Correio de Carajás

Marabá registra 120 golpes virtuais em apenas 2 meses

Dados são da Polícia Civil, repassados pelo delegado Vitor Costa, que confirma migração do ambiente real para o virtual

Homem com blazer azul e óculos sentado em escritório, mãos cruzadas.
Delegado Vitor Costa: “Houve uma migração muito clara da criminalidade de rua para o ambiente virtual”
Por: Kauã Fhillipe
✏️ Atualizado em 31/03/2026 09h31

Os crimes praticados no ambiente virtual seguem em crescimento acelerado em Marabá. Golpes aplicados em plataformas digitais de compra e venda têm se tornado cada vez mais frequentes, superando, em muitos casos, as barreiras dos crimes físicos e migrando definitivamente para o meio eletrônico. Entre os ambientes mais utilizados pelos criminosos está o Marketplace do Facebook.

Para o Correio de Carajás, o delegado da Polícia Civil, Vitor Costa, que atua na unidade da Cidade Nova, afirma que houve uma clara migração da criminalidade tradicional para o meio digital, impulsionada pela popularização da internet e pela facilidade na execução dos delitos. Segundo ele, essa mudança tem impactado diretamente a rotina das delegacias, que hoje lidam diariamente com casos de estelionato e furtos eletrônicos, praticados das formas mais variadas e criativas, não apenas nas redes sociais, mas em diversas plataformas virtuais.

Levantamento feito pela unidade policial aponta que, dos cerca de 600 boletins de ocorrência registrados neste ano na delegacia, ao menos 120 são relacionados a estelionatos virtuais, o que representa aproximadamente 20% do total. Conforme explica o delegado, essa proporção tende a oscilar, mas permanece semelhante nas demais delegacias do município, o que ajuda a esclarecer a dimensão do problema em Marabá como um todo.

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“As delegacias, não só a da Cidade Nova, mas de Marabá como um todo, estão literalmente inundadas por ocorrências de estelionato e furto eletrônico. São crimes que crescem a cada ano e hoje representam uma parcela significativa de todos os boletins registrados”, enfatiza.

Apesar de os dados não permitirem identificar com precisão a origem de todas as ocorrências, seja por meio do Facebook, OLX ou outras plataformas, o delegado destaca que a maioria dos golpes registrados tem ligação direta com o Marketplace da plataforma da Meta.

O crescimento desse tipo de crime, segundo a Polícia Civil, tem sido constante nos últimos anos. O delegado ressalta que a principal vantagem para o criminoso é a ausência de exposição: diferentemente dos crimes de rua, no ambiente virtual o autor atua oculto por trás de perfis falsos, o que facilita a aplicação de golpes e dificulta a investigação. Hoje, esse tipo de delito é um dos que mais sobrecarregam as delegacias em todo o país, não apenas em Marabá, mas em nível nacional.

Golpes mais aplicados

A Polícia Civil identifica ao menos quatro modalidades de golpes mais recorrentes praticados nas redes sociais, especialmente pelo Facebook.

O mais comum é o chamado golpe do falso intermediador, também conhecido como falso anúncio. Segundo o delegado, nesse esquema o criminoso copia um anúncio verdadeiro, como a venda de um veículo ou eletrodoméstico, por exemplo, e o republica no Marketplace. “O criminoso replica um anúncio verdadeiro, normalmente de veículos ou eletrônicos, e faz a intermediação entre comprador e vendedor, exigindo que as partes conversem apenas com ele. A vítima vê o bem, acredita na negociação e acaba transferindo o dinheiro para o golpista”, explica.

O delegado alerta que, nesse tipo de situação, é fundamental que o comprador negocie diretamente com o proprietário do bem. “Não faz sentido conversar com intermediários quando o dono do produto está claramente identificado”, orienta.

Outra prática recorrente é o golpe do perfil falso de familiar. Nesse caso, os criminosos criam contas falsas se passando por filhos, filhas ou outros parentes próximos e entram em contato solicitando dinheiro, geralmente sob o pretexto de uma emergência. Embora seja mais comum no WhatsApp, esse tipo de golpe também ocorre no Facebook e pode envolver mensagens ou ligações. A orientação é sempre confirmar a identidade da pessoa antes de qualquer transferência.

