Correio de Carajás

Morre Milton Afonso, um dos grandes benfeitores da Igreja Adventista no Brasil

Empresário e fundador da Golden Cross morreu aos 104 anos, no Rio de Janeiro; trajetória foi marcada por investimentos em educação, comunicação, assistência social e evangelização

Por: Da Redação

Morreu nesta quarta-feira (2), no Rio de Janeiro, aos 104 anos, o empresário e filantropo Milton Soldani Afonso, fundador da Golden Cross e um dos principais apoiadores da expansão da comunicação e da educação da Igreja Adventista do Sétimo Dia no Brasil e na América do Sul. Ele estava internado havia uma semana em uma unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital Samaritano, na capital fluminense.

Nascido em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em 12 de dezembro de 1921, Milton Afonso cresceu em uma família de poucos recursos. Ainda criança, vendia doces preparados pela mãe para ajudar no orçamento da casa. Aos 13 anos, mudou-se para São Paulo para estudar no antigo Colégio Adventista Brasileiro, atual Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp).

A ligação de Milton Afonso com a Igreja Adventista começou ainda na infância. Ele conheceu a mensagem adventista aos nove anos e foi batizado em 1937. Durante o período de estudos em São Paulo, trabalhou com colportagem, atividade que consiste na venda de livros e materiais religiosos por meio do Ministério das Publicações.

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A atividade contribuiu para custear sua formação e também o preparou para a vida empresarial. Por volta de 1943, Milton se tornou o colportor-evangelista com maior volume de vendas no Brasil, segundo registros da Igreja Adventista.

Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Niterói, no início dos anos 1950, ele criou, em 1951, a Casa Editora de Legislação. A revista Legislação Federal, publicada pela empresa, tornou-se uma referência na área de imposto de renda.

Fundação da Golden Cross

A entrada de Milton Afonso no setor de saúde ocorreu a partir de sua atuação no Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro, onde integrou a diretoria. Em abril de 1971, aos 49 anos, deixou o emprego que mantinha na instituição e abriu um pequeno escritório para comercializar planos de assistência médica.

A iniciativa deu origem à Golden Cross, uma das primeiras e mais importantes operadoras de planos de saúde do país. A empresa cresceu rapidamente e, em 1984, já figurava entre as maiores companhias do setor na América do Sul.

A Golden Cross também esteve relacionada aos projetos sociais e religiosos do empresário. Durante parte de sua trajetória, os lucros da companhia foram destinados a iniciativas de educação, assistência social e evangelização.

A empresa entrou em crise na década de 1990, após uma tentativa de verticalização da operação. Em 1997, Milton Afonso vendeu a Golden Cross para a norte-americana Cigna, mas desfez o negócio dois anos depois. Posteriormente, a operadora passou a ser administrada por gestores profissionais e teve sua trajetória encerrada após a liquidação determinada pelo órgão regulador.

Educação

O investimento em educação ocupou posição central na atuação filantrópica de Milton Afonso. A experiência vivida na adolescência, quando teve dificuldades para pagar os estudos, influenciou a decisão de apoiar estudantes em situação semelhante.

Por décadas, o empresário manteve programas de bolsas de estudo em instituições adventistas. Segundo a organização, dezenas de milhares de estudantes tiveram as mensalidades custeadas total ou parcialmente por ele, muitos sem jamais tê-lo conhecido pessoalmente.

No fim de 1985, Milton assumiu a administração da Organização Santamarense de Educação e Cultura (OSEC), em São Paulo. Até 1994, destinou recursos à instituição, que posteriormente foi consolidada como Universidade de Santo Amaro (Unisa).

Além das bolsas, ele financiou lares substitutos e orfanatos, apoiou obras em colégios e internatos e contribuiu para a construção de igrejas em diferentes estados. Em 2015, no centenário do campus São Paulo do Unasp, onde estudou, a instituição inaugurou uma praça com o nome do filantropo.

Comunicação adventista

Milton Afonso também teve papel importante na expansão dos meios de comunicação da Igreja Adventista. Em uma época em que a evangelização por rádio e televisão ainda dava os primeiros passos, ele apoiou a criação de um centro de mídia adventista.

A iniciativa contribuiu para o surgimento da Rede Novo Tempo de Comunicação, que passou a transmitir conteúdos em português e espanhol para milhões de pessoas. O empresário também apoiou projetos de comunicação da denominação em nível mundial.

Em 2012, recebeu o título de patrono da comunicação adventista na América do Sul. No mesmo período, foi inaugurado em Jacareí, no interior de São Paulo, um complexo de seis estúdios, distribuídos em uma área de 5 mil metros quadrados, que recebeu o nome de Milton Soldani Afonso.

Em dezembro de 2021, por ocasião de seu centenário, a Igreja Adventista realizou um culto de ação de graças no Centro de Mídia Novo Tempo. A cerimônia contou com a presença do então presidente mundial da denominação, pastor Ted Wilson, e do presidente da Divisão Sul-Americana, pastor Stanley Arco. Na ocasião, também foi inaugurado um espaço dedicado ao empresário no museu da instituição.