Correio de Carajás

Novas imagens relembram a tragédia do desabamento da Ponte na BR-226

Ponte JK colapsou em dezembro de 2024 e famílias ainda aguardam por justiça e indenizações

Registro de câmera de segurança mostrando colisão ou incidente envolvendo caminhões e uma picape em uma ponte, com fumaça.
As imagens agora divulgadas são do sistema de câmeras de um dos caminhões envolvidos
Por: Da Redação
✏️ Atualizado em 21/03/2026 07h56

Novas imagens de câmeras de monitoramento, divulgadas recentemente, trouxeram à tona o terror vivido na tarde de 22 de dezembro de 2024. Os registros mostram o exato momento em que a Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, que conectava os municípios de Aguiarnópolis, no Tocantins, e Estreito, no Maranhão, colapsou sobre as águas do Rio Tocantins.

O desabamento, que durou menos de um segundo em seu vão central, arremessou veículos e pessoas para a morte, deixando uma ferida aberta que, mais de um ano depois, ainda sangra pela falta de respostas, punições e reparações adequadas às famílias das vítimas.

A tragédia, considerada uma das maiores da história recente da infraestrutura viária brasileira, resultou em um saldo devastador: 14 mortos confirmados e três pessoas que, até hoje, seguem desaparecidas nas profundezas do rio. Apenas um homem, Jairo Silva Rodrigues, de 36 anos, sobreviveu à queda, sendo resgatado com uma fratura na perna. As novas imagens, capturadas por câmeras instaladas em caminhões que trafegavam pela via no momento do acidente, mostram a brutalidade com que a estrutura cedeu, arrastando consigo três motocicletas, um carro de passeio, dois caminhões e uma caminhonete.

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As vítimas de uma tragédia anunciada

O colapso da ponte não escolheu suas vítimas. Entre os mortos estavam trabalhadores, famílias em viagem de fim de ano e figuras públicas. A dor da perda atingiu em cheio diversas comunidades, especialmente no Pará, Maranhão e Tocantins.

A lista de vítimas fatais identificadas inclui Lorena Rodrigues Ribeiro, de 25 anos; a menina Lorrane Cidronio de Jesus, de apenas 11 anos; Kecio Francisco Santos Lopes; a caminhoneira Andreia Maria de Sousa, de 45 anos, que transportava uma carga de ácido sulfúrico; o caminhoneiro Beroaldo dos Santos, de 56 anos; Cássia de Sousa Tavares, de 34 anos; a pequena Cecília Tavares Rodrigues, de 3 anos; Anísio Padilha Soares, de 43 anos; e Silvana dos Santos Rocha Soares, de 53 anos.

A tragédia também vitimou o vereador Ailson Gomes Carneiro (PSD), de 57 anos, do município de Novo Repartimento, no sudeste do Pará. Ele viajava acompanhado de sua esposa, Elizangela Santos das Chagas, de 50 anos. O casal, que havia oficializado o casamento apenas dois dias antes do acidente, estava a caminho de Palmas para passar as festas de fim de ano com a família. Seus corpos foram resgatados por mergulhadores a cerca de 35 metros de profundidade, presos às ferragens da caminhonete em que viajavam.

Apesar dos esforços das equipes de busca, que se estenderam por semanas, três pessoas continuam desaparecidas: Alessandra do Socorro Ribeiro, de 50 anos; Salmon Alves Santos, de 65 anos; e o menino Felipe Giuvannucci Ribeiro, de 10 anos. Para essas famílias, o luto é agravado pela impossibilidade de uma despedida digna.

Omissão, negligência e a busca por justiça

O que as novas imagens mostram como um evento súbito foi, na verdade, o desfecho de anos de negligência. Um laudo minucioso elaborado pela Polícia Federal, divulgado em julho de 2025, foi categórico ao apontar que a queda da ponte foi resultado direto da omissão do poder público. A perícia, que durou mais de sete meses e utilizou tecnologias avançadas como drones e escaneamento 3D, concluiu que a estrutura, construída na década de 1960, ruiu devido à falta de manutenção adequada, reformas mal executadas e negligência generalizada.

Documentos revelaram que o próprio Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) já possuía, desde 2020, um relatório apontando 19 tipos diferentes de danos estruturais na Ponte JK. Apesar dos alertas claros sobre o risco iminente, as medidas corretivas necessárias não foram tomadas a tempo de evitar a catástrofe.

Contudo, mesmo com as conclusões contundentes da Polícia Federal, a impunidade impera. Até o presente momento, nenhum agente público ou gestor foi criminalmente responsabilizado pela tragédia. As investigações continuam, mas o ritmo da justiça contrasta dolorosamente com a urgência das famílias por respostas.

No âmbito cível, a situação não é menos angustiante. As famílias das vítimas e os sobreviventes ainda aguardam o pagamento de indenizações. Ações judiciais foram movidas contra a União, buscando reparações que estimam o pagamento de R$ 500 mil por pessoa física afetada, a título de danos morais, e R$ 1 milhão por estabelecimento comercial prejudicado pela interrupção do tráfego. O DNIT informou que as demandas relacionadas a indenizações estão sendo tratadas judicialmente, mas a burocracia estatal tem prolongado o sofrimento daqueles que perderam seus entes queridos ou seus meios de subsistência.

A nova ponte

Exatamente um ano após a tragédia, em 22 de dezembro de 2025, os governos federal e estadual inauguraram a nova Ponte Juscelino Kubitschek. A cerimônia contou com a presença do governador do Tocantins, Wanderlei Barbosa, e do ministro dos Transportes, Renan Filho. Construída em tempo recorde de oito meses, com um investimento de R$ 171,97 milhões, a nova estrutura possui 630 metros de comprimento — superando a anterior em extensão, tecnologia e segurança — e se destaca por um vão central de 154 metros.

A entrega da obra restabeleceu a vital conexão logística e econômica entre o Tocantins e o Maranhão, substituindo a precária travessia por balsas que operou durante o ano em que a rodovia BR-226 esteve interrompida. Para as autoridades, a nova ponte foi apresentada como um “símbolo de superação e integração”.

Por respostas

No entanto, para as famílias das vítimas e para a sociedade que acompanhou o desenrolar dos fatos, a nova estrutura de concreto e aço não é capaz de soterrar a memória dos 14 mortos e dos três desaparecidos. Como bem resumiu o único sobrevivente, Jairo Rodrigues, em um relato emocionado nas redes sociais, a reabertura da ponte representa apenas a reconstrução da estrutura física, enquanto o sofrimento das famílias permanece ignorado pelas autoridades.

As novas imagens do desabamento, que agora circulam pelo país, servem como um lembrete brutal de que a infraestrutura do Brasil não pode ser tratada com descaso. A Ponte JK caiu não apenas pela força da gravidade, mas pelo peso da negligência estatal. Enquanto as indenizações não forem pagas e os responsáveis não forem punidos, a verdadeira reconstrução — a da justiça e da dignidade — continuará pendente.