Correio de Carajás

No Dia do Professor, Instituto Transformance propõe uma escola com mais diálogo, arte e cuidado

Arte, memória e saberes indígenas inspiram projeto para transformar a educação em Marabá

Homem entregando um livro para uma mulher em uma sala de aula enquanto outra mulher observa sorrindo.
Dan Baron apresenta livro-calendário e ‘Colheita em Tempos de Seca’ como recursos pedagógicos à coordenadora Sílvia Luz e à diretora Cristina Arcanjo
✏️ Atualizado em 15/10/2026 08h51

O Instituto Transformance realiza nesta quinta-feira, 15 de outubro, às 19 horas, uma roda de diálogo na Casa dos Rios, em Marabá, para celebrar o Dia Nacional do Professor. Com o tema “Reimaginando a Escola como Viveiro Bem Viver”, o encontro propõe uma reflexão sobre eco-pedagogias artísticas, cura e direitos da natureza, dentro de um projeto que prevê ações em escolas e a construção coletiva de propostas para transformar a educação.

O projeto Viveiro Bem Viver foi contemplado pelo fomento a projetos continuados de pontos e pontões de cultura 2025, com atividades previstas de novembro de 2026 até o final de junho de 2027.

Dan demonstra o cuidado energético no diálogo que cultiva um ambiente de calma durante Seminário na UNICAP, em Recife

A iniciativa reúne experiências de educação, arte e diálogo intercultural desenvolvidas em diferentes regiões do Brasil. Em 15 de julho, Dan Baron abriu o 2º Encontro de Saberes das Matrizes Amazônicas com uma vivência de duas tardes no SESC Marabá.

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“Queremos aplicar a metodologia da alfabetização intercultural após nossa vivência da metodologia em 2025 na COP 30, em Belém”, disse Mestre Wertemberg Nunes, do Pontão da Cultura.

Dan Baron explica que conseguiu realizar quatro das oito horas agendadas, com a participação de 12 dos 50 inscritos. Segundo ele, a roda proporcionou um ambiente de calma, a troca de projetos em seis duplas e a criação de três novas propostas coletivas, organizadas em grupos de quatro pessoas.

Ao avaliar a experiência, Dan defendeu que as metodologias dialógicas sejam incorporadas ao cotidiano das escolas. “Essas metodologias dialógicas têm de entrar na sala de professores e na sala de aula de cada escola em Marabá, onde prevalece uma cultura de pressão, impaciência, frustração, pânico e pessimismo”, alerta.

O movimento ‘anti-horário’ do ritual Pataxó no Monumento Indígena, no Monte Pascoal, no Sul da Bahia

Experiências interculturais

Em 15 de agosto, Dan voltou ao Monte Pascoal, no sul da Bahia, para celebrar os 25 anos da construção coletiva do Monumento de Resistência dos Povos Indígenas do Brasil.

Ao registrar um ritual Pataxó realizado dentro do monumento, ele observou o movimento no sentido anti-horário e relacionou a experiência às pesquisas sobre os efeitos desse tipo de roda.

“Registrando o ritual Pataxó dentro no monumento, percebi seu movimento anti-horário, confirmando nossa pesquisa que a roda anti-horário reduz o pulso do coração, gera reflexão e salta memória, sonhos e confiança. Na roda, sem microfone, jovens Pataxó falaram pela primeira vez, denunciando a mineração das terras raras e afirmando os direitos da floresta.”

Em 15 de setembro, Dan e a advogada indígena Naiara Tukano, do Alto Rio Negro, no Amazonas, ofereceram a oficina “Espiritualidade, corpo e reconexão com a natureza” durante o 1º Seminário Nacional de Educação Popular e Ambiental, realizado pela Articulação Brasileira pelos Direitos da Natureza, na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

Naiara iniciou a oficina narrando a visão da criação de seu povo, Yepâ Masa. Em seguida, convidou os participantes a tomar um banho de ervas e a se levantar enquanto ela circulava no sentido anti-horário. Noventa minutos depois, passou a palavra a Dan, que organizou os participantes em 26 duplas.

Em três processos dialógicos, ele orientou as duplas na criação de um ambiente de calma por meio do “cuidado energético”, na leitura da paisagem íntima nas mãos da outra pessoa após uma lavagem com água imaginária e na pintura no ar, em câmera lenta, com pincéis imaginários, da chamada “paisagem da primeira casa”.

“Colaborando com Naiara, vivenciei pela primeira vez a narrativa de lavar as mãos e o movimento dançante de pintar a paisagem, na voz poética e nos gestos Tukanos”.

A experiência levou Dan a refletir sobre o papel das artes na transmissão de conhecimentos e na relação entre corpo, memória e natureza. “Caiu a ficha!”, celebrou Dan. “As artes são muita mais de linguagens sensoriais. São tecnologias evoluídas ao longo da história da raça humana, igual com a uma pegada do pé na terra. São tecnologias ancestrais”, compara.

Monumento ‘Pontes de Esperança’, inspirado pelo ‘As Castanheiras de Eldorado dos Carajás, o qual celebra ‘o espiral de tempo contra horário’

Formação nas escolas

Manoela Souza, diretora atual do Instituto Transformance e co-coordenadora do projeto Viveiro Bem Viver, destaca que a experiência proporcionou tempo para o diálogo e a solidariedade, além de estimular a busca por memórias conscientes e inconscientes, guardadas nos gestos e nos silêncios em movimento.

“Os participantes vivenciaram o cuidado, escuta, carinho, reconhecimento e novas perspectivas interculturais. E no ‘fim do mundo’, quando o tempo humano está em alto risco, a oficina de 90 minutos para cada dupla tem gerado 1.800 minutos de diálogo audível (público) e 3.600 de diálogo inaudível (interno)”, explica.

Na avaliação de Dan Baron, a metodologia da oficina se destacou na programação de três dias do seminário, que contou com quatro mesas de duas horas e quatro a seis palestrantes, com apresentações de 20 minutos cada.

“Apesar da lucidez, todos sofreram o chicote do tempo apertado, de uma pedagogia monológica, e a plateia se refugiou no metro quadrado da sua cadeira, cativada pelos diálogos íntimos na palma de sua mão”.

Como desdobramento do projeto, está prevista a realização de um curso de formação eco-pedagógica por meio das artes, com carga horária de 60 horas. A formação será co-gestada pelos formadores das três escolas parceiras do Instituto: EMEITI Martinho Motta, Irmã Teodora e Carlos Marighella.

Idealizado para o primeiro semestre de 2027, o curso culminará na produção de maquetes do Viveiro Bem Viver.

O encerramento do projeto será marcado pelo 10º Festival Bem Viver, que reunirá debates dialógicos de reflexão, uma feira de projetos arquitetônicos coletivos e maquetes do Viveiro Bem Viver produzidas nas escolas.

A programação também prevê uma grande roda de diálogo na Câmara Municipal de Marabá e na ALEPA (Assembleia Legislativa do Pará). A proposta é discutir formas de transformar o projeto piloto em uma iniciativa de maior escala, com financiamento e estrutura para se tornar um programa nacional.

Leitura da ‘paisagem íntima’ no diálogo entre duplas, após uma lavagem com águas imaginárias