Correio de Carajás

A infância perdida dentro de uma casa da Folha 28

Há histórias que parecem nascer de um sonho bonito, mas que, em algum ponto do caminho, tomam um rumo tão triste que a gente se pergunta como foi possível chegar até ali. Esta começa na Folha 28, na Nova Marabá, com um casal que não tinha filhos. Ele era pedreiro, ela dona de casa e, enquanto o marido parecia aceitar a vida como ela se apresentava, a mulher carregava dentro de si um desejo enorme de ser mãe. Sonhava com uma criança, imaginava a casa com brinquedos, roupas pequenas e aquela movimentação que um filho é capaz de provocar.

Como a gravidez não acontecia, decidiram adotar um bebê. E, naquele começo, tudo parecia se encaixar. Prepararam o enxoval, pintaram o quarto, organizaram a casa e acompanharam o crescimento do menino com os cuidados de quem finalmente havia realizado um sonho antigo. A criança trouxe movimento para aquela casa e, durante algum tempo, deve ter parecido que a vida tinha encontrado o seu lugar.

O problema começou quando chegou a hora de o menino ir para a escola.

Leia mais:

Ele não falava e, com o passar dos meses, ficou evidente que havia alguma coisa diferente em seu desenvolvimento. Naquela época, porém, ninguém naquela casa e talvez nem em Marabá conhecia a palavra neurodivergência, tampouco havia a compreensão que hoje, ainda que de maneira imperfeita, existe sobre as diferentes formas de desenvolvimento e aprendizagem. Para os pais, para os professores e para as próprias escolas, havia apenas um menino que não conseguia acompanhar os outros. Para alguns, era um “doido”.

Ele passou por três escolas diferentes e, de todas, saiu antes que o ano terminasse. Não encontrava um lugar onde pudesse aprender e conviver, e também não havia, aparentemente, quem soubesse construir uma ponte entre suas necessidades e o ambiente escolar. Aos 10 anos, deixou definitivamente de estudar.

Foi quando a vida daquele menino começou a encolher.

O garoto passou a viver dentro de casa, praticamente sem contato com outras crianças, sem amigos e sem escola. O mundo, que deveria se abrir diante dele, foi ficando cada vez menor, limitado àquelas paredes e à convivência com os dois adultos que o haviam adotado. A mulher que, anos antes, sonhara tanto com uma criança passou a rejeitá-lo, e essa rejeição foi crescendo até atingir o marido, que acabou cedendo à pressão.

Quando o garoto tinha aproximadamente 14 anos, o pai o colocou em um ônibus de Marabá com destino a Imperatriz, no Maranhão. Não houve mala, despedida ou plano de acolhimento. O menino levou apenas a roupa do corpo e, ao chegar à rodoviária, foi deixado para trás. O homem que deveria protegê-lo simplesmente tomou o ônibus de volta para Marabá.

É difícil imaginar o que passou pela cabeça daquele adolescente naquela rodoviária. Mais difícil ainda é pensar que ele não tinha condições de explicar quem era, de dizer onde morava ou de pedir ajuda. Não sabia se comunicar adequadamente, não conhecia a cidade e, além disso, não tinha dinheiro nem alguém esperando por ele.

Era um menino perdido entre chegadas e partidas.

Dias depois, de volta a Marabá, o pai contou o que havia feito a um amigo carpinteiro. O homem ficou profundamente impactado com a história, principalmente porque sabia que aquele rapaz não tinha condições de se virar sozinho. A notícia acabou chegando a outras pessoas e, cerca de três meses depois do abandono, um ex-vereador tomou conhecimento do caso e decidiu pressionar o pai para que ele voltasse a Imperatriz em busca do filho.

O velho acabou aceitando.

Os dois foram de carro até a cidade maranhense e começaram a procurar pelo garoto. Não precisaram percorrer muitas ruas. Em algum momento, encontraram o menino.

Foi então que o pai chorou.

Chorou diante do filho, mas principalmente quando percebeu um detalhe que talvez tenha tornado tudo ainda mais doloroso: o garoto continuava usando a mesma roupa com que havia sido deixado três meses antes.

O ex-vereador comprou novas roupas para o menino, que tomou banho na rodoviária. Depois, os três entraram no carro e iniciaram a viagem de volta para Marabá.

Foram aproximadamente três horas de estrada, mas provavelmente parecia muito mais tempo. Ninguém sabia exatamente o que dizer. O menino estava voltando para casa, embora aquela expressão, naquele momento, já carregasse uma pergunta difícil: que casa era aquela?

Porque voltar para Marabá não significou que a história havia terminado bem.

O garoto voltou para a mesma rotina de antes. Continuou praticamente isolado, sem escola, sem amigos e sem vida social. Tinha comida e um teto, mas não parecia haver aquilo de que uma criança precisa para se sentir pertencente: atenção, convivência, estímulo e afeto.

E talvez esse seja o tipo de abandono mais difícil de enxergar.

Às vezes, vemos crianças abandonadas em ruas, praças, rodoviárias e portas de hospitais, e esses casos costumam provocar indignação porque o abandono está exposto. Mas existe também o abandono que acontece dentro de uma casa, quando alguém está fisicamente presente, recebe comida, tem uma cama para dormir, porém passa os dias sem ser verdadeiramente visto por quem está ao redor.

O menino de que trata esta história viveu assim durante anos.

Antes de completar 20 anos, morreu dentro daquela casa onde havia passado a maior parte da vida. Depois que retornou de Imperatriz, praticamente não saiu mais de lá. Sua última saída aconteceu quando já não havia escola, passeio, brincadeira ou qualquer possibilidade de recomeço.

Saiu para ser enterrado.

É verdade que os tempos eram outros e que faltavam informação, diagnóstico, políticas de inclusão e conhecimento sobre as diferentes formas de desenvolvimento.

O que permanece, independentemente da época, é uma coisa muito mais simples: nenhuma criança deveria precisar falar perfeitamente para ser ouvida, aprender no mesmo ritmo dos outros para ser acolhida ou se comportar como todo mundo para merecer afeto.

O menino não conseguiu encontrar as palavras para pedir ajuda em Imperatriz.

Talvez, durante toda a vida, tenha sido o mundo ao redor que também não tenha encontrado as palavras, os gestos e os caminhos necessários para alcançá-lo.

 

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.