Correio de Carajás

Como a corrida mudou a vida de um atleta em Marabá

Para além do pace, conheça a história de Thiago Henrique Soares, que encontrou na corrida um recomeço para sair da depressão

Thiago Soares: “Deus utilizou a corrida pra me tirar dessa situação de depressão, e isso fez toda a diferença” / Fotos: Evangelista Rocha
Por: Ulisses Pompeu e Kauã Fhillipe
✏️ Atualizado em 11/05/2026 13h49

Nos últimos anos, Marabá passou a respirar corrida. Grupos de atletas amadores e profissionais vêm ocupando as ruas da cidade em horários cada vez mais variados, transformando treinos em encontros coletivos, celebrações e até terapia. Seja em provas comemorativas, percursos temáticos ou simples treinos ao amanhecer, nunca tanta gente dividiu o mesmo “pace” pelas avenidas da cidade.

Para representar a voz dessa comunidade crescente de corredores, amadores ou profissionais, a reportagem conheceu a trajetória de Thiago Henrique Soares, atleta que estreitou ainda mais sua relação com Marabá através do atletismo. Potiguar de nascimento e paranaense de criação, Thiago se mudou ainda criança para o sul do país, onde foi criado pelo tio, figura decisiva para despertar sua paixão pelas corridas. O contato com o atletismo começou cedo, por volta dos 12 anos, quando passou a treinar e ouvir que tinha potencial para competir.

“Quando eu comecei a correr de 12 para 13 anos de idade, o pessoal falava: ‘Thiago, você tem potencial para competir’. Só que eu ainda não tava com aquele gás de entrar de cabeça nos treinamentos”.

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O ponto de virada veio após uma competição escolar. Thiago terminou em 11º lugar justamente em uma prova que premiava até a décima colocação, e a frustração acabou servindo de combustível para levar o esporte mais a sério. A partir dali, as corridas começaram de forma tímida, mas logo passaram a ocupar espaço importante em sua vida. Em pouco tempo, ele já disputava provas maiores e colecionava resultados expressivos.

“Preciso treinar de verdade para ver até onde eu consigo chegar”

Com o incentivo do tio, Thiago passou a seguir uma rotina de treinos mais intensa. Pouco tempo depois, venceu uma etapa de um campeonato escolar representando a escola onde estudava. Ainda adolescente, se mudou para Manaus após a transferência do tio e na capital amazonense, passou a frequentar um centro de treinamento de alto nível inaugurado no fim da década de 1990, considerado referência nacional na época. Participando cada vez mais de corridas de rua, chamou atenção de treinadores e atletas ligados ao centro esportivo, dando início a uma fase mais séria dentro do atletismo.

Thiago treina uma média de 80 quilômetros por semana nas ruas de Marabá e tornou-se um exemplo de estilo de vida

“Deus utilizou a corrida pra me tirar dessa situação”

A chegada a Marabá, no fim de 2009, coincidiu com um período difícil da vida pessoal. Depois de anos afastado das pistas por conta do trabalho e da rotina adulta, Thiago encontrou justamente na corrida o caminho para recomeçar. “Eu estava num momento de depressão profunda, num abismo que eu não conseguia sair. Tenho certeza que Deus utilizou a corrida para me tirar dessa situação”, conta.

Sem treinar havia quase dez anos, ele decidiu voltar mesmo sem estrutura ou equipamentos. O próprio mentor abriu o porta-malas do carro, mostrou vários pares de tênis e pediu para que escolhesse um. Foi assim que recomeçou.

Thiago lembra que terminou o primeiro treino de retorno completamente exausto, mas foi justamente dali que sua história com o atletismo ganhou um novo capítulo. Naquela época, segundo ele, ainda havia poucos corredores em Marabá, realidade que contrasta bem como é hoje em dia. Vagando entre as lembranças dessa fase inicial está a primeira corrida do Sesi realizada na cidade, prova que acompanhou novamente anos depois, já em meio ao crescimento da cultura da corrida no município.

Atualmente, Thiago mantém uma rotina intensa de provas e costuma incluir no calendário ao menos duas ou três competições fora de Marabá, principalmente meias maratonas, que seguem entre suas favoritas. Nos últimos três anos, porém, decidiu encarar as maratonas como um novo desafio.

Antes especializado em provas mais curtas, passou a se dedicar aos ciclos longos de preparação exigidos pelos 42 quilômetros. Fora das pistas, a paixão também aparece na quantidade de tênis acumulados em casa. Sem filhos, ele resume a situação com bom humor: “menos fralda e mais tênis”.

Desvendando a corrida

Apesar da coleção de tênis acumulada ao longo dos anos, Thiago garante que começar a correr está longe de ser um esporte inacessível. Segundo ele, muita gente acaba desistindo antes mesmo de começar por acreditar que precisa investir alto em equipamentos.

“Tem muita gente que acha que, por causa dos influencers patrocinados pelas marcas, precisa ter aquele tênis caro para conseguir correr bem. Mas não, com o tênis que você já tem em casa, você consegue começar sem problema nenhum”, afirma.

O atleta tem mais de 15 pares de tênis de alta performance, mas diz que não desvaloriza os mais comuns

Para o maratonista, os equipamentos mais caros acabam sendo uma consequência natural para quem cria gosto pelo esporte e passa a entender melhor as próprias necessidades durante os treinos. Ele explica que cada corredor possui características diferentes e que nem sempre o modelo ideal para uma pessoa será confortável para outra.

Thiago lembra que certa vez resolveu testar a recomendação de um influenciador especializado em avaliações de tênis mais baratos. Enquanto modelos considerados de alta performance ultrapassam facilmente a faixa dos R$1 mil, ele encontrou um par de uma marca mais comerciável por apenas R$80 e decidiu colocá-lo à prova. “Eu fiz praticamente todo o meu ciclo de maratona com esse tênis de 80. Foram meses treinando, fazendo tiro, rodagem, longão de 30 quilômetros, e não interferiu em nada”. Para ele, o mais importante continua sendo dar o primeiro passo, literalmente.

Hoje, o maratonista vê com satisfação a transformação da corrida em Marabá. Se antes era raro encontrar corredores pelas ruas da cidade, agora eles ocupam avenidas, praças e orlas quase diariamente, todos no mesmo ritmo coletivo que abriu esta reportagem. Pessoas comuns correndo atrás de saúde, superação e pertencimento.