Correio de Carajás

O dia em que corrigi um texto e não consegui corrigir a dor

Entrei na sala com a certeza de quem traz um projeto bonito no nome e no papel. Escola das Adolescências, do Ministério da Educação, com aval da Secretaria Municipal de Educação de Marabá. Só isso já dava um certo orgulho: parecia a cidade inteira dizendo “vai, professor, abre essa porta”. Eu abri. Mas não sabia que, do outro lado, havia gente com a vida inteira segurada por um fio. E que esse fio, muitas vezes, passa pelo caderno.

A proposta era simples, quase ingênua: um Clube de Biografias e Autobiografias. Eu queria que eles escrevessem sobre si, como quem aprende a usar as palavras para organizar o mundo. Fizemos leitura de trechos, conversamos sobre memórias, sobre o que se escolhe contar e o que se esconde. Falei de começo, meio e fim, de narrador, de tempo verbal, de coerência, de “não repita tanto”, de “explique melhor isso aqui”. Coisas de Língua Portuguesa: esse métier que parece técnico, mas que, de vez em quando, vira bisturi.

A surpresa veio quando os textos começaram a chegar com cheiro de verdade. Verdade crua. Sem filtro. A autobiografia, que eu imaginei como exercício, virou confessionário. E o mais desconcertante: eles escreviam como se ninguém fosse ler, ou como se finalmente alguém fosse ler de verdade. Quando comecei a revisar os textos, um por um, com o autor sentado ao meu lado, aconteceu o que não está em nenhuma rubrica do MEC: o choro. Não um choro discreto, de canto de olho. Um choro inteiro, de ombros caindo, de voz sumindo, de mão tremendo sobre o lápis. De pedir para ir ao banheiro duas vezes.

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Eu, que sempre pedi “caprichem no rascunho”, passei a pedir “respira”. Eu, que costumava corrigir com caneta e marca-texto, comecei a corrigir com silêncio. A sala ficou diferente: não era mais só a turma do 9º ano. Era um pequeno mapa de ausências.

Porque há um dado que não aparece no boletim, mas aparece na linha: muitos dos meus meninos e meninas vivem em famílias monoparentais: falta um dos pais, pelo menos. E um número já expressivo é criado por avós, sem vínculo direito com seus genitores. Eles não escrevem “família desestruturada”. Eles escrevem “minha avó que me cria”. Eles não dizem “abandono”. Dizem “sumiu”. Não dizem “negligência”. Dizem “nunca teve tempo”. A gramática deles é essa: a vida antes da norma.

E foi nesse clima, entre parágrafos e pausas, que um menino me entregou a autobiografia como quem entrega uma caixa pesada. Sentei com ele, lado a lado. Abri o texto. Nas primeiras linhas, ele já avisava, sem saber que avisava: “eu queria que as coisas fossem diferentes”. A mãe dele morreu de câncer há nove meses. Nove meses: tempo de gestação. Só que, no corpo dele, era o contrário: era o tempo de parir um vazio.

O texto narrava a saudade como se fosse um lugar físico: ele sentia falta da mãe no almoço, na volta da escola, no cheiro da casa, no som do nome dele quando ela chamava. Depois da morte, veio o segundo golpe: foi obrigado a morar com um pai que ele não conhecia. “Pai” ali não era abraço; era endereço. Ele escreveu que desenvolveu depressão. Não escreveu para “chocar”. Escreveu porque era o nome que encontrou para o que estava sentindo. E escreveu que busca nos desenhos – e até num livro que está escrevendo – o refúgio para continuar vivendo.

Quando cheguei nessa parte, ele já chorava. Chorou por 35 minutos. Eu sei porque o relógio no meu pulso, que sempre serviu para controlar a aula, naquele dia serviu para medir a dor. Tentei falar de estrutura do texto, de coerência, de pontuação. Tentei ser professor. Mas, naquele momento, o professor era o que menos importava. Ele aprofundava a história enquanto chorava, como se cada lágrima abrisse mais uma porta que estava emperrada há meses.

Ele passa boa parte da aula desenhando. Antes, eu teria dito “guarde isso, agora é hora de escrever”. Hoje eu prefiro não repreendê-lo. Não é desleixo: é sobrevivência. O desenho é o lugar onde ele ainda consegue respirar sem pedir licença. E eu aprendi, tarde, mas aprendi, que às vezes a disciplina precisa recuar para a humanidade avançar.

A menina que inspirou esta crônica, minha aluna de Língua Portuguesa, de olhar atento e silêncio comprido, também me mostrou isso sem me dizer. Ela escreveu pouco, mas escreveu fundo. E quando eu sentei ao lado dela para revisar, vi que as palavras dela eram como água: não fazem barulho, mas atravessam pedra. Saí daquela mesa com a sensação de que eu tinha mexido num armário de memórias que muita gente passa a vida trancando.

Confesso: houve um instante em que me arrependi de trabalhar essa temática. Não por covardia, mas por susto. Eu não estava pronto para o volume de verdade que cabe num caderno de 96 folhas. Eu não estava pronto para o choro como nota de rodapé. Eu não estava pronto para perceber que, para muitos, escrever “eu” é tocar numa ferida sem curativo.

Mas a função social do professor também é essa: oferecer linguagem para o que dói, porque o que não vira palavra vira peso. E, apesar do arrependimento momentâneo, eu sei que esse clube, esse projeto, pode ser uma espécie de ponte. Não uma ponte de concreto, dessas que Marabá conhece bem. Uma ponte frágil, de papel, que liga um aluno a si mesmo.

No fim do ano, esses textos estarão num livro. Um livro de adolescentes, com biografias e autobiografias, com histórias que ninguém adivinha olhando de longe. O lançamento está previsto para o início de novembro. E eu já consigo me ver naquela noite: segurando um exemplar com cuidado, como se fosse uma coisa viva. Talvez eu olhe para a capa e lembre do choro de 35 minutos. Talvez eu lembre do menino desenhando, do lápis como boia. Talvez eu lembre da menina do olhar atento, da água atravessando pedra. E eu vou entender, com um nó bom na garganta, que a escola também é isso: um lugar onde a gente aprende português e, às vezes, aprende a continuar.

 

 

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.