Correio de Carajás

Morre, aos 76 anos, Adelina Braglia, referência histórica da política de Marabá

A ex-vice-prefeita faleceu em Belém, onde morava; ela é pioneira da participação feminina na política marabaense

Retrato em tons sépia de uma mulher idosa sorridente usando óculos e um colar circular.
Adelina em recente entrevista ao podcast “Lugar de Debates” da Câmara Municipal de Marabá/ Foto: CMM
Por: Da Redação
✏️ Atualizado em 12/08/2026 09h00

Maria Adelina Guglioti Braglia, conhecida como Adelina Braglia, morreu nesta quarta-feira (12), em Belém, aos 76 anos, após um longo tratamento contra o câncer. Ex-vereadora e ex-vice-prefeita de Marabá, ela teve uma trajetória ligada à organização popular, à defesa dos direitos dos trabalhadores e à ampliação da presença feminina na política local.

Nascida em junho de 1949, em São Paulo, Adelina chegou pela primeira vez a Marabá em 1974, em atividade vinculada ao Campus Avançado da Universidade de São Paulo (USP). Ela se estabeleceu na cidade em 18 de fevereiro de 1977, em meio a uma enchente, como recordou em entrevista ao podcast Lugar de Debates, da Câmara Municipal, em 2023.

Bibliotecária de formação, Adelina trazia na bagagem a experiência profissional no Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), onde trabalhou entre 1970 e 1977. Em Marabá, passou pela administração municipal e, no ano seguinte à sua chegada definitiva, assumiu a direção adjunta do Campus Avançado da USP. O contato com as comunidades rurais e urbanas do município ajudou a definir o caminho que seguiria na vida pública.

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Ela participou da criação da Associação da Mulher de Marabá e se envolveu em movimentos sociais, na organização comunitária e nas pautas voltadas aos trabalhadores e às mulheres. Em uma cidade que atravessava a abertura democrática e ainda mantinha a política sob domínio majoritariamente masculino, tornou-se uma das vozes que estimularam outras mulheres a ocupar espaços de representação e decisão.

Eleita vereadora em 1982, exerceu mandato na Câmara Municipal entre 1983 e 1985. Na sequência, assumiu a vice-prefeitura de Marabá, função que ocupou de 1985 a 1988. Adelina foi a primeira e, até hoje, a única mulher a chegar ao cargo de vice-prefeita no município. Sua atuação partidária esteve ligada ao MDB, então PMDB, e incluiu disputas internas pela condução do diretório local.

A presença de Adelina na política não foi dissociada dos embates de seu tempo. Ao revisitar aquele período, ela dizia que a entrada na Câmara tinha relação direta com o compromisso com os trabalhadores rurais e com as lutas das mulheres. Também relatava os obstáculos enfrentados por uma mulher em um ambiente político marcado pelo machismo e por disputas acirradas.

Após a derrota de seu grupo nas eleições municipais de 1988, afastou-se da política partidária e deixou Marabá no ano seguinte. Retornou a São Paulo, onde voltou ao Dieese e ingressou, por concurso, na Fundação Seade. Pouco depois, regressou ao Pará para trabalhar na mediação de conflitos de terra, a convite do então governador Almir Gabriel.

A carreira de Adelina prosseguiu no serviço público estadual. Ela atuou em áreas ligadas ao planejamento e às relações institucionais, presidiu o Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará (IDESP) e exerceu funções no Governo do Pará, entre elas a coordenação de um núcleo voltado ao relacionamento com municípios e entidades de classe. Também coordenou o Núcleo de Apoio aos Povos Indígenas, Comunidades Negras e Remanescentes de Quilombos.

Mãe de dois filhos e neta de italianos, Adelina permaneceu ligada a Marabá mesmo após fixar residência em Belém. Uma rua da cidade leva seu nome, homenagem a uma personagem que ajudou a construir parte da história política local. Em 2023, ao retornar ao município para visitar familiares e participar de atividades públicas, ela falou sobre a própria caminhada com uma frase que sintetizava sua visão de mundo: “Uma boa vida. Honro o que respeito. Combato a injustiça. Tenho comiseração pelo sofrimento do outro”.

Em nota de pesar, a Câmara Municipal de Marabá destacou a contribuição de Adelina para a história política e social do município e manifestou solidariedade aos familiares, amigos e pessoas que conviveram com ela. Sua morte encerra uma trajetória que atravessou o sindicalismo, a organização popular, a política institucional e o serviço público, deixando uma referência para as mulheres que vieram depois dela.