Correio de Carajás

O peso das parcelas e a leveza do que realmente importa

No começo eu achava que Marabá era uma cidade que não sabia parar, apenas mudava de cenário. Quando não era a pressa atravessando a Transamazônica com a cara de quem está atrasado para a própria vida, era a fila no banco, o corre de resolver tudo antes do sol desabar no Itacaiunas, o celular tremendo no bolso como se fosse um coração de plástico. A gente aprende cedo a chamar de necessidade aquilo que, na verdade, é hábito com maquiagem.

Numa dessas tardes em que o calor cola a camisa nas costas e até o pensamento soa, fui parar no Partage Shopping Marabá com um objetivo tão nobre quanto suspeito: “só dar uma olhadinha”. Essa frase tem o mesmo poder de uma promessa dita no escuro. Você entra para olhar e sai com sacola, com parcela, com justificativa, com a sensação de ter vencido alguma batalha, mesmo sem saber qual era o inimigo. O ar-condicionado vira uma espécie de absolvição, e as vitrines fazem o papel do padre: você confessa seus vazios e elas oferecem penitências em doze vezes sem juros.

Lá dentro encontrei o seu Damião, figura conhecida de quem circula pela Cidade. Ele estava com um tênis na mão, desses modernos, com sola que parece ter sido desenhada por engenheiro e poeta ao mesmo tempo. Girava o calçado como se fosse um objeto sagrado e, ao me ver, abriu um sorriso de quem acabou de achar um motivo respeitável para estar ali.

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Disse que precisava do tênis porque a vida agora era saúde, caminhada, disciplina, essas palavras que a gente coleciona quando quer recomeçar sem admitir que cansou. Só que, quando perguntei se ele tinha voltado a caminhar na orla, ele desviou o olhar para a vitrine para consultar uma autoridade maior. A caminhada ainda não tinha começado, mas o tênis já era real, pesava na mão e no orçamento, e isso parecia bastar. Era como se comprar fosse um ensaio de virtude, um atalho psicológico para a versão melhor de nós mesmos.

Ali no Partage, entre uma loja e outra, vi também a Lúcia, mãe de três, da Folha 28, que eu conheço de vista e de cidade. Ela estava com o celular na mão, comparando preços com a precisão de quem sabe que cada real tem uma história. No rosto, aquela expressão de cálculo que não é apenas matemática, é sobrevivência. Ela me contou que queria comprar um vestido, mas estava tentando negociar com ela mesma. Usou exatamente essa palavra: negociar. E eu gostei porque, no fundo, é isso que a vida pede da gente quando a tentação se fantasia de recompensa.

Negociar com a gente mesmo deveria ser matéria obrigatória, dessas que não reprovam ninguém, mas salvam muita gente. Uma hora de alegria verdadeira em troca de um objeto que logo perde o brilho. Uma tarde de amor e conversa, na varanda ou na cozinha, em lugar de uma prestação que aperta o peito todo mês. Um fim de semana sem planilha, sem meta, sem a culpa de não estar produzindo, porque o coração também precisa de folga para continuar batendo com dignidade. Parece simples quando a gente escreve, mas é difícil quando o mundo inteiro nos treina para confundir desejo com destino.

Eu mesmo, que nunca fui modelo de nada, graças a Deus e aos meus limites, fui aprendendo a fazer faxina nos armários da alma e também nos armários de verdade. Um dia percebi que eu tinha roupas demais para uma vida que pedia menos. Tinha compromissos demais para uma cabeça que queria silêncio. Tinha urgências demais para um corpo que já dava sinais de que não nasceu para ser máquina. E, aos poucos, fui gostando mais do meu jeans, camiseta e tênis não por virtude, mas por alívio. Quanto menos eu precisava impressionar, mais eu conseguia respirar, e respirar, em Marabá, às vezes é um ato de resistência, sobretudo quando o calor e a pressa se juntam para nos empurrar.

Quando saí do Partage, o choque do calor foi quase um sermão. O estacionamento parecia uma chapa quente, e eu me vi rindo sozinho porque a cidade faz isso com a gente, ela nos devolve à realidade com o estalo de um sol que não negocia. No caminho, pensei no seu Damião e no tênis, na Lúcia e no vestido, em mim e nas sacolas invisíveis que a gente carrega por dentro. E fiquei com vontade de dizer, para quem eu encontrasse, que cada um examine o baú das próprias prioridades, com calma e sem autopunição.

Que seja para aliviar a vida, o coração e o pensamento, e não para inventar de acumular ali mais alguns compromissos estéreis e mortais. Porque, no fim, o que vale mesmo não cabe em vitrine nenhuma, e a melhor compra que a gente faz, quando aprende, é tempo devolvido para quem a gente ama e para a pessoa que a gente precisa ser.

 

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.