Uma substância conhecida por proteger as células do corpo pode, na prática, estar sendo usada por tumores como fonte de alimento.
É o que mostra um estudo publicado na revista científica Nature e liderado por pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, com participação do cientista brasileiro Fabio Hecht.
A pesquisa identificou que a glutationa (um antioxidante produzido naturalmente pelo organismo) pode ser “quebrada” no ambiente do tumor para alimentar seu crescimento.
Leia mais:“Existe essa concepção de que antioxidantes sempre fazem bem, previnem doenças, inclusive câncer. Mas os dados não mostram isso. Em alguns casos, eles podem até atrapalhar”, explica Hecht.
O que exatamente os cientistas descobriram
Para entender a descoberta, dá para imaginar o tumor como uma estrutura que precisa de combustível constante para crescer. E esse combustível pode vir de lugares inesperados.
A glutationa, por exemplo, sempre foi estudada pelo seu papel protetor: ela ajuda a neutralizar os chamados radicais livres, moléculas associadas a danos celulares.
Mas o novo estudo mostra que, dentro do ambiente do tumor, ela pode ter outra função.
Os pesquisadores descobriram que uma enzima do próprio corpo, presente nesse ambiente, “quebra” a glutationa em partes menores —e o câncer aproveita esse material como fonte de energia.
“Quando essa molécula é quebrada, ela libera aminoácidos. E um desses aminoácidos vai direto para o metabolismo do tumor, o ajudando a crescer”, diz Hecht.
Uma peça-chave chamada cisteína
Entre os componentes liberados nessa “quebra”, um se mostrou essencial: a cisteína.
Foi ela que, na prática, sustentou o crescimento das células tumorais.
“Testamos os três aminoácidos oriundos da glutationa e vimos que o único realmente indispensável para o tumor era a cisteína”, afirma o pesquisador.
A cisteína funciona como uma espécie de escudo para as células —inclusive as cancerígenas.
Segundo o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, ela ajuda a proteger o tumor contra condições adversas.
“A cisteína permite que a célula tumoral sobreviva em um ambiente hostil. Ela reduz o estresse oxidativo e funciona como uma proteção, quase uma blindagem”, explica.
Ou seja: além de alimentar, o processo também ajuda o tumor a se defender.
O que acontece quando esse ‘combustível’ é bloqueado
A partir dessa descoberta, os cientistas testaram uma estratégia simples: impedir que essa quebra da glutationa aconteça. O resultado foi direto.
“Quando usamos uma droga para bloquear esse processo, os tumores passaram a crescer muito mais lentamente”, diz Hecht.
Para testar essa hipótese, os cientistas usaram uma substância capaz de bloquear a enzima que “quebra” a glutationa —justamente o passo que transforma o antioxidante em combustível para o tumor.
Ao impedir esse processo, os tumores passaram a crescer mais lentamente. O resultado reforça a ideia de que interromper esse mecanismo pode limitar o avanço da doença, além de ajudar a entender melhor como o câncer se desenvolve.
O composto já existia e vinha sendo estudado em outros contextos, mas ainda não é usado como tratamento contra o câncer.
Isso pode virar tratamento? Calma
Apesar do potencial, os próprios pesquisadores fazem um alerta: ainda é cedo.
Os testes foram feitos em laboratório, com células tumorais, e em modelos animais (camundongos), principalmente com câncer de mama —especialmente o tipo triplo negativo, um dos mais agressivos.
Também houve indícios de que o mecanismo pode existir em outros tumores, como pulmão, pâncreas e melanoma.
Mas transformar essa descoberta em um tratamento real ainda é um caminho longo.
“Existe uma grande diferença entre um bom racional científico e um tratamento que funcione na prática”, diz Stefani. “Muitas ideias promissoras não se confirmam clinicamente.”
Segundo Fabio Hecht, um dos autores do estudo, o próximo passo é aprofundar o entendimento desse mecanismo e desenvolver estratégias mais específicas para bloqueá-lo.
“A gente mostrou que esse processo é importante para o crescimento do tumor. Agora, o desafio é transformar isso em uma abordagem que possa ser usada com segurança em pacientes”, afirma.
E os antioxidantes? Precisa se preocupar?
A descoberta pode levantar uma dúvida imediata: afinal, antioxidantes fazem mal? A resposta é não, mas com nuance.
O próprio estudo não avaliou o efeito de suplementos em humanos. Ou seja, não dá para dizer que tomar glutationa cause câncer ou piore a doença.
Mas os achados reforçam um ponto importante: nem tudo que é vendido como “benéfico” funciona da forma que se imagina.
“Não tem muito por que recomendar suplementação de glutationa”, afirma Hecht.
Por outro lado, isso não muda a recomendação clássica da medicina.
Uma alimentação equilibrada, rica em frutas e vegetais —que naturalmente contêm antioxidantes— continua sendo associada a benefícios para a saúde.
O que essa descoberta muda na ciência
Mais do que uma resposta definitiva, o estudo abre uma nova linha de investigação.
Ele mostra que o câncer pode usar mecanismos do próprio corpo (até mesmo aqueles considerados protetores) a seu favor.
Na prática, Stefani explica, isso significa uma mudança de olhar. Em vez de apenas atacar o tumor diretamente, uma das estratégias pode ser cortar o que ele usa para sobreviver.
E, nesse caso, o alvo pode estar em algo que sempre pareceu inofensivo: uma mudança de perspectiva que pode abrir novos caminhos na busca por tratamentos contra o câncer.
(Fonte:G1)
