Correio de Carajás

O professor que carrega 17 abas abertas na cabeça

Alguns professores acordam, tomam café e só depois decidem que roupa usar para ir trabalhar. Carlos André acorda e já está atrasado para alguma coisa que ainda nem aconteceu. Na cabeça dele, enquanto escova os dentes, tem uma atividade para adaptar, um projeto pedagógico para tirar do papel, um aluno que precisa de atenção, uma conversa com a direção, um desenho pela metade e uma ideia que apareceu no banho e não pode esperar até amanhã.

Carlos é desses sujeitos que parecem ter um computador robusto instalado entre as orelhas, com 17 abas abertas simultaneamente, algumas tocando música, duas travadas e nenhuma com disposição para ser encerrada. E o pior, ou o melhor, dependendo do ponto de vista, é que ele consegue trabalhar em cima de todas elas.

Carlos André é professor em Marabá, desses que dividem a vida entre dois turnos de trabalho, o currículo tradicional, os compromissos da escola, as cobranças que chegam de todos os lados e aquela tarefa invisível que não aparece em diário de classe nenhum: tentar descobrir o que se passa na cabeça de cada aluno.

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Para ele, ensinar nunca foi apenas despejar conteúdo no quadro, esperar que a turma copie e conferir, no fim do bimestre, quem conseguiu devolver alguma coisa na prova. Se fosse assim, bastava instalar um projetor na sala, deixar o professor em casa e mandar o contracheque por Pix. O problema é que criança não é arquivo PDF, adolescente não vem com manual de instruções e aprendizagem não obedece à tecla de atalho que resolve tudo em três segundos.

Além de cumprir o currículo, que já seria serviço suficiente para ocupar o juízo de qualquer cristão, Carlos ainda arranja tempo para desenhar e rabiscar pessoas com os alunos. Enquanto alguém poderia considerar aquilo um desvio da programação, ele enxerga ali uma oportunidade de conversa, expressão e descoberta. No meio de uma folha rabiscada, pode aparecer um rosto, uma história, uma timidez que começa a perder o medo ou um estudante que, pela primeira vez naquele dia, sente que alguém está olhando para ele sem a pressa de quem precisa passar para o próximo assunto. Há professores que ensinam a matéria. Há os que, sem abandonar a matéria, percebem que também precisam ensinar o aluno a descobrir o que pode fazer com aquilo que carrega dentro de si.

Respeitado pela direção, querido pelos estudantes e apaixonado por projetos pedagógicos que dão trabalho até de explicar, Carlos não parece ter sido informado de que a vida moderna recomenda economizar energia. Se surge um desafio, ele não pergunta primeiro quantas horas extras aquilo vai consumir, quantas reuniões serão necessárias ou se existe uma planilha que possa provar, por antecipação, que a ideia dará certo.

E pensar que, neste Dia do Professor, haverá discursos sobre a importância da educação, fotografias sorridentes, homenagens, mensagens bonitas e promessas que costumam durar menos que o entusiasmo de uma turma na véspera das férias. Tudo justo, desde que ninguém confunda aplauso com valorização.

Nas minhas contas, Marabá tem mais de 10 mil professores atuando nas redes pública e privada, gente que atravessa bairros, enfrenta salas cheias, prepara aula depois do expediente, corrige atividades em casa e aprende a fazer milagre com o material disponível.

São profissionais que trabalham com crianças que chegam à escola trazendo fome, curiosidade, medo, sonhos, dificuldades familiares e uma quantidade de perguntas que nem sempre cabe no planejamento. E, mesmo quando o mundo exige que deem conta de tudo, continuam tentando fazer com que cada estudante descubra que pode ir um pouco além do lugar onde começou.

Carlos André é um nome, mas poderia ser o de muitos. Está na professora que transforma sucata em experiência científica, no mestre que percebe o silêncio diferente de um menino que sempre foi falante, na educadora que inventa uma maneira de explicar fração usando pedaços de bolo, no professor que chega à escola depois de enfrentar o próprio cansaço e ainda encontra disposição para ouvir uma história que não estava prevista no plano de aula. Está também naquele profissional que desenvolve um projeto sabendo que talvez não receba aplausos, verba ou reconhecimento, mas faz porque acredita que alguém, em algum momento, será alcançado por aquilo.

É uma categoria inteira de gente que vive com a cabeça cheia de abas abertas, tentando impedir que alguma delas seja justamente a do aluno que precisa de ajuda.

Hoje é dia de homenagear Carlos André e todos os professores de Marabá, mas seria bom que a homenagem não terminasse quando a postagem sair do ar e o calendário mudar de página. Professor não precisa ser tratado como santo, porque santos não precisam pagar boletos; nem como herói, porque heróis costumam ser convocados justamente quando ninguém quer assumir a responsabilidade. Precisa de respeito, condições de trabalho, reconhecimento e tempo para fazer bem aquilo que escolheu fazer.

Quanto a Carlos, se alguém descobrir como fechar as 17 abas da cabeça dele, por favor, não ensine. Vai que, no meio delas, está justamente a ideia capaz de mudar a vida de um aluno. E professor que ainda acredita nisso, numa cidade que precisa tanto de educação, merece mais do que parabéns. Merece que a gente não atrapalhe o seu trabalho de abrir caminhos.

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.