico, da coisa. Não é julgamento. É curiosidade científica de cronista.

O primeiro foi o Fábio, que em três meses perdeu o que ele chama de “traumas alimentares”. O segundo, o Marcelo, que continua comendo picanha, mas agora com uma leve indiferença aristocrática. O terceiro é o João Paulo, que já não fala de comida, fala de doses.

A quarta é a Patrícia, que diz que não sente mais fome, mas sente uma estranha superioridade moral nos almoços de família. A quinta, a Cláudia, que continua indo ao restaurante, mas agora apenas contempla.

O sexto é o Roberto, que emagreceu antes mesmo de pagar a última parcela do cartão. O sétimo, o Sandro, que nunca mais reclamou da balança, apenas do preço da farmácia. O oitavo, a Fernanda, que agora diz frases como “meu corpo respondeu bem”.

O nono é o Cristiano, que emagreceu sem abandonar a cerveja. O décimo é a Juliana, que emagreceu sem abandonar nada. O décimo primeiro é o Henrique, que emagreceu sem perceber.

A décima segunda é a Renata, que emagreceu e ganhou seguidores. E o décimo terceiro é o André, que emagreceu e ganhou silêncio.

Nenhum deles sua às sete da manhã. Nenhum deles negocia com a própria preguiça. Nenhum deles conhece o gosto metálico da exaustão quando o pulmão implora por misericórdia.

Enquanto isso, eu sigo pendurado nas minhas pequenas penitências. Pedalo 60 quilômetros por semana contra o vento morno de Marabá, como quem tenta fugir de si mesmo. Nado 10 quilômetros, em ciclos semanais, olhando o fundo azul da piscina do Sesi e pensando na inutilidade heroica de continuar.

Eles emagrecem no sofá. Eu emagreço em parcelas de sofrimento.

O mais curioso é que todos continuam frequentando os mesmos lugares. Sentam nas mesmas cadeiras, pedem os mesmos pratos, fazem as mesmas piadas. Mas existe uma ausência. Uma ausência invisível. Como se uma parte deles tivesse sido editada em silêncio. Não é apenas o peso que vai embora. Vai também aquela negociação íntima entre o desejo e o limite, aquela pequena batalha que cada garfada representava. Agora tudo é mais limpo, mais eficiente, mais clínico. Comer virou um detalhe técnico, não mais um acontecimento emocional.

Outro dia, sentado com todos eles, percebi que seus corpos estavam mais leves, mas havia algo que eu não sabia nomear. Não era inveja. Era uma estranha sensação de que estavam sendo ajudados por uma força invisível, enquanto eu ainda insistia em negociar diretamente com a gravidade.

Recentemente, no vestiário da academia, vi um deles se olhando no espelho com uma mistura de orgulho e incredulidade. Passava a mão na própria barriga como quem verifica a consistência de um sonho. Não havia euforia. Havia confirmação. Como se o corpo tivesse finalmente obedecido sem discutir. Pensei no tempo em que nossos corpos eram territórios de conflito, cheios de greves, sabotagens e traições. Agora, domesticados por uma molécula estrangeira, parecem funcionários públicos em final de carreira: cumprem a função, não criam problemas, não fazem perguntas.

Também quero perder quatro quilos. Apenas quatro. Não é muito. Caberia facilmente dentro de uma caneta.

Mas ainda prefiro sofrer.

Prefiro o atrito do pedal, o silêncio comprido da piscina, o suor escorrendo como uma prova física de que ainda estou aqui, inteiro, imperfeito, em guerra lenta e honesta contra mim mesmo.

 

 

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.