Correio de Carajás

A casa silenciosa e a volta do filho [quase] pródigo

Crônica Ouriço Cheio

Crônica Ouriço Cheio

Ulisses Pompeu

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Da casa da vizinha Deilde quase não vinham sons. Parecia que ninguém morava lá, na quadra 9 da Folha 17. Era uma família até grande, mas o silêncio imperava, mesmo havendo ali dentro pai, mãe, empregada, uma renca de filhos e uma gata.

Mas existem coisas que não carecem de explicação. Mesmo tentemos, não há de haver. Haverão palavras magras, frases tortas, vãos enviesados dos pensamentos. Mas hão seres, tão sublimes, que não vivem de cobrar os pregos batidos e as pontas viradas. Os porquês! No frigir dos ovos, pra que servem os assins e assados? Os tintins por tintins? Coisa alguma.

Um dia volveu à casa do velho. Restinho de gente. Mais pra lá do que pra cá, mas rijo. Cresceu no lombo dos animais e repetia que o ofício engrossava o talo do pescoço. Pedrava a palma das mãos e aloprava os dedos. A mãe é quem gostava. Ria baixinho, gemia e hosanava. Do outro lado da alcova, a cria dava conta das bolinações. Cumeeira alta, sustentada nos troncos da goiabeira. Parede-meia alcoviteira.

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Enciumava-se com o pai. Era um tormento ter de escutar. Quando cresceu e bateu asas para Belém, demorou aceitar o esfregado dos íntimos. Lembrava das noites ou começos de madrugadas dos pais. Dos desfrutes, restou a gestação de três rebentos.

Dos que nasceram, não quis ficar à sombra do alpendre da casa grande. Picou a mula cedo, quando terminou os estudos no Plinio Pinheiro e foi se bacharelar onde diziam mais prafrentex. Não que tivesse pendenga contra a ignorância. Não. Ansiava ruminar outras coisas e longe da conta da família e atalaia dos vizinhos. Como fazia quando escalava os pés de pau mais altos.

Anos depois, quando chegou, sem avisar, entrou pela cozinha e fez sinal pra empregada velha, criatura de leite, não berrar. Dedo em riste junto aos lábios, depois a apertou num afago de saudades acumuladas. Quanto tempo! Nove anos, talvez. A velha encheu-se dos olhos d´água e apontou pra sala. Os pais estavam lá.

A gata, mesmo cega, e talvez caduca, levantou o rabo. Saiu de perto dos carretéis de linha e entrançou entre as pernas dele. Ainda estava viva! O pai, boquiabeto, cochilava na poltrona e a mãe se arrepiou quando o filho a abraçou por trás. Engoliram seco e se derramaram. O velho tornou. Engasgou-se e acenou com a cabeça.

– Por aqui?

– Hunrum. Tá tudo bem?

– Agora, ficou melhor. Pensei que havia esquecido o caminho de casa.

– Nunca.

A empregada emburacou pela sala com comidas na bandeja. Muita. Porcarias. Suco da cajazeira, bolo Luiz mangulão e quebra-queixos.

– Mais tarde sirvo o almoço. Baião-de-dois e carne do sol na macaxeira.

– Assim eu engordo.

– Tá precisado. Seco, chega os olhos tão fundo. Não tem comida onde tu vive?

Estava chupado mesmo. A mãe e o pai notaram, mas não comentaram. Aliás, há muito que não comentavam coisas outras. Uma delas, era a insistência do pai em ter netos da rama dele. Dos outros filhos só havia nascido meninas. Seis. Ele poderia dar um varão.

– Está bem mesmo, tu?

– Tô.

– De saúde?

– Tô…

– E teu amigo, por onde anda?

Ficou calado. Olhos d´água no rosto. A mãe enrolou a linha na agulha grande, limpou os fiapos da saia e botou na caixinha os alfinetes.

– Teu amigo era muito educado, um gentil.

– Ele…

O pai interrompeu. Levantou-se e nem reclamou das dores na coluna.

– Imagino que veio pra ficar por muito tempo.

– Até quando Deus quiser.

– Então vamos, te ajudo a desfazer as malas.

* O autor é jornalista do CORREIO há 25 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

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