Correio de Carajás

Clube de Colagens cria espaço de arte e convivência em Marabá

Fundador do Clube de Colagens, Kauan incentiva a criatividade por meio da arte manual
Por: Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 06/07/2026 14h14

Em um mundo cada vez mais dominado pelo excesso de telas e conteúdos rápidos, práticas manuais tem sido cada vez mais requisitadas por quem quer sair do piloto automático. Em Marabá, pelas mãos do estudante Francisco Kauan de Oliveira Lopes, de 20 anos, recortes de papel são transformados em momentos de relaxamento, mergulho criativo e até como ponte para conectar pessoas.

É assim que a prática da colagem surge como um hobby acessível e um recurso engenhoso para transformar artes como música e literatura em expressão visual.

“Eu sempre estive imerso nessa coisa poética de existir. Então, quando eu escrevo poesia, às vezes eu tenho a vontade de deixá-la ainda mais física”, revela o jovem escritor.

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E, assim, Kauan encontra no trabalho manual uma extensão perfeitamente natural da sua literatura. Para a reportagem do Correio de Carajás, ele conta que costuma escrever em um caderno, as palavras servem como inspiração para que ele construa uma composição visual que dialoga com seus versos.

“Eu acho que é uma forma dessas duas artes estarem juntas o tempo todo”, explica.

Para compartilhar essa paixão e driblar o próprio isolamento, o universitário fundou o ‘Clube de Colagens’. O projeto nasceu no Instagram em outubro de 2025, impulsionado pelo incentivo fundamental de uma amiga próxima.

“Quando eu fazia colagens antes, eu me sentia muito só. Conversando com a minha amiga, falei: será que se eu fizesse um clube, teria alguém interessado?”, relembra Francisco.

A iniciativa ganhou força rapidamente e hoje abriga um núcleo fechado de nove participantes regulares. O grupo é formado em sua grande maioria por mulheres e conta com apenas três integrantes masculinos. Eles se reúnem mensalmente, sempre aos domingos, em locais que facilitam o deslocamento de todos.

Trabalhar com um número reduzido de pessoas é importante para que não só ele consiga dar atenção para todas durante o processo, mas também para que o grupo consiga criar vínculos e se sinta a vontade na hora de criar seus projetos.

Mas, eventualmente, oficinas abertas são oferecidas, seja por iniciativa própria do Clube ou em parceria com outras instituições ou coletivos. Além disso, Kauan também tem disponibilidade para organizar turmas menores e particulares para quem entra em contato pelo seu perfil oficial, o @clubedecolagens.

Para ele, os encontros vão muito além do aprendizado estético e do corte perfeito. A atividade é um espaço seguro para troca de vivências e de desaceleração da mente.

“A gente vai exercitando o cérebro e a nossa criatividade, que tem ficado de lado no dia a dia. Hoje as coisas estão muito no automático e a criatividade vai se dissipando. Fazer coisas manuais ajudam a exercitar a nossa imaginação”, pontua o fundador.

Recortes de revistas, livros e outros materiais dão origem a composições únicas feitas à mão

TRAJETÓRIA LITERÁRIA

A relação profunda de Kauan começou na infância e desde aquela época ele já recebia o apoio dos pais. Natural de Jacundá, ele sente que a falta de incentivos artísticos na cidade natal o impulsionou a buscar cada vez mais esse contato.

Ao se mudar para Marabá no ano passado, ele decidiu mergulhar de cabeça em projetos coletivos para expressar sua arte. Hoje, ele mora sozinho e cursa o 5º período de Letras, com habilitação em Português, pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).

“Eu queria História, só que fiquei com medo de não conseguir e acabei indo para Letras Português. Acabei me apaixonando pelo curso, gosto bastante dele”, afirma.

O encanto pela literatura, no entanto, floresceu bem antes. Foram os clássicos mundiais os responsáveis por moldarem sua visão de mundo.

“Quando eu li O Pequeno Príncipe, entendi que mesmo não sendo um livro de poesia, mas existe poesia dentro dele”, reflete com carinho.

Os encontros do Clube de Colagens unem criatividade, troca de experiências e convivência

COLAGENS

A democratização do fazer artístico é o principal pilar do projeto. A atividade exige pouquíssimo investimento financeiro e se apoia fortemente na reutilização e no olhar atento aos detalhes do cotidiano. A composição visual aceita retalhos de tecidos, folhas naturais recolhidas no chão e até botões perdidos.

“Qualquer pessoa pode pegar um livro didático velho que ninguém vai mais usar, folhear, encontrar uma imagem e a partir daquilo fazer uma colagem”, ensina Kauan.

Ele explica que o método de colagem exige planejamento e uma paciência diferente daquela aplicada na arte digital, formato que o artista também domina com facilidade.

“Diferente da arte digital, a arte com papel físico é um pouco mais difícil, porque você primeiro tem que fazer a estrutura para depois passar a cola, senão vai dar tudo errado”, alerta.

Para quem deseja iniciar a prática terapêutica no conforto de casa, ele sugere a escolha de um tema central para facilitar a harmonia e a conversa entre as cores.

Ele recomenda testar a posição de absolutamente todos os recortes antes de fixá-los. As colas em bastão ou para isopor são as opções mais seguras. Caso a cola líquida branca seja a única alternativa na gaveta, ele aconselha o uso cuidadoso de um pincel para evitar manchas úmidas no papel.

Para o estudante, a imprevisibilidade gostosa da sobreposição dos recortes, misturados ao uso de adesivos e canetinhas, é o que torna a atividade tão mágica.

“O processo criativo é como se a gente estivesse brincando. Por mais que elaboremos alguma coisa, no final sempre sai um resultado diferente. É um mistério”, conclui.

Movido por uma alma artística inquieta, o rapaz respira cultura o dia inteiro. Ele concilia as demandas da faculdade e as reuniões de colagem com as intensas aulas de teatro. No livro em branco de seus próximos anos de vida, o jovem vislumbra o grande sonho de publicar uma obra e o desejo firme de continuar espalhando a beleza das artes visuais por onde passa.