Uma experiência desenvolvida nas escolas públicas municipais de Bragança, no Pará, atravessará as fronteiras da Amazônia para chegar a uma das principais universidades dos Estados Unidos. O trabalho realizado pelo Instituto Escolas Criativas (IEC) em parceria com a rede municipal de ensino de Bragança foi selecionado para apresentação na Paulo Freire Conference at Columbia University, que acontece nos dias 18 e 19 de setembro, em Nova York.
Intitulado “O encontro entre a Aprendizagem Criativa e o currículo freiriano: sujeito, territorialidade e prática”, o relato mostra como a rede pública de Bragança vem aproximando princípios da pedagogia de Paulo Freire da Aprendizagem Criativa, colocando no centro do processo educacional o território, a cultura e os conhecimentos das próprias comunidades.
A experiência envolve a rede municipal de Bragança, formada por 130 escolas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos (EJA), e alcança mais de 16.465 estudantes, além de professores e gestores.
Leia mais:Mais do que levar uma experiência paraense a uma conferência internacional, o trabalho coloca em discussão uma pergunta que nasce dentro da escola pública amazônica: o que acontece quando os conhecimentos produzidos pelas comunidades também passam a ser reconhecidos como conhecimento escolar?
Do beiju à sala de aula
Um dos exemplos apresentados em Columbia nasce de uma situação concreta vivida no território.
O Projeto Beiju foi desenvolvido a partir da preocupação com a baixa frequência de estudantes envolvidos, junto às suas famílias, na produção de beiju. Em vez de tratar essa realidade apenas como um problema de ausência escolar, a experiência aproximou a escola dos espaços comunitários de produção.
A partir do tema gerador “Amazônia Bragantina”, conhecimentos presentes na comunidade passaram a integrar uma proposta interdisciplinar de aprendizagem. A produção do beiju, os saberes transmitidos entre gerações e a relação das famílias com o território tornaram-se também pontos de partida para o trabalho pedagógico.
A experiência materializa um dos princípios presentes no pensamento de Paulo Freire: a educação não acontece separada da realidade de quem aprende.
Em Bragança, município com cerca de 130 mil habitantes e uma identidade cultural marcada pela Marujada, por tradições indígenas e por comunidades agro-pesqueiras, essa perspectiva significa reconhecer que a Amazônia também produz conhecimentos que podem ocupar o centro da experiência escolar.
A apresentação em Nova York acontece durante a Paulo Freire Conference, realizada na Columbia University com o tema “Freire no mundo: das práticas educativas à transformação de sistemas educacionais”.
O encontro reúne pesquisadores e educadores para discutir como ideias associadas ao educador brasileiro continuam presentes em experiências educacionais contemporâneas.
Para o Instituto Escolas Criativas, o caso de Bragança ajuda a mostrar que inovação educacional não precisa significar a importação de modelos externos ou o abandono dos conhecimentos existentes nos territórios.
Ao contrário: a experiência parte da realidade local para construir novas práticas de aprendizagem.
“O mais importante dessa participação é poder mostrar que a transformação da educação pública não acontece por meio da simples transferência de modelos. Ela acontece quando conseguimos construir, junto com as redes, condições para que professores, gestores e estudantes sejam autores das mudanças. É uma experiência brasileira, construída em diferentes territórios, que agora entra em diálogo com uma discussão internacional sobre o legado de Paulo Freire”, afirma Ana Beatriz De Sanctis Bretos, cofundadora do Instituto Escolas Criativas.
Do Pará para políticas públicas de educação
A experiência de Bragança é um dos dois trabalhos do Instituto Escolas Criativas selecionados para a conferência.
O segundo, “Da Aprendizagem Criativa à Política Pública: fortalecendo redes públicas de ensino para uma educação dialógica e transformadora”, amplia a discussão para diferentes redes públicas brasileiras e investiga como experiências pedagógicas podem deixar de depender de iniciativas individuais e passar a integrar currículos, formação docente, gestão educacional e políticas públicas.
Desde 2021, o Instituto trabalha em parceria com redes públicas para apoiar esse processo. Ao longo de cinco anos, suas iniciativas alcançaram mais de 1 milhão de estudantes e 58 mil educadores em diferentes regiões do país.
A proposta não é levar um modelo pronto para as redes, mas desenvolver processos de escuta, planejamento, implementação e acompanhamento a partir das características de cada território.
Nesse sentido, Bragança ganha importância justamente por mostrar, em escala municipal, como essa construção pode acontecer preservando características culturais e sociais locais.
A ida da experiência paraense à Columbia coloca, assim, a escola pública da Amazônia no centro de uma conversa internacional sobre educação: não apenas como território que recebe políticas educacionais, mas como lugar capaz de produzir práticas, conhecimentos e experiências que ajudam a pensar os caminhos da educação pública.
SERVIÇO
Paulo Freire Conference at Columbia University
Tema: Freire in the World: From Educational Practices to the Transformation of Educational Systems
Data: 18 e 19 de setembro de 2026
Local: Columbia University, Nova York, Estados Unidos
