Correio de Carajás

Mães de crianças com TEA choram na Câmara e expõem crise na saúde de Marabá

Câmara de Marabá debate risco de suspensão de terapias especializadas após Clínica Comunicare relatar atrasos da Prefeitura e ameaçar rescisão de contrato.

Mulher falando ao microfone em uma mesa de reunião com outras pessoas.
Mães de crianças atípicas fizeram relato emocionado durante reunião da Comissão de Saúde
✏️ Atualizado em 28/04/2026 16h07

A possibilidade de suspensão dos atendimentos especializados voltados ao público autista voltou ao centro dos debates na Câmara Municipal de Marabá. O tema mobilizou vereadores, mães atípicas e representantes da Clínica Comunicare durante reunião da Comissão de Administração, Saúde, Serviços, Segurança e Seguridade Social, realizada na manhã desta segunda-feira (27), diante do risco de interrupção de terapias essenciais para dezenas de crianças atendidas no município.

Nos últimos meses, a Clínica Comunicare, uma das empresas conveniadas à Prefeitura de Marabá, tem relatado atrasos sistemáticos nos repasses financeiros referentes aos serviços prestados. A unidade atende 47 crianças por mês com oferta de terapias especializadas, e a possibilidade de suspensão dos atendimentos acendeu um alerta entre famílias, profissionais e usuários do serviço. Diante do cenário, membros do corpo administrativo da clínica, parlamentares e mães atípicas se reuniram para discutir a situação e buscar soluções que garantam a continuidade dos atendimentos.

Durante a reunião, o diretor técnico e proprietário da Clínica Comunicare, Adriano Viegas Rodrigues, afirmou que a empresa enfrenta dificuldades para receber os repasses da Prefeitura de Marabá referentes às terapias ofertadas aos pacientes e alertou que, caso a situação persista, poderá rescindir o contrato de prestação de serviços com o município.

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“Mensalmente, atendemos 47 crianças que são remanejadas pela Prefeitura de Marabá, o que totaliza cerca de 17 mil atendimentos ao ano. Mesmo estando cumprindo todos os requisitos, temos enfrentado inúmeras dificuldades em receber, o que tem nos trazido um prejuízo gigante. Diante dos fatos, já solicitei a meu corpo jurídico que viabilize o processo de rescisão contratual com a Gestão do município. Nas condições que estamos, eu não tenho mais fôlego financeiro para continuar trabalhando”, declarou.

Em outro momento, Adriano afirmou que há falta de sensibilidade da Gestão Municipal em relação à comunidade autista e avaliou que isso se reflete no número reduzido de políticas públicas voltadas a esse público.

“Durante o processo eleitoral, apoiamos o então candidato Toni Cunha, pois acreditávamos que as políticas voltadas aos atípicos iriam avançar, mas infelizmente, estamos vendo o contrário. Existe uma insensibilidade gigantesca, por parte de quem gere o município de Marabá, atualmente, eles não têm empatia para com as pessoas atípicas e, muito menos com suas famílias”, enfatizou.

Presidente da comissão, o vereador Ubirajara Sompré (MDB) demonstrou preocupação com os relatos apresentados e afirmou que o pagamento dos débitos precisa ser feito com urgência para evitar a interrupção das sessões terapêuticas. Segundo ele, caso a situação não seja resolvida, a Câmara poderá instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar o caso.

“Esta Câmara, através de seus parlamentares, tem lutado pela ampliação das políticas públicas voltadas às pessoas com autismo. Tudo que foi dito aqui é de suma importância e as reivindicações são extremamente pertinentes e válidas. Um espaço de atendimento, tal como a Clínica Comunicare, é parceira do município, indo além das questões financeiras e, por isso, seus vencimentos devem ser quitados nos prazos corretos. Iremos buscar esclarecimentos acerca desse assunto para que as dívidas sejam pagas e os direitos dessas famílias garantidos. Essa situação é inadmissível. Temos que marcar uma reunião, onde os representantes da clínica e da Gestão de Marabá estejam presentes, para entender de fato o que está acontecendo. Caso esse encontro não seja viabilizado, essa Casa irá instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito, para apurar como tem funcionado essas terapias. Não dá para continuarmos assim. Nossos atípicos merecem respeito”, declarou.

