Marabá é terra de encontros de rios, mas também de desencontros de almas. Aqui, a justiça muitas vezes não veste toga; ela calça chinelos, carrega o luto no olhar e, por vezes, acelera um motor em busca de acerto de contas.
O luto de gelo no Km 7
Recuemos no tempo. O cenário é o Km 7, um bairro que carrega em suas ruas a poeira de muitas histórias mal resolvidas. Naquela manhã, o asfalto queimava não só pelo sol, mas pelo sangue do filho caçula de Dona Fátima, estendido em via pública após um assassinato brutal. O que se viu ali foi um espetáculo de dor atípica. Enquanto o mundo esperava o grito lancinante de uma mãe, recebeu o silêncio.
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Dona Fátima ajoelhou-se. Durante seis longos minutos – que para quem assistia pareceram horas – ela permaneceu estática. Nenhuma lágrima correu pelo rosto vincado. Ela não tocou no corpo de forma desesperada; apenas o guardou na memória. Era um luto de gelo, uma resignação que, na verdade, era o casulo de uma fúria organizada.
Ao levantar-se, a frase dirigida aos policiais que isolavam a área foi de uma polidez gélida: “Cuidem do meu filho que vou acolá”. O “acolá” era o CRAMA, o Centro de Recuperação Agrícola Mariano Antunes. Dona Fátima atravessou a cidade não para buscar conforto religioso ou jurídico, mas para encontrar seu outro filho, Osvaldo, que estava atrás das grades. Ali, no espaço de visitas, o pacto foi selado. O irmão mais velho jurou pela memória do caçula que o equilíbrio seria restabelecido.
A mãe voltou, enterrou o morto e esperou. Dia após dia, com a paciência de quem tece uma rede de pesca. Quatro meses e seis dias depois, Osvaldo ganhou a liberdade. Dois dias após sair, a promessa foi cumprida. No velório do assassino, Dona Fátima apareceu como uma aparição bíblica. Aproximou-se de Adelaide, a mãe que agora chorava desconsolada sobre o caixão do filho algoz, e sentenciou: “Estamos quites, meu filho morreu, agora o teu também”. Saiu lentamente, com a alma lavada em sangue alheio, deixando para trás um rastro de frieza que ainda ecoa nas memórias do Km 7.
A justiça veloz de 2026
Venha para esta semana. O cenário agora é a Marabá conectada, onde a notícia corre mais rápido que a viatura. A morte do professor Paulo da Silva, ocorrida na noite de terça-feira, feriu o nervo exposto da cidade. Paulo era uma figura de luz, e sua morte nas mãos de um rapaz que seria seu companheiro furtivo gerou uma onda de revolta imediata.
Desta vez, não houve quatro meses de espera. O tempo da vingança encurtou. Na manhã seguinte, em menos de 24 horas, Hemerson Gonçalves Rodrigues, o acusado, encontrou seu destino no asfalto em um “atropelamento cinematográfico”. Não houve juiz, não houve defesa, não houve o rito lento da lei. Houve apenas o impacto metálico que encerrou a história.
A diferença fundamental entre Dona Fátima e o caso do professor Paulo reside na vitrine. Na época da “Mãe do Km 7”, a tragédia era contada no papel do jornal impresso, na voz pausada do rádio ou no frame estático da TV. A vingança era um segredo compartilhado em sussurros nas esquinas. Hoje, a barbárie é um espetáculo interativo.
O sentimento de “olho por olho” não mudou, mas ganhou um megafone digital. Nas redes sociais, o atropelamento de Hemerson não foi recebido com choque, mas com um aplauso virtual. “A justiça foi feita”, diziam os comentários. Onde antes havia o silêncio de seis minutos de Fátima, agora há o barulho de milhares de notificações de celular.
Evoluímos na ciência, na tecnologia e na comunicação, mas o nosso núcleo primitivo permanece intacto. A Lei de Talião, escrita milênios atrás, parece ser o único código penal que o coração humano realmente compreende quando a dor transborda.
O que nos diz sobre nós o fato de não haver revolta popular diante de um linchamento ou de uma execução sumária? Diz que, no fundo, ainda somos os mesmos seres cruéis que observavam os gladiadores no Coliseu ou que viam Dona Fátima caminhar em direção ao presídio. A única diferença é que hoje filmamos a morte em 4K e a compartilhamos antes mesmo que o corpo esfrie.
Marabá segue seu curso. As águas dos rios continuam passando, mas o sangue, esse parece sempre encontrar uma forma de estancar no asfalto, seja por uma faca fria ou por um pneu veloz. Continuamos cruéis. Sempre cruéis.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
