Correio de Carajás

A psicóloga que escuta para fazer Justiça em Marabá

Brenda Silva Guimarães explica como funciona o atendimento da Fundação Parápaz e reforça: o acolhimento é gratuito, integrado à rede de proteção e voltado a quem precisa denunciar ou romper o ciclo de violência em Marabá.

Jovem mulher sorrindo em camisa polo azul da Fundação Para Paz, com cabelo ondulado e brinco dourado.
Brenda Guimarães: ““A violência contra a mulher é um fenômeno social. Não é apenas uma questão individual”/ Foto: Evangelista Rocha
Por: Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 09/03/2026 10h23

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o trabalho de uma psicóloga ganha destaque em Marabá. Na Fundação Parápaz, Brenda Silva Guimarães dedica seus dias a atender aqueles que precisam de acolhimento diante de situações de violência. Seu papel, além de escuta e orientação, é fazer a ponte das vítimas com a Justiça, garantindo que os direitos dessas pessoas sejam respeitados na prática.

Formada pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), desde abril de 2025 Brenda constrói sua trajetória no Parápaz, tendo iniciado como estagiária. O contato com contextos de vulnerabilidade durante a graduação influenciou a escolha profissional.

Na universidade pública teve acesso a realidades que talvez não conhecesse de outra forma. Quando estagiou no Parápaz, se encantou com o serviço e com a proposta de reduzir o sofrimento de quem já chega fragilizado. Nesse ecossistema, Brenda compreende a Psicologia como ferramenta de transformação social inserida no sistema de justiça.

Leia mais:

“A violência contra a mulher é um fenômeno social. Não é apenas uma questão individual. Quando garantimos que essas mulheres conheçam seus direitos, desenvolvam autonomia e autoestima, estamos contribuindo para mudanças que ultrapassam o atendimento individual”.

 

Mulher que escuta e acolhe

No cotidiano da Fundação, Brenda recebe principalmente demandas da população mais vulnerável: crianças e adolescentes atingidas direta ou indiretamente pela violência dentro e fora do contexto doméstico. E antes de terem contato com qualquer outro profissional, incluindo a autoridade policial, crianças e adolescentes passam pela escuta especializada de Brenda. O objetivo é preservar a vítima e reduzir a exposição a ambientes potencialmente intimidadores.

“É um relato conduzido de forma adequada à idade, mais lúdica, para que a criança consiga falar com segurança. A ideia é evitar que ela passe por um processo ainda mais traumático”, explica a psicóloga.

Nessa longa rotina de atendimentos, o que chama a atenção de Brenda é o número alarmante de vítimas de violência sexual. Quem corrobora com essa percepção é a Secretaria de Segurança Pública do Pará.

Dados do órgão indicam que, em janeiro e nos cinco primeiros dias de fevereiro de 2026, seis casos de estupro de vulnerável foram registrados em Marabá. Em apenas um deles a vítima é um menino. Ao longo de 2025, foram 125 vítimas, entre elas 13 meninos.

Para Brenda, os números oficiais além de revelarem a gravidade, escondem outro problema: a subnotificação em ocorrências dessa natureza. Ao comparar a quantidade de casos de violência sexual que chegam ao Parápaz, ela destaca, com preocupação, que o número de meninas é expressivamente maior.

Os meninos atendidos pelo serviço, segundo ela, costumam ser vítimas de agressões físicas, registradas tanto no ambiente escolar quanto dentro da própria casa. Mas isso não significa que eles não sofram abuso sexual.

“O que acontece é que existe uma cultura de silenciamento, principalmente quando a vítima é do sexo masculino. Por isso muitos casos não chegam ao serviço”, afirma a psicóloga.

Essa subnotificação está enraizada na combinação de estigmas sociais, como as normas de masculinidade tóxica, o medo e a falta de reconhecimento do abuso como tal. Estima-se que apenas uma pequena porcentagem desses casos chega ao conhecimento das autoridades.

Superar essa cultura de silenciamento é o grande desafio diário de quem atua na linha de frente. Por isso, a escuta qualificada de Brenda garante que essas crianças e adolescentes – independentemente do gênero – sejam acolhidas e protegidas pelo sistema de Justiça.

