A primeira vez que o doutor Anselmo Laranjeira abriu o notebook para voltar a advogar, teve a sensação de que a máquina reconheceu o dono e desconfiou dele. A ventoinha acelerou, a tela demorou, e o sistema pediu senha com a frieza de quem não guarda afetos. Anselmo voltou. Dez anos atrás, quando trocou o Direito pelo serviço público, fechou o escritório na Cidade Nova com a paz de quem buscava estabilidade.
Na repartição, foi útil e importante. Participou de projetos regionais, reuniões que atravessavam Prefeitura com siglas, metas e relatórios. Aprendeu a língua da burocracia, esse idioma que gosta de gerúndio e de “encaminhar para as providências cabíveis”. Só que, enquanto assinava memorandos, a advocacia ia ficando num canto, como pasta antiga guardada para não dar mofo.
Quando ele saiu do fórum pela última vez como advogado, o processo eletrônico ainda engatinhava. Falhava, dependia de internet e de paciência. Não era obrigatório. Havia o papel, aquele papel que fazia barulho e dava peso ao argumento. Hoje, o processo eletrônico virou dono da casa. Tem certificado, plataforma, atualização sem aviso e botão que some quando mais se precisa dele.
Leia mais:Anselmo, que sempre se orgulhou de escrever bem, descobriu que agora precisa, antes do primeiro argumento, vencer a muralha do login. Ele olha para a tela com vergonha e teimosia, como uma criança que aprende a andar e não entende por que o chão insiste em se mover. A diferença é que, no lugar de alguém segurando a mão, há uma mensagem dizendo: “certificado inválido”. Ele respira, bebe água, pensa em desistir e volta, porque há coisas que só entram na cabeça quando a gente aceita tropeçar.
E o orgulho, em Marabá, costuma ser parente da sobrevivência. Anselmo fez o que jurou que nunca faria: pediu ajuda aos mais jovens. Tem um estagiário, o Ícaro, que conversa com o sistema como quem fala com o vizinho no portão. Ícaro não digita, ele desliza. Anselmo observa e tenta copiar, mas a mão pesa, a memória falha e o corpo cobra o pedágio de dez anos longe do balcão do fórum. Em dias bons, ele consegue protocolar uma peça inteira e vai dormir com a alegria de quem soltou a bicicleta sem rodinhas.
Como se não bastasse, veio a novidade que é também necessidade: Inteligência Artificial no Direito. Anselmo ouviu histórias de textos com cara de máquina e juízes que percebem, numa frase, quando alguém terceirizou a própria voz. Ele até admira a ferramenta, porque prazo não tem compaixão, mas sabe que existe limite. Há ética, há responsabilidade, há o risco de uma citação errada virar verdade só porque veio embrulhada num português elegante. E há o compromisso de não entregar uma petição sem alma.
Então ele estuda. Anota, reescreve, confere fonte, aprende a usar a IA como apoio e não como muleta. Corta trechos com marca de ChatGPT, Gemini e até mesmo do Jurídico AI. E devolve o texto ao próprio sotaque, com as manias que fazem o leitor sentir que existe gente atrás das linhas. Para arejar a cabeça, caminha na Orla Sebastião Miranda, olha o Tocantins correndo como se nada soubesse de prazos, e ri sozinho pensando que o rio nunca precisou de certificado digital.
Na última segunda-feira, uma tarde quente de fevereiro, Anselmo protocolou uma petição simples. A tela confirmou o envio, o recibo apareceu, e ele sentiu vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Levantou, ajeitou a camisa e, antes de fechar tudo, viu uma notificação inesperada: convite para uma palestra na universidade. Pediam que ele falasse aos alunos sobre reinício de carreira e tecnologia no Direito.
Anselmo ficou imóvel, como se o sistema tivesse validado não só o certificado, mas a vida inteira. Respondeu que sim. À noite, em vez de treinar senha e botão, abriu um arquivo em branco e começou a preparar a aula. A surpresa veio no título do primeiro slide, escrito devagar, com cuidado: “Como reaprender sem se esconder”. E assinou embaixo não como doutor, nem como servidor, mas como estagiário de si mesmo.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
