📅 Publicado em 10/05/2026 10h00✏️ Atualizado em 09/05/2026 08h41
Neste Dia das Mães, o Correio de Carajás buscou histórias fora da curva. Mulheres que viram a maternidade crescer em escala gigante e, com ela, experiências raras. É nesse cenário que surgem as “mães de multidão”, figuras que além de criar filhos, fundam verdadeiras redes de afeto.
Em uma dessas andanças por Marabá, na Folha 20, a reportagem encontrou uma casa simples à primeira vista, mas repleta de histórias, fôlego e, sobretudo, ternura daquelas que só existem onde nunca falta gente. Ali vive dona Doralice Pereira, 67 anos, mãe de 10 filhos (9 mulheres e 1 homem), todos já adultos, mas que, para ela, continuam sendo apenas “meus bebês”, mesmo com cada um seguindo sua própria vida. Ao lado do marido, Zacarias Pereira, construiu uma família numerosa que hoje se estende entre filhos, netos e bisnetos.

Vinda do Maranhão, foi na roça que o nó apertou. Os três primeiros vieram no interior, num tempo que ela lembra como o mais bruto. “Na roça era sofrido, mas não tinha escolha, era trabalhar e criar. A gente levava como dava”, conta. A vida mudou quando Zacarias veio para Marabá buscar algo melhor. Um tempo depois, com um canto certo, trouxe a esposa e os pequenos para recomeçar.
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Antes de se estabelecerem definitivamente na Folha 20, a família viveu em outra casa, na Folha 27. Era uma construção de madeira, simples, mas que cumpriu seu papel naquele momento de transição. Com o tempo, veio a decisão de mudar novamente, a partir da venda do antigo terreno e parte da madeira reaproveitada na construção do novo lar.
Com os anos e a família crescendo, a casa teve que se virar. O espaço que abrigou todos sob o mesmo teto era enorme para a época. Assim, conforme os filhos saíam para ganhar o mundo, o imóvel ganhava novos usos quando partes da casa viraram pontos comerciais, um jeito de manter o lugar vivo e ajudar na renda.

“Essa casa aqui foi levantada aos poucos. A gente foi ajeitando como dava. Quando os meninos foram crescendo e saindo, ficou muito espaço, aí a gente aproveitou pra fazer outras coisas”, conta. A lembrança do processo de construção ainda é viva, especialmente por ter sido resultado direto do esforço do casal ao longo dos anos.
Foi na cidade que vieram os outros sete filhos e, com o tempo, netos e bisnetos, ampliando ainda mais a família. Hoje, quando todos se reúnem, a casa ganha outra dimensão. “Quando junta tudo, tu pensa que é um caminhão de gente. Mas é bom demais, eu gosto. Aonde eu chego com eles, eu me sinto bem”, diz, entre risos.
Quando isso acontece, a casa parece voltar ao passado. Os cômodos se enchem novamente, a cozinha ganha movimento e o barulho se espalha pelos corredores. “Quando junta todo mundo, é gente demais. Tem hora que a gente olha assim e nem acredita que saiu tudo daqui”, brinca.
O convívio com os filhos, agora homens e mulheres, é de paz. Cada um tem seu rumo, mas o nó não desata. “Está todo mundo bem, não dão trabalho. Cada um vive sua vida, cria seus filhos… mas o reencontro é sempre aquela festa, ainda mais agora no Dia das Mães”.
Hoje, com os dias mais calmos, Doralice vê o que plantou. Os filhos seguem suas rotinas, alguns no comércio, outros no lar, mas todos voltam para a mãe. Para ela, nada mudou com o relógio. “Para mim, é tudo criança. Pode crescer, casar, ser pai… mas continua sendo meu”, resume.
Criar dez filhos parece uma missão impossível, mas Doralice fala com leveza. E se algo ainda toca seu coração, é ver o ninho cheio como antigamente. “Tem hora que olho na mesa, na hora do almoço, e penso: ‘Meu Deus Zacarias, esse povo todo é nosso mesmo?'”, gargalha. No vai e vem de gerações, ela define o que sente com a calma de quem viveu tudo: “Neto é como se fosse filho duas vezes, e com todo mundo junto, a casa finalmente fica completa”.
Viajando nas lembranças da roça, as mudanças, as obras e a lida com dez filhos, a trajetória de dona Doralice é sobre união. Numa casa que já foi grito e hoje é memória, ela continua sendo o pilar da raiz de uma árvore que não para de dar frutos.

