Correio de Carajás

Promotora alerta para ciclo que mantém mulheres em relações abusivas

Promotora de Justiça alerta que mulheres de diferentes perfis são vítimas de violência doméstica e que muitas desistem de medidas protetivas mesmo após sofrerem agressões

Promotora a Magdalena Jaguar alerta que a violência doméstica pode atingir mulheres de qualquer idade e condição social / Foto: Kevin William
Por: Theíza Cristhine

A violência contra a mulher não tem idade, profissão, religião ou condição financeira. Mulheres jovens, adultas e idosas podem ser vítimas de agressões dentro de relacionamentos abusivos, e nem sempre a denúncia ou a medida protetiva significam o fim desse ciclo. Em muitos casos, mesmo depois de sofrer violência física e psicológica, a vítima volta atrás, desiste do acompanhamento ou retoma a relação com o agressor.

O alerta é da promotora de Justiça Magdalena Jaguar, da 7ª Promotora de Justiça Criminal do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), com atuação na comarca de Parauapebas. Em entrevista ao Correio de Carajás, durante o Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao combate à violência contra a mulher, ela chamou atenção para a complexidade dos casos que chegam ao MP e ao Judiciário.

Segundo Magdalena, o perfil das vítimas tem se mostrado cada vez mais amplo. A violência doméstica pode atingir mulheres de diferentes faixas etárias e realidades sociais, inclusive mulheres que são financeiramente independentes.

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“O perfil, se a gente for verificar, das vítimas, a vítima de violência doméstica pode hoje ser uma mulher de qualquer raça, qualquer religião, qualquer profissão, a faixa etária dela”, afirmou.

De acordo com a promotora, as vítimas também estão ficando cada vez mais jovens, acompanhando o início precoce dos relacionamentos. Ao mesmo tempo, mulheres idosas continuam entre aquelas que sofrem violência.

“Hoje, a gente tem as vítimas começando a serem agredidas mais jovens porque os relacionamentos eles também estão iniciando cada vez mais jovens. Então, não é só a mulher da idade média, uma mulher de vinte e poucos anos ou a mulher mais de trinta, quarenta, tem mulheres idosas também”, explicou.

Quando a vítima desiste da proteção

Um dos pontos que mais preocupam a promotora é o fato de mulheres que já procuraram ajuda posteriormente desistirem da proteção.

Magdalena contou que tomou conhecimento de um caso em que a vítima procurou a delegacia no dia 9 e teve a medida protetiva deferida pela Justiça. No dia seguinte, quando a proteção já estava judicializada, ela desistiu.

“Simplesmente ela desiste da medida que colocaria ela em total proteção, tanto psicológica como da integridade física”, relatou.

Para Magdalena, não basta observar que a mulher desistiu. É preciso entender o que existe por trás dessa decisão.

Ela cita como possíveis fatores a pressão familiar, a dependência financeira, a dependência emocional e até mesmo a dificuldade de a própria mulher se reconhecer como vítima.

“Se é uma pressão da família, se é a questão financeira, se é o fator de dependência emocional que muitas mulheres que são independentes financeiramente ainda têm dos seus agressores”, afirmou.

O ciclo da violência

A dificuldade de romper a relação, segundo Magdalena, também está relacionada à própria dinâmica do ciclo da violência.

A mulher pode vivenciar uma fase de tensão, seguida pela agressão. Depois, vem o momento em que o agressor pede perdão, promete mudar e tenta reconstruir a relação.

“Ela tem as fases, tem o ciclo, tem a lua de mel”, explicou.

Nesse período, o agressor pode aparecer com flores, bombons e promessas de que não voltará a agredir. A vítima, por sua vez, pode acreditar na mudança e decidir permanecer na relação.

O problema é que, posteriormente, a violência pode retornar e se tornar cada vez mais grave.

Por isso, a desistência de uma medida protetiva ou o retorno ao relacionamento não devem ser interpretados simplesmente como uma escolha individual da mulher, sem considerar todo o contexto de violência e dependência que pode existir.

A rede de apoio também pode falhar

Outro fator apontado pela promotora é a dificuldade que algumas vítimas encontram até mesmo dentro da própria família.

Magdalena citou como exemplo o filme brasileiro A Melhor Mãe do Mundo, que aborda a história de uma mulher que deixa uma relação marcada por conflitos e agressões e sai com os filhos em busca de uma nova vida.

Ao procurar a própria família, que poderia representar uma rede de apoio, a personagem encontra questionamentos e julgamentos.

Segundo a promotora, situações semelhantes podem ocorrer na vida real. “Por que tu não ficas com ele, que ele fez um pedido de casamento, ele veio atrás de você”, exemplificou.

Para ela, esse tipo de comportamento pode fazer com que a mulher se sinta pressionada a permanecer na relação ou a acreditar que a violência faz parte da vida conjugal.

Sinais presentes

A promotora também chama atenção para o comportamento dos agressores. Segundo ela, em alguns processos de feminicídio, é possível identificar que a violência não começou com aquela vítima.

Em um dos casos em que atuou, Magdalena relatou que já existiam registros de agressões cometidas pelo acusado contra uma companheira anterior.

“Já havia relatos de que o agressor dela, de outra vítima, que eu estava no processo, já agredia a ex-mulher”, revela.

Para a promotora, isso reforça a necessidade de olhar para o comportamento do agressor e não responsabilizar a vítima pela violência sofrida.

Números não contam toda a história

É nesse contexto que os dados sobre medidas protetivas precisam ser analisados com cautela.

De janeiro a agosto de 2026, foram registrados 360 pedidos de medidas protetivas em Parauapebas. No mesmo período de 2025, foram 403.

Apesar da redução de aproximadamente 10,7%, a promotora afirma que os números oficiais não necessariamente representam a realidade da violência vivenciada pelas mulheres.

Isso ocorre porque existem vítimas que não procuram as autoridades, mulheres que registram boletins de ocorrência, mas não solicitam medidas protetivas e aquelas que chegam a pedir proteção, mas posteriormente desistem.

Proteção e acolhimento

Para Magdalena, é fundamental que a mulher saiba que existem diferentes caminhos para buscar ajuda.

Em situações de violência ou quando perceber que sua integridade está ameaçada, a vítima pode procurar a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), acionar a Polícia Militar ou buscar os demais serviços da rede de proteção.

Em situações de risco iminente, inclusive de morte, a orientação é acionar o número 180 e, quando possível, informar a localização.

Nos casos em que a mulher já é acompanhada pela Patrulha Maria da Penha, da Guarda Municipal, a equipe também pode ser acionada.

A promotora destaca ainda a importância dos projetos voltados à proteção das vítimas e ao enfrentamento da violência, além de iniciativas que também trabalham com os autores das agressões.

Segundo ela, Parauapebas conta com uma rede de atendimento que vem sendo ampliada e deve receber novos programas, como o Pró-Mulher.

Mais do que incentivar a denúncia, porém, o desafio é fazer com que a mulher consiga reconhecer a violência, encontre uma rede de apoio e tenha condições de romper o ciclo.