📅 Publicado em 06/10/2026 08h33
O cheiro de rosas começa a tomar conta de Marabá. Nas ruas, a chegada de mais um Círio de Nazaré desperta uma emoção única, que mistura expectativa e alegria por vivenciar, mais uma vez, esse momento. Famílias se preparam para a caminhada, promesseiros renovam seus votos e devotos se organizam para viver novamente um dos maiores momentos de expressão da fé católica.
É com esse mesmo sentimento que Maria de Fátima Flor Matos, de 64 anos, vive a chegada de mais um Círio. Devota, ela garante que a celebração não acontece apenas uma vez por ano. O Círio faz parte da própria história. Para ela, é lembrança da mãe, dos filhos, do esposo, dos irmãos, das graças que recebeu e também das perdas que precisou enfrentar.
É, ainda, o momento em que, segundo ela, mais agradece do que pede. Em uma entrevista emocionante, Maria de Fátima revelou ao Correio de Carajás a relação com Nossa Senhora e relatou as inúmeras graças alcançadas por meio da intercessão de “Nazinha”. “A minha relação com a mãe vem desde sempre, desde que me entendo por pessoa. Maria é a minha principal intercessora junto ao seu filho. Todas as minhas causas recorro a ela”, diz Maria de Fátima.
Leia mais:Hoje, aos 64 anos, ela continua mantendo a rotina de oração e participação na comunidade. Conta que foi catequista, coordenadora de grupos e exerceu diferentes funções dentro da igreja. Atualmente, participa do Apostolado da Oração e de ações junto às famílias.
A chegada de mais um Círio tem, para ela, um sabor ainda mais especial: de memória, saudade, mas também de legado. É hora de agradecer. “Eu não peço nada no Círio. Eu só agradeço, porque é um ano que nós passamos recebendo tantas coisas maravilhosas. Muitas vezes você pede e esquece de agradecer. Então, o Círio para mim é mais agradecer do que pedir”, compartilha.
Uma promessa feita em meio à paralisia
Entre as inúmeras histórias que Maria de Fátima guarda como testemunho está uma experiência vivida ainda jovem. Um problema de saúde a levou a perder os movimentos das pernas e, posteriormente, de todo o corpo. Ela conta que, depois de receber atendimento em Marabá, precisou viajar para outra cidade em busca de um neurologista.
Após exames, veio o diagnóstico de polirradiculoneurite. Segundo ela, o médico explicou que a recuperação poderia levar 90 dias. “Não tinha movimento das mãos, das pernas, de nada. Se eu me sentasse, alguém tinha que me amarrar, porque eu não segurava”, revela.
De volta a Marabá, Maria fez uma promessa. Como de costume, todos os anos participava da peregrinação do Círio. Naquele ano, porém, seria quase impossível. Quase, se não fosse a fé de uma mulher que orou e recorreu à intercessão de Nossa Senhora de Nazaré. “Fui para os pés de Nossa Senhora, clamando e chorando que me ajudasse a ir para o Círio”, revela.
Ela conta que a recuperação começou de maneira lenta. Em casa, se apoiava nas grades e nas paredes para tentar dar os primeiros passos. “Eu era igual criança, pendurada nas grades. Não conseguia me equilibrar. Era um peso enorme, mas caminhei”, comemora.
Com os olhos marejados, a devota rememora a alegria que sentiu ao caminhar com os próprios pés e viver mais uma procissão, algo que, para ela, não tem outra palavra a não ser milagre. “Eu fui quase a última pessoa a chegar na Folha 16, mas fui caminhando. Graças a Deus e pela intercessão de Nossa Senhora”, reconhece.
De lá para cá, a experiência se tornou uma das principais lembranças de sua caminhada cristã.

“Não muda, só acrescenta”
Emocionada, ela compartilha que as dificuldades enfrentadas ao longo da vida não diminuíram sua fé. Ao contrário, fizeram com que ela se fortalecesse. “Sou muito grata. Por todas as vezes que pedi e ela intercedeu. Pelo seu sim, eu sou grata”, complementa.
Inspirada pelo maternar da mãe de Jesus, Maria de Fátima diz que se espelha no amor e na oração de Nossa Senhora de Nazaré. “Todo santo dia, quando eu me levanto, eu rezo o meu terço pedindo a Nossa Senhora que cuide deles”, destaca.