Há ainda o estelionato amoroso, um golpe mais complexo e demorado, que costuma atingir pessoas em situação de vulnerabilidade emocional. O criminoso estabelece um relacionamento virtual com a vítima e, após conquistar sua confiança, passa a pedir dinheiro, presentes ou auxílio financeiro. Esse tipo de ocorrência também aparece com frequência nos registros da delegacia.

Por fim, o delegado destaca o golpe do falso investimento, bastante comum no Facebook e no Telegram. Nessa modalidade, são oferecidas oportunidades com promessas de rendimentos elevados e rápidos. O alerta é claro: “não existem investimentos milagrosos, e na maioria das vezes trata-se de golpe ou pirâmide financeira”.

A vítima pode recuperar o dinheiro?

 

Segundo a Polícia Civil, há possibilidade de recuperação dos valores, especialmente se a vítima agir rapidamente. O delegado explica que a principal dificuldade está na pulverização do dinheiro, já que após receber a transferência, o criminoso costuma redistribuir os valores para várias contas, dificultando o rastreamento.

Apesar disso, atualmente existe um mecanismo eficaz para esses casos: o Mecanismo Especial de Devolução (MED), do Banco Central. Com a versão mais recente do sistema, o MED II, os bancos conseguem seguir o caminho do dinheiro e realizar bloqueios, aumentando as chances de recuperação dos valores transferidos de forma fraudulenta.

“Hoje, o MED é o instrumento mais eficaz e não tão burocrático para tentar recuperar valores enviados de forma fraudulenta. A orientação é que a vítima procure imediatamente o gerente do banco, pois o bloqueio pode ser feito em cadeia”, pontua.

O registro na delegacia continua sendo importante, mas o contato rápido com a instituição financeira é decisivo para o bloqueio dos valores. Posteriormente, a Polícia Civil pode instaurar inquérito para responsabilização criminal dos envolvidos.

O delegado também destaca que a maioria dos autores desses crimes não está em Marabá. Em cerca de 90% dos casos, os criminosos atuam a partir de outros estados, como São Paulo, Mato Grosso e estados do Nordeste, o que dificulta a investigação. Ainda assim, alguns casos já foram concluídos e resultaram na identificação de envolvidos.

Orientações para evitar golpes

 

A Polícia Civil reforça que a prevenção ainda é a melhor forma de evitar prejuízos. “Desconfiar de preços muito abaixo do mercado, evitar pagamentos antecipados e conferir para quem o dinheiro está sendo enviado evita a maioria dos golpes. Um pouco mais de atenção da população já impede grande parte desses crimes”.

Outra orientação importante é reduzir a exposição de dados pessoais nas redes sociais. Muitos golpes se baseiam em técnicas de engenharia social, nas quais o criminoso utiliza informações públicas da vítima para explorar fragilidades emocionais ou financeiras.

Ademais, a Polícia Civil lembra que todas as delegacias de Marabá estão à disposição da população para orientar, registrar ocorrências e atuar na investigação desses crimes, além de desenvolver, de forma esporádica, campanhas educativas para alertar a população sobre os riscos dos golpes virtuais.

Meta diz que vem reforçando suas medidas de segurança

 

A reportagem do COREIO procurou a Meta, responsável pelo Facebook, que informou que os golpes têm se tornado mais frequentes e sofisticados. A empresa afirmou que vem reforçando medidas de segurança e que seguirá aprimorando a identificação e o combate a esse tipo de fraude na plataforma. Veja a nota na íntegra:

“As tentativas de golpes têm aumentado em escala e complexidade nos últimos anos, impulsionadas por redes criminosas internacionais. À medida que essa atividade se torna mais persistente e sofisticada, nossos esforços para combatê-la também se intensificam. Estamos testando o uso de tecnologia de reconhecimento facial, aplicando nossas políticas para coibir golpes e capacitando as pessoas a se protegerem por meio de diversas ferramentas de segurança e alertas disponíveis em nossas plataformas. Continuaremos tomando medidas para aprimorar a detecção e a aplicação de nossas regras contra esse tipo de atividade”.