A vida adulta tem dessas coisas. Um dia você está preocupado com trabalho, contas, saúde da família e o preço do açaí, e no outro descobre que precisa aprender a operar uma máquina de lavar roupa industrial como se estivesse pilotando um Boeing.
Foi o que aconteceu comigo na semana passada.
Sou de Marabá e, como todo marabaense que precisa resolver alguma coisa em Belém, fui para a capital com uma lista mental de compromissos. Dessa vez, porém, a prioridade era acompanhar minha esposa em uma cirurgia. Como ficaria alguns dias por lá, precisei levar roupas suficientes. O problema é que ninguém viaja para Belém pensando em onde vai lavar cueca, meia e camiseta.
Leia mais:Até descobrir que a vida adulta também é feita dessas decisões.
Depois de alguns dias, entre hospital, apartamento e aquela rotina meio fora do eixo que uma cirurgia provoca, olhei para o volume de roupas sujas e percebi que não dava para esperar voltar a Marabá. Entrei em um aplicativo para descobrir onde havia uma lavanderia self-service mais próxima.
O aplicativo me apontou algumas opções. Escolhi uma no bairro Curió.
Lá fui eu, carregando uma sacola de roupas e a dignidade de um homem que ainda não sabia exatamente o que estava fazendo.
A lavanderia self-service é um ambiente curioso. Você coloca suas roupas numa máquina, escolhe o ciclo, paga e fica olhando tudo girar atrás de um vidro, assistindo a um documentário sobre a própria existência.
E existe algo profundamente íntimo naquele lugar. As pessoas levam para dentro de máquinas públicas aquilo que normalmente ninguém vê. Camisetas, calças, toalhas, meias e roupas íntimas ficam ali, girando a centenas de rotações por minuto, em uma espécie de exposição involuntária da vida privada.
Foi nesse ecossistema que o destino resolveu me testar.
Depois de lavar e secar minhas roupas, comecei a recolher tudo para colocar na sacola. Foi quando encontrei uma intrusa.
Uma cueca verde-limão.
Não era um verde discreto, desses que ainda permitem alguma negociação com o bom gosto. Era um verde-limão luminoso, quase radioativo, capaz de ser visto de longe até numa madrugada de chuva em Belém.
Olhei para a peça e imediatamente tive certeza de uma coisa: não era minha.
Minhas cuecas pertencem a uma paleta muito mais comportada. Preto, cinza, azul-marinho. Cores de quem não pretende chamar atenção nem quando está sozinho.
Aquela, não. Aquela parecia ter sido comprada por alguém que acordou certa manhã e decidiu que precisava enfrentar a vida com coragem.
Pensei em deixá-la no balcão. Depois achei que alguém poderia pegá-la por engano. Resolvi levar comigo e devolver na próxima vez.
Só que a vida, como sabemos, tem péssimo compromisso com os nossos planos.
Voltei para o apartamento em Belém, acompanhei minha esposa, cuidei das coisas e, quando percebi, a cueca verde-limão estava dentro da minha sacola.
Passaram-se alguns dias.
Na hora de lavar roupa novamente, peguei tudo no automático. Máquina, sabão, ciclo, secadora. Voltei para o apartamento, abri a sacola e comecei a guardar as peças.
E lá estava ela.
A danada tinha sido lavada novamente.
Naquele momento, percebi que eu já não era apenas um homem que havia encontrado uma cueca alheia. Eu tinha me tornado responsável pela higiene dela.
A cueca já tinha tomado banho comigo duas vezes, viajado de um lado para outro e adquirido uma espécie de cidadania temporária no meu apartamento.
Fiquei com pena do dono. Ou talvez com pena de mim.
Na próxima ida à lavanderia, coloquei a cueca verde-limão numa sacola separada. Dessa vez, pensei, não tem erro. Vou deixar no balcão.
Enquanto minhas roupas giravam na máquina, sentei-me para esperar. Abri a página 178 do livro “A caminho de Macondo”, de García Márquez, tentando parecer uma pessoa absolutamente normal.
Foi quando um sujeito puxou conversa.
Falamos do calor de Belém, da chuva que parece ter contrato de exclusividade com a cidade no meio da tarde, de trânsito, do preço das coisas. Em algum momento, naturalmente, a conversa desembocou no futebol. De como o Remo perdeu “só por uma a zero” para o Mengão, no Mangueirão.
Ele suspirou.
Disse que estava passando por uma fase ruim.
Torcedor do Leão, contou que tinha uma cueca da sorte, usada somente nos jogos importantes. Era uma peça verde-limão, bastante chamativa, segundo ele, que havia desaparecido misteriosamente numa lavanderia do Curió algumas semanas antes.
Eu congelei.
Olhei para a sacola onde estava a peça.
Verde-limão.
Curió.
Lavanderia.
Meu Deus.
O homem continuou falando. Disse que, depois que a cueca sumiu, seu time havia perdido um jogo importante, contra o Flamengo.
Eu, que não tenho absolutamente nada contra o Leão, também não tinha obrigação de entregar uma arma secreta ao adversário.
Fiquei em silêncio.
Ele falou mais um pouco sobre a importância da peça. Disse que não era superstição, era tradição.
Concordei com a cabeça, fazendo uma expressão de solidariedade.
“É complicado”, falei.
Ele assentiu.
Pegou sua sacola e foi embora.
Esperei alguns minutos. Olhei para um lado. Olhei para o outro. Então retirei a cueca verde-limão da minha sacola e a coloquei discretamente sobre o balcão.
Não escrevi bilhete.
Achei que a dignidade do sujeito não precisava de testemunhas.
Voltei para o apartamento satisfeito. Finalmente havia resolvido o problema.
Ou pelo menos era o que eu imaginava.
Quando comecei a guardar minhas roupas, encontrei uma meia.
Apenas uma.
Era amarela, com desenhos de tucanos usando óculos escuros e pequenas folhas de vitória-régia espalhadas pelo tecido.
Fiquei olhando para aquilo durante alguns segundos.
Não era possível.
A cueca tinha ido embora e agora o destino me entregava uma meia paraense.
Peguei a peça pela ponta e fiquei imaginando qual seria a história daquele objeto. Quem seria o dono? O que ele estaria pensando naquele momento? Será que procurava a meia? Será que também tinha uma companheira perdida em alguma secadora?
Decidi guardar.
Vai que o dono aparece.
Desde então, estou usando a meia nos jogos do meu time.
Até agora, funcionou. Mengão recebeu o Timão no domingo, venceu por 2 a 1 e permanece líder do Brasileirão.
E aprendi uma coisa em Belém. Numa lavanderia self-service, você entra com roupa suja, sai com roupa limpa e, se não tomar cuidado, ainda pode levar para casa uma história que não era sua.
E uma meia.
Só uma meia.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
