Correio de Carajás

Bispo de Marabá defende devoção a Nossa Senhora acima de disputas políticas

“Esse título não é do Estado brasileiro. Não pertence ao governo brasileiro, mas ao próprio Papa, que deu esse título para Nossa Senhora Aparecida”, afirma Dom Vital

Dom Vital Corbellini: “Não acredito que o título de padroeira seja tirado de Nossa Senhora Aparecida”/ Foto: Evangelista Rocha
Por: Luciana Araújo

Em meio ao recente debate político sobre o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil e a episódios recentes de vandalismo contra igrejas e imagens sacras, a Reportagem deste CORREIO conversou na manhã desta terça-feira (29), com o bispo Dom Vital Corbellini. A discussão ocorre às vésperas do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, marcado para 18 de outubro, em Marabá.

Questionado sobre o assunto, Dom Vital afirmou que o título de Nossa Senhora Aparecida como Rainha e Padroeira do Brasil está relacionado à tradição da Igreja Católica e à devoção dos fiéis. A proclamação como Padroeira do Brasil foi feita pelo Papa Pio XI em 1930, atendendo a um pedido dos bispos brasileiros.

“Esse título não é do Estado brasileiro. Não pertence ao governo brasileiro, mas ao próprio Papa, que deu esse título para Nossa Senhora Aparecida”, afirma o bispo.

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Para além da origem religiosa do título, o Estado brasileiro também passou a reconhecê-lo oficialmente. Em 1980, a Lei nº 6.802 declarou Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil e estabeleceu 12 de outubro como feriado nacional.

Para Dom Vital, independentemente da discussão política, a relação dos devotos com Nossa Senhora Aparecida é sustentada pela fé e pela tradição popular. O bispo afirma não acreditar que decisões políticas sejam capazes de afastar a população dessa devoção.

“Não haverá isso, esperamos. Não tem esse poder de tirar, porque o povo mesmo tem essa devoção”, declara.

VANDALISMO

A polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida não ficou restrita ao cenário político. Episódios recentes de violência ou vandalismo contra espaços e imagens religiosas foram registrados em todo o Brasil. Em Salvador, uma imagem de Santa Dulce dos Pobres foi retirada de um altar e destruída dentro de uma igreja. O episódio é investigado pela Polícia Civil, que ainda apura a possível motivação do ato.

Nesse contexto, diante do questionamento da Reportagem sobre ações semelhantes em Marabá, Dom Vital afirma não acreditar que o Círio de Marabá seja alvo desse tipo de manifestação. Segundo ele, a experiência dos últimos anos mostra uma participação que ultrapassa os limites da Igreja Católica e envolve pessoas de diferentes denominações religiosas.

“O próprio Círio arrebanha muitas pessoas, sejam católicas, não católicas, de outras religiões, de outras denominações. Isso é bonito”.

O bispo citou ainda situações em que pessoas de outras denominações colaboram com os participantes durante a procissão, inclusive oferecendo água. Na avaliação dele, essa convivência faz parte da dimensão popular do Círio.

“É a festa da fé. É a festa do povo de Deus”, garante.

Isso acontece porque a Diocese de Marabá, segundo Dom Vital, convida não apenas os católicos, mas também pessoas de outras denominações a participarem das celebrações.

MARIA É MÃE E INTERCESSORA

Durante a conversa, Dom Vital aproveitou para explicar que, para a Igreja Católica, Maria não é adorada. A adoração, segundo a doutrina católica, é dirigida exclusivamente a Deus. Maria recebe veneração e é considerada intercessora dos fiéis.

“Maria não é adorada. A adoração é dada somente ao próprio Filho de Deus”, reforça.

O bispo afirma que essa distinção é importante para compreender a devoção mariana. Na tradição católica, a relação com Maria é entendida como um caminho que conduz a Jesus.

“Com Maria, nós nos sentimos como que amados pelo Filho, pelo Pai, pelo Espírito Santo, Deus Uno e Trino”.

Para Dom Vital, a participação de pessoas de diferentes religiões é um dos elementos que ajudam a explicar a dimensão alcançada pelo Círio. Ele afirma que a festa deve preservar justamente esse caráter de encontro e de oração.

Na avaliação do bispo, mais do que uma manifestação restrita aos católicos, o Círio se tornou uma expressão da religiosidade popular na cidade.

A expectativa da Diocese é que o Círio de 2026 mantenha esse ambiente. A grande procissão será realizada em 18 de outubro, quando a imagem de Nossa Senhora de Nazaré percorrerá as ruas de Marabá acompanhada pelos devotos.

“É a festa da fé”, finaliza.