Além de ensinar os caminhos da vida, ela compartilha que a devoção também foi ensinada aos filhos. Conta que sempre procurou educar em casa sobre a importância da oração e da presença de Nossa Senhora na vida da família.
Em meio a tantas histórias, ela relembra uma que marcou sua maternidade e envolve a filha Bruna. Ainda bebê, a menina nasceu com uma alteração nos pés. Depois de consultar um especialista, a devota conta que recebeu a orientação de levar a criança para avaliação para uma possível cirurgia.
Com medo, mas firme na fé, a família acabou encontrando outra alternativa de tratamento. Diante daquele momento, ela relembra um conselho que ouviu de uma pessoa que, para ela, foi enviada por Deus. “Se apegue com Nossa Senhora que tudo dará certo”.
Bruna usou botas ortopédicas durante alguns anos e, segundo Maria de Fátima, não precisou passar por nenhuma cirurgia. Para a mãe, mais uma vez, a experiência se transformou em um testemunho de devoção.
Ao falar sobre as graças alcançadas, ela é categórica e afirma que os milagres são acrescentados em sua vida. “Primeiramente eu confio em Deus, e segundo a intercessão de Nossa Senhora. A minha fé aumenta cada vez mais”, argumenta.
Ao falar da devoção à Virgem de Nazaré, Maria de Fátima diz que Nossa Senhora representa tudo, principalmente pela humildade de entregar o único filho com amor. “Ela é a luz. Se você estiver perdido, procure ela, que ela vai te levar ao caminho de luz que é Jesus”.
Os Círios também carregam saudade
Se, por um lado, o Círio representa alegria e reencontro, por outro, também desperta memórias dolorosas. Durante a conversa, Maria de Fátima revela que perdeu pessoas importantes da família ao longo dos últimos anos. Entre as perdas estão o irmão, a mãe, o pai, o esposo e um tio.
Como quem revive o dia e a hora, ela rememora que a morte do irmão, poucos dias antes de um Círio, deixou uma lembrança particularmente dolorosa. “Faltavam sete dias, eu perdi meu irmão e disse: ‘Como é que eu vou caminhar agora sem ele?’”, relembra.
Foi no incentivo da própria mãe que ela encontrou o motivo para seguir. “Minha mãe disse: ‘Filha, nós vamos, ele não era nosso, o pai acolheu’. Então é nessa fé que a minha mãe me passou que eu caminho até hoje”, garante.
“Eu quero deixar para muita gente”. Essa é a resposta que dona Maria de Fátima declara ao ser questionada sobre sua fé. Para ela, o legado ultrapassa as portas de sua família.
Entre todas as experiências vividas, ela compartilha que as tribulações chegavam próximas ao mês do Círio, como uma prova. Ela aponta um Círio particularmente difícil: aquele em que sabia que o marido poderia estar com câncer. “Me abalou tanto, não que eu perdesse a minha fé, mas por ele. Eu sabia que a fé dele não era como a minha”, relata.
Ela acompanhou o esposo durante os exames e ouviu do médico a suspeita da doença. A confirmação veio posteriormente. “Foi o Círio mais difícil da minha vida. Eu chorei o trajeto inteiro”.
Após a confirmação da doença, a família enfrentou meses de tratamento, até que ele contraiu Covid-19 e não resistiu. A dor, porém, não se transformou em revolta. “Foi o Círio mais difícil da minha vida, de todos que eu participei. Mas em nenhum momento eu perdi a minha fé. Nunca fiquei revoltada com Deus, estamos aqui de passagem. A dor que fica é da saudade”, declara.
Um segundo Natal
Para Maria de Fátima, o Círio também é um momento de reencontro, quando reúne os amigos e toda a família. É tempo de agradecer e confraternizar.
Ao final, ela defende o respeito entre diferentes formas de viver a religiosidade, destacando que é necessário ter amor, respeito e tolerância. E, se pudesse encontrar Nossa Senhora pessoalmente, diria apenas: obrigada. A frase resume a relação de uma vida inteira, atravessada por provações, carregada de promessas, interseção e luto.
Agora, com a chegada de mais um Círio em Marabá, Maria de Fátima se prepara novamente para caminhar. Carregando uma herança que não termina na caminhada de um único Círio, ela continua sendo passada de mãe para filhos, de filhos para netos e de geração em geração.

