Correio de Carajás

Setembro Amarelo: melancolia e angústia em “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe

Em alusão ao Setembro Amarelo, mês de atenção à saúde mental que pauta a conscientização e prevenção contra o suicídio, esta coluna, por meio da obra “Os sofrimentos do jovem Werther” (1774), do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, romance que é considerado uma obra-prima da literatura mundial e precursor do romantismo alemão, pauta hoje o suicídio a partir do texto ficcional. A verdade é que temas como a morte, o luto, a depressão e o suicídio sempre estiveram presentes na literatura. Há obras que abordam os referidos assuntos de modo filosófico e outras de forma mais realista.

A obra de hoje, Os sofrimentos do jovem Werther, traz no enredo um jovem romântico e apaixonado chamado Werther que, tendo vivido um amor não correspondido e não suportando o sofrimento, decide tirar a própria vida. Os estudiosos do escritor alemão sustentam que o romance é autobiográfico, pois Goethe, assim como seu protagonista, também se apaixonou por uma mulher comprometida; portanto, também viveu um amor frustrado e unilateral.

A passagem abaixo, momento de grande tensão romântica, ilustra bem os sentimentos, o estado de paixão e a ansiedade do jovem Werther quanto à sua amada Lotte: “Hoje não consegui ir até a casa de Lotte, impedido por uma reunião da qual não tive como escapar. E o que poderia eu fazer num caso desses? Pois mandei meu empregado dar uma passada por lá, somente para que, depois, eu pudesse ter perto de mim alguém que tivesse estado com ela hoje. Você não sabe com que impaciência fiquei aguardando por ele, e com que alegria eu o vi retornando! Não fosse pelo vexame, eu teria pegado o rapaz pela cabeça e beijado ali mesmo.”

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O romance de Goethe, ainda no século XVIII, teve um alcance tão grande que influenciou uma verdadeira onda de suicídios entre os jovens na Europa; por essa razão, o livro acabou sendo censurado pela Igreja. Até mesmo a roupa de Werther foi copiada pela juventude — é a literatura e seu poder de influência, uma arte que precedeu o cinema e o audiovisual. A identificação dos jovens com a obra foi tamanha que até mesmo sua roupa, jaqueta azul e colete amarelo, foi copiada, uma influência sem precedentes na literatura. A conexão com o jovem Werther e a influência da obra, especialmente entre os jovens, na sociedade do século XVIII, foi um verdadeiro fenômeno.

Ao referir-se à sua amada Lotte, o protagonista expressa a essência do romantismo, movimento artístico e cultural que privilegia as emoções e a subjetividade. Aqui temos a intensidade das emoções de Werther: “Às vezes eu não consigo entender direito como é que um outro é capaz de amá-la, como é que outro se permite amá-la, quando sou o único que a ama assim tão profundamente, tão completamente, e não conheço nada, não sei de nada, não tenho mais nada além dela!” A passagem capta o espírito dos românticos.

Em diversos momentos da narrativa, Werther reflete sobre o suicídio: “A natureza humana tem seus limites: ela é capaz de suportar a alegria, a aflição, a dor até determinado ponto, mas acaba cedendo assim que excede essa medida. Aqui, portanto, não se trata de saber se alguém é fraco ou forte, mas, sim, se ele é capaz de suportar seu sofrimento nessa medida determinada, seja ela moral ou física. Para mim é tão estranho chamar de covarde alguém que tira a própria vida (…)”. Nas cartas escritas para o amigo Wilhelm, o protagonista compartilha seus pensamentos suicidas: “(…) sinto que a reclusão solitária de uma cela, as vestes grosseiras de pele e o cinto de espinhos seriam um bálsamo para a minha alma. Até logo, não vejo outro para essa aflição que não o túmulo.”

Goethe não tenta justificar a atitude do protagonista, mas aborda o tema do suicídio a partir das aflições e angústias de um jovem sensível, emotivo, que sofre desesperadamente por um amor não correspondido e não sabe lidar com a rejeição. É diante desse quadro que o leitor faz um exercício de empatia ante o sofrimento e desespero do protagonista, que culmina numa atitude extrema de retirar a própria vida.

Uma obra como essa pode contribuir para a abordagem do tema com jovens e adultos, fortalecendo a conscientização sobre o assunto, tendo em vista que a literatura nos ajuda, de modo profundo e sensível, a refletir sobre saúde mental. Como sugestão de leitura, deixo “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe. Até a próxima semana, querido leitor!

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.