Correio de Carajás

Em vídeo, cacica gavião critica apropriação a nomes indígenas nas redes sociais

Tuxati Kyikatêjê Parkatêjê denuncia prática de não indígenas que se autodeclaram como membros da etnia; liderança reafirma que identidade indígena não é escolha pessoal

Mulher indígena com pintura facial e uma certidão de nascimento sendo exibida.
Por: Da Redação
✏️ Atualizado em 02/06/2026 16h57

A Terra Indígena Mãe Maria, localizada no Pará, tornou-se palco de uma importante discussão sobre identidade, respeito cultural e apropriação de elementos sagrados dos povos originários. A cacica Tuxati Kyikatêjê Parkatêjê, liderança do povo Gavião, utilizou as redes sociais para denunciar uma prática que vem se tornando cada vez mais comum: a apropriação de nomes indígenas por pessoas não indígenas que se autodeclaram como membros de povos originários.

Em um vídeo publicado no perfil @midiagaviao, a cacica aborda uma questão que vai muito além de uma simples escolha de nome. Para Tuxati, trata-se de um desrespeito profundo a uma cultura milenar, a uma história de luta e a uma identidade que não pode ser adquirida como um acessório ou ferramenta de promoção pessoal.

O significado sagrado

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Para o povo Gavião, um nome não é uma escolha arbitrária. Cada nome carrega consigo uma carga de significado, história e responsabilidade que transcende a simples identificação pessoal. “Cada nome que os indivíduos do povo da terra indígena Mãe Maria levam tem um significado, tem um respeito”, explica a cacica no vídeo.

Segundo Tuxati, os nomes são atribuídos de acordo com características específicas e com base na sabedoria dos antepassados. Não são os pais que escolhem aleatoriamente um nome para seus filhos. Existe um processo profundo, enraizado nas tradições e na espiritualidade do povo.

“O nome, para nós, ele é muito sagrado. Ele precisa ser respeitado, porque ele vem de acordo com os nossos antepassados e as características de quem nos dá esse nome”, afirma a liderança.

Essa compreensão contrasta drasticamente com a prática de não indígenas que simplesmente adotam um nome indígena, frequentemente sem compreender seu significado ou sua importância cultural. A cacica cita especificamente o caso de pessoas que se apresentam com nomes como “Airomocunere”, assumindo uma identidade que não lhes pertence.

Não é fantasia

A indignação de Tuxati vai além da questão dos nomes. Ela toca em um ponto central: a identidade indígena não é algo que possa ser escolhido por conveniência ou adotado como uma estética. “A identidade indígena não é fantasia, estética ou ferramenta de promoção pessoal. Ela é construída por laços comunitários, história, ancestralidade e reconhecimento coletivo”, ressalta a cacica.

Para a liderança Gavião, a apropriação de elementos culturais indígenas por não indígenas contribui para o apagamento das identidades reais dos povos originários. Quando alguém se autodeclara indígena sem pertencer a um povo específico, sem ter nascido naquela comunidade, sem compartilhar da história e da ancestralidade, está cometendo uma violência simbólica contra aqueles que verdadeiramente carregam essa identidade.

“Nunca será gavião e nunca será reconhecido como gavião. Nunca terá o direito com que nasceram, com que cresceram e que principalmente carrega no sangue a geração da luta de onde a gente veio”, afirma Tuxati, deixando claro que nenhum registro oficial, nenhuma autodeclaração e nenhum tempo de convivência poderá transformar um não indígena em membro de um povo originário.

Tuxati enfatiza que para se autodeclarar como membro do povo Gavião, é necessário conhecer essa história. “Para você se autodeclarar, como os kupem que está aí, se declarando, como se passando por indígena, ela mesmo se colocando um nome, vocês precisam saber o histórico do povo gavião”, afirma a cacica, utilizando o termo “kupem” para referir-se aos não indígenas.

Polêmica

A cacica estaria se dirigindo na sua fala, a uma situação específica que estaria acontecendo nas redes sociais.

Nos comentários, os internautas atribuem a ocorrência @angel_ayromokynere, que seria uma influenciadora das redes sociais. Trata-se de pessoa trans que registrou há poucos dias seu nome social, conforme facultam as leis, passando a se chamar oficialmente: Angel Ayromokynere Cardoso Alves.

Ela, por sua vez, publicou esta tarde que nunca se declarou indígena e que o seu nome não foi resultado de modismo, pois carrega o sobrenome “Ayromokynere” desde o seu nascimento em 2002, na sua certidão de nascimento original, por escolha dos seus pais.