Correio de Carajás

MST anuncia memorial com pedras na Curva do S pelos 21 trabalhadores mortos

Construção contará com pedras do Pará e homenageará 21 mortos em 1996; movimento também debate conflitos agrários e pautas ambientais.

Homem com barba e boné vermelho com logo verde em frente a uma pintura colorida.
Wellington Saraiva: “Celebrar a memória dos nossos mártires é também um instrumento de luta e de resistência da nossa organização”/ Foto: Equipe Correio de Carajás
Por: Kauã Fhillipe e Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 17/04/2026 18h10

Durante o ato que marca os 30 anos do massacre de Eldorado do Carajás, nesta sexta-feira (17), na Curva do S, representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) anunciaram a construção de um memorial permanente em homenagem aos 21 trabalhadores rurais mortos em 1996. O espaço será instalado às margens da rodovia BR-155, entre Marabá e Parauapebas, e contará com pedras trazidas de diferentes regiões do Pará.

De acordo com Wellington Saraiva, da coordenação nacional do MST, o memorial será construído no mesmo local onde ficavam as castanheiras que simbolizavam as vítimas do massacre.

“Onde tinham as 19 castanheiras, vamos fazer um memorial com pedras, um espaço permanente para que as pessoas que passem pela rodovia saibam que aqui tombaram 21 trabalhadores e trabalhadoras”.

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Segundo ele, a iniciativa é resultado de uma parceria com professores de arquitetura da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), além da participação da juventude do movimento. Desde 2006 o espaço é ocupado pelos jovens como lugar de formação política e de denúncia da impunidade desses 30 anos.

Wellington destacou ainda que a preservação da memória é parte da estratégia de atuação do movimento: “Para nós, celebrar a memória dos nossos mártires é também um instrumento de luta e de resistência da nossa organização”.

Ele também chamou atenção para a continuidade dos conflitos agrários no estado. Segundo ele, desde 1996 até hoje, mais de 300 pessoas foram assassinadas no Pará, e muitos desses casos já caíram no esquecimento.

Além da memória das vítimas, o movimento também relaciona o ato a outras pautas atuais, como a defesa do meio ambiente. Segundo Wellington, o MST tem se posicionado contra intervenções consideradas prejudiciais à região, como a obra da derrocagem do Pedral do Lourenção. Ele aponta que as áreas ribeirinhas irão sofrer com o impacto do empreendimento.

“Estamos nos somando a essa luta contra uma agressão ambiental que pode causar um impacto gigantesco. O debate sobre mudanças climáticas está colocado, mas há contradições quando projetos desse tipo avançam”, afirma.

O dirigente reforçou que o ato também tem caráter político e de mobilização social. Para o movimento, o marco dos 30 anos é um momento de denúncia, mas também de reafirmação da luta. Para os militantes, enquanto houver concentração de terra, haverá mobilização.

O ato deste 17 de abril reúne trabalhadores rurais, movimentos sociais e autoridades, além de integrar a Jornada Nacional de Luta pela Reforma Agrária Popular, no Dia Internacional da Luta Camponesa. Cerca de 3 mil pessoas participaram de uma caminhada ao longo da semana até o local, com a presença de famílias de assentamentos do sudeste do estado.

A programação na Curva do S inclui celebrações religiosas, apresentações culturais e atividades organizadas por jovens do movimento, que utilizam o espaço como local de formação e articulação desde 2006. Para os organizadores, o memorial deve consolidar o local como ponto permanente de memória e reflexão sobre os conflitos no campo.