Correio de Carajás

Engenheiro transforma ônibus em motorhome e dá “até logo” a Marabá

Missão avô: Conheça a jornada e a parada estratégica de Marco e esposa Perla no Paraná antes do sonho de viver à beira do mar

Casal sorrindo na cabine de um ônibus ou motorhome adaptado.
Na véspera da partida, Marco e Perla dão uma volta por Marabá para despedir-se da cidade e dos amigos
Por: Ulisses Pompeu e Luciana Araújo

Quando os sonhos não cabem mais em um único endereço, a alternativa é colocá-los na estrada. Para o engenheiro mecânico e técnico em informática Marco Faria, de 53 anos, essa mudança tem cheiro de mar e será feita sobre rodas. Morador de Marabá há quase 21 anos, ele planejou por cerca de seis, uma transição ousada: deixar a casa na Folha 23 para viver em um motorhome recém-construído.

E esse sonho começou nesta segunda-feira (20), quando ele deixou Marabá ao lado da esposa Perla e da cadela Nina. “Quero aprender a surfar e morar de praia em praia”, disse ele em entrevista ao CORREIO DE CARAJÁS antes de iniciar a longa viagem até o Sul.

Marco, a esposa Perla e a cadela Nina: a família começa uma nova jornada a bordo de um motorhome daqui para frente

Mas o trajeto até o litoral exige uma parada estratégica e demorada. Antes de viver à beira-mar, ele e a esposa, Perla, vão levar a casa rodoviária em Foz do Iguaçu, no Paraná. O objetivo é auxiliar nos cuidados com o neto Arthur, de quatro anos, enquanto a filha Bárbara conclui o curso de medicina.

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Seguindo o plano, os avós estacionarão o motorhome em um terreno em frente à casa dela. Como o genro trabalha em regime de escala e a filha passará o dia na faculdade, a criança estudará pela manhã e ficará com Marco e Perla no período da tarde.

“O objetivo nosso é ficar junto dele nessa infância. Morando do outro lado do país, o tempo passa, quero aproveitar essa fase”, afirma. O avô coruja também planeja instalar uma tirolesa no teto do veículo para divertir o menino.

Mesmo com a pausa prolongada, Marco já projeta a nova rotina, em que irá amanhecer em um lugar e anoitecer em outro, sempre acompanhado da família.

A viagem até o Paraná tem uma estimativa de cinco dias, com uma parada em Brasília para deixar o carro de passeio que será rebocado e para visitar os pais de Marco, que moram em Goiânia. O engenheiro possui a Carteira Nacional de Habilitação na categoria D há quatro anos, modificação feita assim que decidiu seguir o estilo de vida nômade.

Marco e Perla se despedem dos amigos e afilhados Jordão, Thaylane e os filhos Júlia e Arthur

RECONSTRUÇÃO DO VEÍCULO

A nova vida a bordo de um motorhome ganhou forma a partir de um ônibus antigo, comprado há um ano e meio em Natal, no Rio Grande do Norte. Marco optou por um veículo que ainda estivesse rodando para evitar problemas com peças ressecadas, mas a viagem de seis dias até o Pará foi marcada por contratempos mecânicos tensos.

“Eu arranquei cem por cento da fiação dele. Refiz tudo, porque não prestou nada. Como ele veio bem ruim, precisei primeiro consertar a parte mecânica. Depois, como casa, desmontei, tirei os cinquenta bancos, deixando o salão, fiz o isolamento térmico em cima e por aí vai”, detalha o aventureiro.

Com experiência profissional em engenharia mecânica, ele assumiu sozinho quase toda a mão de obra da transformação. Dedicado na missão, nos últimos sete meses, após definir a data da viagem para o sul do país, Marco preencheu suas madrugadas com o trabalho de montagem. A empreitada tomou seus finais de semana, feriados e o tempo livre após encerrar o expediente em sua assistência técnica.

Quem entrou no veículo repaginado semanas antes do início da viagem já percebe que seu interior foge do padrão tradicional de corredor central. Isso porque Marco optou por um corredor lateral, garantindo cômodos que utilizam toda a largura do veículo. A residência móvel possui um quarto espaçoso, um banheiro completo com box, uma área integrada de sala e cozinha dividida por uma ilha, além de uma oficina de 2,20 metros nos fundos.

O sistema hídrico é autossuficiente, com caixas separadas para água limpa com capacidade de 500 litros, água cinza proveniente da pia e chuveiro, e água negra do vaso sanitário. Para a energia elétrica, o veículo conta com 1.100 watts em placas solares e um gerador de 3,5 kVA para suprir equipamentos de maior consumo, como a geladeira duplex e o ar-condicionado.

O ônibus que se transformou em residência permanente para o engenheiro mecânico e a esposa Perla

VIDA NOVA NA ESTRADA

Para sua nova vida, Marco não vislumbra apenas a areia e as ondas do mar. Sua rotina profissional também embarcará no motorhome. Proprietário de uma loja de informática desde 2005, ele planeja continuar trabalhando com manutenção de computadores e drones de forma presencial. A intenção é visitar empresas localmente nas cidades por onde estacionar o ônibus.

Outro elemento que o impulsiona para a jornada é a redução drástica das despesas fixas com moradia e a busca por qualidade de vida. O engenheiro relata que quer distância do estresse dos grandes centros urbanos e valoriza a autonomia que o veículo de 18 toneladas proporciona.

“Você abre mão de muita coisa supérflua, mas ganha tanta coisa que, quem não tem, nem sonha que existe. Quando eu passar por um lugar legal, encosto e fico. Estou em casa. Então, quero essa tranquilidade. Quero correria não”, sustenta.

Nina ganhou um lugar especial na cabine, pertinho de seus tutores

AGRADECIMENTOS

Em 21 anos vivendo em Marabá, Marco agradece aos amigos, principalmente àqueles que contribuíram para que ele realizasse o sonho de montar seu motorhome.

Entre os que não pode deixar de citar, relembra o apoio incondicional do amigo Moacir, do Guindaste Oliveira, que permitiu que o ônibus ficasse em sua oficina por mais de um ano, com acesso a ferramentas e toda a estrutura existente ali. “Ele tem 40 anos de mecânica e muita experiência nessa área, o que me ajudou bastante na reforma do veículo”.

Os móveis planejados do ônibus foram construídos milimetricamente por ele e a esposa Perla, mas com apoio da marcenaria do amigo Walter, a Neves Planejados. “Ele me orientou e fizemos tudo. São esses amigos que vão nos fazer falta, porque em Marabá, de tudo que a gente precisa tem um amigo que trabalha naquele ramo”.

Jordão Nunes, afilhado, ajudou bastante em várias áreas, assim como Vitor e Ana. “Faltam alguns acabamentos que não estavam no projeto, mas vamos completando com o tempo”.

E quando perguntamos como será sua vida depois da experiência em Marabá, ele tem a frase pronta há seis anos, dois meses e quatro dias: “Daqui para frente, vamos viver um dia de cada vez, sem pressa”.