Correio de Carajás

Após nota da Diocese sobre excomunhão, padre Antônio de Pádua emite carta

O religioso evita confronto e diz que precisava tornar pública a sua posição

Padre sorridente vestindo paramentos litúrgicos brancos e dourados em ambiente de igreja.
Por: Da Redação
✏️ Atualizado em 21/07/2026 17h03

Após a Diocese de Marabá confirmar sua excomunhão por adesão à Fraternidade São Pio X, o padre Antônio de Pádua Souza rompeu o silêncio e publicou uma carta aberta aos fiéis. No documento, o sacerdote afirma que a decisão de celebrar a missa no rito antigo e seguir a tradição da igreja surgiu de oração, silêncio e profundo discernimento, rechaçando a intenção de promover divisões.

Antônio de Pádua relata que a escolha pelo Missal Romano de 1962 não ocorreu de forma precipitada ou por revolta. O movimento se deu para permanecer fiel ao tesouro da tradição da igreja. O padre destaca que lamenta as interpretações e julgamentos recentes, ressaltando que não escreveu a carta para alimentar controvérsias ou se justificar, mas apenas para tornar pública sua posição.

Na mensagem, o sacerdote reafirma lealdade à Igreja Católica Apostólica Romana e ao Papa. Ele diz rezar diariamente pelo pontífice, bispos e todo o povo de Deus, pedindo que sejam conduzidos na verdade e na caridade. O padre expressa gratidão pelos 19 anos de sacerdócio na Diocese de Marabá, em especial pelo período em que atuou como primeiro pároco da Paróquia São José Operário, onde ajudou a erguer o novo templo.

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Ele assegura não guardar ressentimentos e pede perdão por eventuais falhas decorrentes de suas limitações humanas. O texto termina com o compromisso de continuar oferecendo o sacrifício da missa e rezando pela Igreja e pelos fiéis enquanto viver.

Excomunhão

A manifestação pública do padre Antônio ocorre na esteira de uma Nota Pastoral divulgada pela Diocese de Marabá. Assinado pelo bispo dom Vital Corbellini, em 17 de julho, o documento informou sobre a excomunhão do sacerdote em virtude de sua adesão formal à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, um grupo tradicionalista que atua em oposição à autoridade do Papa.

De acordo com a Diocese, a congregação realiza ordenações sem o mandato pontifício, o que configura ruptura com a Santa Sé. Ao se associar ao grupo, o padre incorreu no delito de cisma, resultando na pena imediata de excomunhão. A sanção proíbe Antônio de Pádua de exercer validamente o ministério.

A nota alertou os católicos da região de que todos os atos ministeriais praticados pelo padre são ilícitos. Sacramentos como a absolvição na confissão e a assistência ao matrimônio são considerados nulos e inválidos se realizados por ele. O bispo advertiu que os fiéis leigos que aderirem formalmente à Fraternidade São Pio X podem sofrer a mesma pena de excomunhão.

O caso gerou forte comoção entre os católicos locais. Nas redes sociais, membros da comunidade, especialmente da Paróquia São José Operário, no Km 07, manifestaram apoio ao padre, evidenciando o respeito e a afeição conquistados ao longo de quase duas décadas de trabalho pastoral na região.

Leia a íntegra, abaixo:

“SALVE MARIA E VIVA CRISTO REI!

Após dias de oração, silêncio e profundo discernimento diante de Deus, sinto-me em paz para dirigir estas palavras a todos aqueles que acompanharam minha caminhada sacerdotal.

Durante dezenove anos exerci o ministério sacerdotal na Diocese de Marabá. Procurei viver minha vocação com dedicação, disponibilidade e amor à Igreja, buscando ser um sacerdote fiel ao Evangelho e ao chamado que recebi de Cristo.

Foi na Paróquia São José Operário e suas comunidades que vivi a maior parte do meu ministério sacerdotal. Tive a graça de ser o seu primeiro pároco e ali consagrei anos de intenso trabalho apostólico. Pela misericórdia de Deus, não apenas foi possível erguer um novo templo, construído para a maior honra e glória de Deus sob a proteção de São José Operário, mas, sobretudo, colaborar com a edificação espiritual de inúmeras almas. Pela graça de Deus, famílias foram fortalecidas, crianças, jovens e adultos receberam os sacramentos, muitos retornaram à prática da fé, vocações foram despertadas e inúmeras pessoas experimentaram a misericórdia do Senhor. Tudo isso reconheço como obra da graça divina, pois, como ensina o Apóstolo: “Nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Cor 3,7).

Ao recordar esses dezenove anos de sacerdócio, meu coração se enche de gratidão. Agradeço a Deus pelo dom da vocação, por cada Santa Missa celebrada, por cada confissão ouvida, por cada Batismo, Matrimônio e Unção dos Enfermos administrados, por cada visita aos doentes, por cada família acompanhada e por todas as almas que a Providência colocou em meu caminho. Se algum bem foi realizado por meu intermédio, toda a glória pertence unicamente a Deus.

