Correio de Carajás

Experiência de escolas públicas de Bragança vai a Nova York

Trabalho desenvolvido na rede municipal paraense, que atende mais de 16 mil estudantes, mostra como saberes da Amazônia Bragantina podem entrar no currículo escolar

Uma palestrante em pé em um palco apresenta uma palestra para uma plateia sentada.
Rede de educação de Bragança desenvolve trabalho que foca na cultura e tradição local para ganhar projeção internacional
✏️ Atualizado em 16/09/2026 08h52

Uma experiência desenvolvida nas escolas públicas municipais de Bragança, no Pará, atravessará as fronteiras da Amazônia para chegar a uma das principais universidades dos Estados Unidos. O trabalho realizado pelo Instituto Escolas Criativas (IEC) em parceria com a rede municipal de ensino de Bragança foi selecionado para apresentação na Paulo Freire Conference at Columbia University, que acontece nos dias 18 e 19 de setembro, em Nova York.

Intitulado “O encontro entre a Aprendizagem Criativa e o currículo freiriano: sujeito, territorialidade e prática”, o relato mostra como a rede pública de Bragança vem aproximando princípios da pedagogia de Paulo Freire da Aprendizagem Criativa, colocando no centro do processo educacional o território, a cultura e os conhecimentos das próprias comunidades.

A experiência envolve a rede municipal de Bragança, formada por 130 escolas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos (EJA), e alcança mais de 16.465 estudantes, além de professores e gestores.

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Mais do que levar uma experiência paraense a uma conferência internacional, o trabalho coloca em discussão uma pergunta que nasce dentro da escola pública amazônica: o que acontece quando os conhecimentos produzidos pelas comunidades também passam a ser reconhecidos como conhecimento escolar?

Do beiju à sala de aula

Um dos exemplos apresentados em Columbia nasce de uma situação concreta vivida no território.

O Projeto Beiju foi desenvolvido a partir da preocupação com a baixa frequência de estudantes envolvidos, junto às suas famílias, na produção de beiju. Em vez de tratar essa realidade apenas como um problema de ausência escolar, a experiência aproximou a escola dos espaços comunitários de produção.

A partir do tema gerador “Amazônia Bragantina”, conhecimentos presentes na comunidade passaram a integrar uma proposta interdisciplinar de aprendizagem. A produção do beiju, os saberes transmitidos entre gerações e a relação das famílias com o território tornaram-se também pontos de partida para o trabalho pedagógico.

A experiência materializa um dos princípios presentes no pensamento de Paulo Freire: a educação não acontece separada da realidade de quem aprende.

Em Bragança, município com cerca de 130 mil habitantes e uma identidade cultural marcada pela Marujada, por tradições indígenas e por comunidades agro-pesqueiras, essa perspectiva significa reconhecer que a Amazônia também produz conhecimentos que podem ocupar o centro da experiência escolar.

A apresentação em Nova York acontece durante a Paulo Freire Conference, realizada na Columbia University com o tema “Freire no mundo: das práticas educativas à transformação de sistemas educacionais”.

O encontro reúne pesquisadores e educadores para discutir como ideias associadas ao educador brasileiro continuam presentes em experiências educacionais contemporâneas.

Para o Instituto Escolas Criativas, o caso de Bragança ajuda a mostrar que inovação educacional não precisa significar a importação de modelos externos ou o abandono dos conhecimentos existentes nos territórios.

Ao contrário: a experiência parte da realidade local para construir novas práticas de aprendizagem.

“O mais importante dessa participação é poder mostrar que a transformação da educação pública não acontece por meio da simples transferência de modelos. Ela acontece quando conseguimos construir, junto com as redes, condições para que professores, gestores e estudantes sejam autores das mudanças. É uma experiência brasileira, construída em diferentes territórios, que agora entra em diálogo com uma discussão internacional sobre o legado de Paulo Freire”, afirma Ana Beatriz De Sanctis Bretos, cofundadora do Instituto Escolas Criativas.

Do Pará para políticas públicas de educação

A experiência de Bragança é um dos dois trabalhos do Instituto Escolas Criativas selecionados para a conferência.

O segundo, “Da Aprendizagem Criativa à Política Pública: fortalecendo redes públicas de ensino para uma educação dialógica e transformadora”, amplia a discussão para diferentes redes públicas brasileiras e investiga como experiências pedagógicas podem deixar de depender de iniciativas individuais e passar a integrar currículos, formação docente, gestão educacional e políticas públicas.

Desde 2021, o Instituto trabalha em parceria com redes públicas para apoiar esse processo. Ao longo de cinco anos, suas iniciativas alcançaram mais de 1 milhão de estudantes e 58 mil educadores em diferentes regiões do país.

A proposta não é levar um modelo pronto para as redes, mas desenvolver processos de escuta, planejamento, implementação e acompanhamento a partir das características de cada território.

Nesse sentido, Bragança ganha importância justamente por mostrar, em escala municipal, como essa construção pode acontecer preservando características culturais e sociais locais.

A ida da experiência paraense à Columbia coloca, assim, a escola pública da Amazônia no centro de uma conversa internacional sobre educação: não apenas como território que recebe políticas educacionais, mas como lugar capaz de produzir práticas, conhecimentos e experiências que ajudam a pensar os caminhos da educação pública.

 

SERVIÇO

Paulo Freire Conference at Columbia University
 Tema: Freire in the World: From Educational Practices to the Transformation of Educational Systems
 Data: 18 e 19 de setembro de 2026
Local: Columbia University, Nova York, Estados Unidos