Em 1980, muita gente jurava que a Velha Marabá havia chegado ao seu último capítulo. A enchente daquele ano não foi apenas uma cheia de rios. Foi um golpe desferido contra paredes, móveis, fotografias, armazéns, cadernos de escola, lembranças de família e sonhos cuidadosamente empilhados ao longo de décadas. A água tomou conta das ruas como se quisesse apagar o mapa da cidade. E, por alguns dias, parecia mesmo que conseguiria.
Não faltaram vozes anunciando que aquele era o fim definitivo. Diziam que ninguém voltaria a morar onde as águas insistiam em lembrar que eram donas do terreno. A solução, repetiam, era abandonar de vez a península. A Cidade Nova e a recém-planejada Nova Marabá surgiam como o destino inevitável de quem desejasse continuar vivendo sem medo da próxima enchente.
E muita gente foi. Casas ficaram vazias. Famílias inteiras recomeçaram a vida do outro lado. Alguns nunca mais atravessaram de volta levando mudança. A Velha Marabá parecia condenada a transformar-se numa fotografia desbotada, dessas que sobrevivem apenas nos álbuns dos avós.
Leia mais:
Mas cidades têm um coração que nem sempre bate conforme os cálculos dos urbanistas.
Enquanto a enchente levava embora parte do passado, Serra Pelada explodia diante do Brasil. O ouro começou a circular pelas veias de Marabá numa velocidade jamais vista. Comerciantes venderam mais. Caminhões chegavam sem descanso. Aviões pousavam trazendo compradores, aventureiros, empresários e sonhadores. O dinheiro escorria pelas ruas com muito mais força do que as águas haviam escorrido meses antes.
Foi então que surgiram agências bancárias onde antes ninguém imaginava que haveria tanto movimento. Bancos vieram para guardar fortunas improvisadas, financiar negócios, receber depósitos dos donos de barrancos e atender uma economia que parecia ter descoberto um novo pulmão. Quem havia decretado a morte da cidade assistiu, perplexo, ao nascimento de uma prosperidade inesperada.

Ao mesmo tempo, a Nova Marabá começou a crescer com a velocidade dos lugares destinados ao futuro. Vieram as casas da Cohab e da Caixa Econômica, concessionárias de veículos, novas escolas, entre elas o Pequeno Príncipe, e a monumental ponte rodoferroviária sobre o Tocantins, ligando não apenas margens, mas também tempos diferentes da mesma cidade. O projeto concebido em Brasília cumpria sua missão: oferecer um espaço seguro para quem fugia das enchentes e abrir caminho para uma expansão que transformaria Marabá nas décadas seguintes.
Mas havia um detalhe que nenhum projeto urbanístico conseguia desenhar sobre a prancheta.
Ninguém havia calculado o peso da saudade.
O fim da Velha Marabá era o começo de um recomeço porque os profetas da mudança não contaram com a nostalgia dos velhos amores. Ou seja, a grande maioria do povo que morava na Velha Marabá amava o bairro e não queria sair de perto dos rios, de pegar jacumã e pescar mandi ao final da tarde.
Por isso a Velha Marabá fez o que sempre soube fazer: resistiu.
O comércio voltou a pulsar. Novas lojas ocuparam antigos espaços. Casas foram reformadas. Outras surgiram. O bairro, que deveria desaparecer lentamente, reaprendeu a viver. E viveu tanto que, durante muitos anos, continuou sendo um dos centros econômicos e afetivos mais importantes da cidade.
Eu tinha apenas dez anos quando ouvi adultos afirmando, com absoluta convicção, que aquele seria o fim da Velha Marabá. Falavam como quem descrevia um fato consumado. Criança acredita muito no que os mais velhos dizem. Mas a própria cidade tratou de desmenti-los. E desmentiu da maneira mais elegante possível: continuando de pé.
Hoje, olhando suas ruas, a impressão já não é a de uma enchente. É a de uma estiagem silenciosa. O comércio perdeu parte da pujança que um dia teve. Muitas pessoas apenas atravessam o bairro rumo à orla ou à Praia do Tucunaré. Às vezes parece que o movimento passa por ali sem permanecer.
Há quem volte a fazer previsões.
Eu não.
Aprendi cedo demais que Marabá não cabe nas profecias dos pessimistas. Aprendi que rios sobem e descem, economias florescem e se reinventam, bairros envelhecem apenas para descobrir novas razões de existir. A Velha Marabá já foi dada como morta quando ainda tinha muito futuro pela frente.
Talvez esteja, outra vez, diante de um tempo de transformação. E transformações nunca são confortáveis enquanto acontecem. Mas aquele pedaço de chão que enfrentou enchentes históricas, sobreviveu às mudanças econômicas, viu gerações nascerem às margens de dois rios e recusou desaparecer quando todos anunciavam seu funeral não perderá sua vocação para renascer.
Porque existem lugares construídos de tijolos. E existem lugares construídos de pertencimento.
A Velha Marabá pertence ao coração de quem a conhece. E aquilo que mora no coração de um povo pode até mudar de forma, pode até silenciar por algum tempo, mas nunca desaparece. Enquanto houver alguém disposto a caminhar por suas ruas lembrando de onde veio, enquanto houver uma janela aberta para o Tocantins, uma canoa riscando a correnteza ou uma criança descobrindo o encanto das águas pela primeira vez, haverá futuro.
Quem queimou a boca prevendo o fim da Velha Marabá em 1980 talvez tenha aprendido uma das maiores lições desta cidade: algumas terras nasceram com o dom de ressuscitar. E eu não duvido que, mais uma vez, ela transformará a aparente seca de hoje na cheia de oportunidades de amanhã. Afinal, quem aprendeu a vencer os rios não tem medo de recomeçar.
O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