Jeane Nascimento, mãe de duas crianças atípicas e usuária dos serviços ofertados pela Clínica Comunicare, lamentou a situação e relatou a preocupação com a possível interrupção dos atendimentos.

“Me dói saber que os atendimentos do meu filho podem ser prejudicados pela falta de pagamento. Não temos oportunidade de nos reportar ao prefeito Toni Cunha, ele nos bloqueou em suas redes sociais. Tenho 42 anos, 3 filhos e 2 são autistas, não vivo uma realidade fácil. As mães atípicas do município de Marabá estão esquecidas pelo setor público. Estamos aqui aflitas, pois vivemos a iminência da Clínica Comunicare romper o contrato e acabar com os atendimentos. Os nossos filhos partilham de uma imensa dificuldade de inclusão e essas terapias são de extrema importância para suprir essas lacunas. É triste saber que um município tão rico tem feito tão pouco junto à comunidade atípica”, enfatizou.

Ao se pronunciar, o vereador Jocenilson Silva (PRD) destacou a mobilização das mães presentes e reafirmou o compromisso da Câmara com a manutenção dos atendimentos.

“Essa é uma pauta muito nobre. Ver todas aqui reforça a bravura que essas famílias desempenham junto aos seus filhos. Essa Casa de Leis tem demonstrado apoio a vocês e seguiremos juntos nesse processo”, afirmou.

Vereadores e mães de crianças com TEA após a reunião em que choraram ao relatar falta de atendimento

O vereador Jimmyson Pacheco (PL) defendeu a presença de representantes da Secretaria Municipal de Saúde nas discussões, apontando que a ausência da pasta tem dificultado o avanço das soluções.

“Desde o início de 2025, temos feito inúmeras reuniões em busca de soluções que viessem a regularizar esses atendimentos e, em quase todos esses encontros, senti falta dos membros da Secretaria de Saúde de Marabá. Isso mostra que essa pauta não é uma das prioridades da Gestão do município. Enquanto isso, inúmeras famílias sofrem, por falta de atendimento”, declarou.

O vereador Marcos Paulo da Agricultura (PDT) também criticou a condução do caso e classificou a situação como desrespeitosa com as famílias atípicas.

“O que estamos vendo aqui é o mais puro retrato da falta de respeito que o Executivo de Marabá vem tendo com essas famílias atípicas. Pelo que foi dito pelo proprietário da Comunicare, o contrato que a empresa tem com a prefeitura está prestes a ser rescindido, por falta de pagamento, referente aos atendimentos. Isso é inadmissível. Marabá tem recursos sobrando em seus cofres e pode muito bem saldar essa dívida, impedindo que esses serviços sejam suspensos. Temos que nos reunir com os responsáveis da pasta da saúde e dar um basta nessa situação”, enfatizou.

Também presente no debate, o vereador Márcio do São Félix (PSDB) afirmou que os relatos das mães revelam a gravidade do problema e cobrou providências da gestão municipal.

“Enquanto essas mães falam, podemos enxergar a aflição em seus rostos. Conviver com atípico em casa é um desafio e esse desafio aumenta bastante com a falta de apoio e assistência do poder público. Temos visto, ao longo desses últimos meses, inúmeras falas da Gestão declarando apoio à causa autista, mas as atitudes expostas aqui contradizem o que é dito. Perder o atendimento da Comunicare junto a esses pacientes representará um prejuízo enorme para essas famílias. Enquanto Parlamento, não podemos permitir isso. A Gestão de Marabá precisa cumprir com seu papel”, concluiu.