Nos últimos tempos, depois de uma intensa luta interior, de muito sofrimento e de um longo caminho de oração, estudo e discernimento, compreendi que Deus me chamava a permanecer fiel ao tesouro da Tradição da Igreja, conservando aquilo que recebi como herança da fé católica. Por essa razão, decidi abraçar a celebração da Santa Missa segundo o Missal Romano de 1962 e permanecer unido à Tradição perene da Igreja, tal como foi transmitida e vivida ao longo dos séculos.

Essa decisão não nasceu da precipitação, da revolta ou de qualquer desejo de divisão. Foi amadurecida diante de Deus, na oração, no estudo e no silêncio da consciência. Assumo-a de forma livre, consciente e com inteira responsabilidade diante de Deus, que conhece o íntimo dos corações.

Lamento profundamente que, nos últimos dias, tenham surgido interpretações, comentários e julgamentos a respeito da minha pessoa. Não desejo responder a eles, nem alimentar qualquer controvérsia. Não escrevo estas palavras para acusar, justificar-me ou condenar quem quer que seja. Escrevo apenas para tornar público aquilo que, diante de Deus, discerni para minha vida sacerdotal.

Permaneço amando profundamente a única Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo: a Igreja Católica, Apostólica e Romana. Continuo unido a ela com todo o meu coração. Amo o Santo Padre e rezo diariamente por ele, como sempre fiz no exercício do meu sacerdócio. Rezo também pelos bispos, sacerdotes, religiosos e por todo o povo de Deus, pedindo que o Senhor conduza a todos na verdade e na caridade.

Permaneço convicto de que a Tradição da Igreja não pertence ao passado, mas constitui um tesouro vivo, recebido dos Apóstolos e transmitido fielmente através dos séculos. É nesse patrimônio espiritual que desejo perseverar, com humildade, fidelidade e confiança na Divina Providência.

Não guardo ressentimento contra ninguém. Pelo contrário, agradeço sinceramente a todas as pessoas que fizeram parte da minha caminhada sacerdotal, que rezaram por mim, colaboraram comigo e me ajudaram ao longo desses dezenove anos de ministério. Levo todas em minhas orações e peço a Deus que as recompense abundantemente.

O Senhor conhece toda a minha história. Conhece minhas intenções, minhas fraquezas, minhas lágrimas, minhas lutas e a sinceridade com que procurei discernir a sua santa vontade.

Como ensina a Sagrada Escritura: “O homem vê as aparências; o Senhor, porém, vê o coração.” (1Sm 16,7).

É diante desse olhar de Deus que desejo viver e permanecer até o fim da minha vida.

Se, ao longo desta caminhada, em algum momento falhei por minhas limitações humanas, peço humildemente perdão. Se, pela graça de Deus, algum bem foi realizado por meu intermédio, toda a glória pertence unicamente a Ele. Sigo meu caminho com a consciência em paz, entregando-me à Divina Providência. Não levo comigo amargura nem ressentimento, mas apenas gratidão pelos dezenove anos de sacerdócio e por todas as almas que Deus colocou em meu caminho.

Reafirmo, diante de Deus e dos homens, que permanecerei, com o auxílio da graça divina, fiel a Nosso Senhor Jesus Cristo, à única Igreja por Ele fundada — a Igreja Católica, Apostólica e Romana —, amando o Santo Padre, rezando por ele e por toda a Igreja, procurando conservar até o fim da minha vida o precioso depósito da fé recebido da Igreja e transmitido pela sua Tradição.

Entrego-me inteiramente à Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, Medianeira de todas as graças e Corredentora junto ao seu Divino Filho, colocando sob o seu Imaculado Coração meu sacerdócio, minha vida, meu futuro e minha perseverança final. Confio-me igualmente à poderosa proteção de São José Operário e à intercessão de todos os santos.

Enquanto Deus me conceder vida, continuarei oferecendo o Santo Sacrifício da Missa, rezando pela Igreja, pelo Santo Padre, pelos bispos, pelos sacerdotes, pelas famílias, pelos doentes, pelos que sofrem e por todos aqueles que, de alguma forma, fizeram parte da minha caminhada.

Que um dia, pela infinita misericórdia de Deus, possamos nos encontrar na Jerusalém Celeste, onde cessarão todas as incompreensões, toda dor e toda lágrima, para contemplarmos eternamente a glória da Santíssima Trindade.

A todos renovo meu pedido de orações e asseguro minhas pobres orações sacerdotais.

Concedo-vos, de todo o coração, a minha bênção sacerdotal.

A bênção de Deus Todo-Poderoso, Pai ✠, Filho ✠ e Espírito Santo ✠ desça sobre vós e permaneça para sempre. Amém.

Padre Antônio de Pádua Souza”