Para proporcionar um espaço seguro para que as pequenas vítimas falem, Brenda precisa cuidar de si. Afinal, ouvir relatos de violência diariamente é uma rotina que resulta em um desgaste emocional à ela e a toda a equipe técnica da Fundação. Por isso, essa vivência exige preparo e mecanismos de autocuidado.

 

“Não só eu, mas todas as pessoas que trabalham aqui. Enfermeira, assistente social, defensora. Todas precisam de equilíbrio emocional. Se não houver esse distanciamento profissional, a gente se torna apenas mais alguém abalada e não consegue ajudar”, reflete.

Dentro das paredes do Parápaz, para lidar com o impacto das histórias que passam por ali, a equipe mantém espaços de troca e acolhimento interno. Dividem alegrias, tristezas e angústias. Não obstante, Brenda também faz acompanhamento terapêutico pessoal. Essas estratégias são fundamentais para sustentar o trabalho.

E, para além dos atendimentos às crianças e adolescentes, Brenda também escuta mulheres, ainda que em menor escala.

Na ânsia de proporcionar maior amparo às vítimas adultas, a psicóloga coordena um grupo destinado àquelas que já passaram pelo serviço. Os encontros ocorrem na última quinta-feira de cada mês e são complementados por um grupo WhatsApp que também serve como rede de apoio.

“Há situações em que a mulher denuncia e não recebe apoio da própria família. Quando ela entra nesse espaço, percebe que não está sozinha. É uma rede de apoio que conseguimos formar e eu tenho muito orgulho desse grupo”.

Segundo Brenda, um dos efeitos mais visíveis é a ampliação da compreensão sobre o que caracteriza violência. Muitas mulheres associam violência apenas à agressão física. No grupo, elas passam a identificar controle financeiro, humilhações, isolamento e difamação como outras formas. Quando uma reconhece isso na história da outra, há um processo de fortalecimento coletivo.

Mulher atravessada

A cada 24 horas, ao menos oito mulheres são vítimas de violência. Os dados, levantados em 2023, referem-se a oito dos nove estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança (BA, CE, MA, PA, PE, PI, RJ, SP).

Ao ouvir parte desses casos diariamente, Brenda afirma que ser mulher atravessa sua atuação e amplia sua percepção sobre as múltiplas camadas dessa realidade. Ela revela que tem amigas e parentes que já passaram por essas situações e isso a torna mais atenta a aspectos que vão além da agressão em si, como o impacto no trabalho, na renda e nas relações sociais.

Entre a expertise e sensibilidade, Brenda define o equilíbrio emocional e psicológico como condição para continuar.

“Diante da vítima, quem se coloca é a profissional. A empatia está presente, mas é preciso agir com responsabilidade. A violência não termina quando o atendimento acaba. Ela é uma realidade social que nos acompanha”.

Nesse contexto, a Fundação Parápaz funciona de forma articulada com a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) e com a Delegacia Especializada no Atendimento à Criança e ao Adolescente (Deaca). A estrutura foi pensada para evitar que a vítima precise percorrer diferentes órgãos em busca de atendimento, reduzindo deslocamentos e repetição de relatos.

“No caso das mulheres, elas chegam espontaneamente ou encaminhadas. Quando chegam, recebem amparo. Vêm com sentimentos ambíguos, querem denunciar, mas ao mesmo tempo hesitam. É uma virada de chave muito grande”, explica Brenda.

O fluxo começa pelo acolhimento psicológico. A partir daí, quando há decisão pela denúncia, a mulher é encaminhada à Deam, que funciona no andar superior do mesmo prédio. Para Brenda, o atendimento precisa considerar não apenas a violência em si, mas também seus desdobramentos práticos.

 

“Nosso papel é receber, ouvir, respeitar dentro do sistema e garantir direitos. Muitas vezes ela tem direito a um benefício e não sabe. Orientamos e auxiliamos na parte burocrática para que consiga, de fato, sair daquela situação (de violência)”.

Como Brenda observa, romper com a violência é um processo que exige mais do que coragem individual. Ao integrar acolhimento psicológico, orientação jurídica e encaminhamento imediato para a denúncia, a Fundação Parápaz e as mulheres que lá trabalham buscam reduzir barreiras e transformar o primeiro pedido de ajuda em um passo concreto de proteção.

Em um cenário em que a violência se repete diariamente, o desafio é garantir que cada mulher que atravessa aquela porta encontre não apenas escuta, mas condições reais de reconstruir a própria vida.