Correio de Carajás

Damião, o cabeleireiro motorizado da Cidade Nova

Na Cidade Nova, onde a vida acontece com pressa de buzina e cheiro de pão quente atravessando a rua, existe um tipo de devoção que não cabe em igreja nenhuma, mas cabe certinho na garagem. E ali, como se fosse um santo de capô brilhando sob a lâmpada, repousa o carro de Damião, cabeleireiro conhecido por duas coisas: cortar cabelo como quem conta segredo e dirigir como quem cumpre promessa.

Damião mora a duzentos metros da padaria. Duzentos. Dá para ir e voltar antes do café esfriar, dá para ir de chinelo, dá para ir descalço, se for um dia de bravura. Mas Damião não vai. Damião desce, liga, engata e sai. Já vi, com meus olhos de pedestre pecador, a cena dele estacionando em frente à padaria com a solenidade de quem encosta uma aeronave. E não é só isso. A academia e a natação no Sesi ficam a cento e cinquenta metros da casa dele. Cento e cinquenta. A distância de um bocejo. Mesmo assim, ele tira o carro da garagem como se estivesse atravessando a Transamazônica num dia de chuva e buraco.

Um homem desses não nasce assim. Ele se fabrica, aos poucos, no medo, no hábito e numa coleção de histórias que ele jura que são evidências científicas. Damião tem motivos. Tem vários. O primeiro é um trauma antigo com o sol de Marabá, esse calor que não faz sombra, faz opinião. Damião diz que o sol aqui não bronzeia, ele negocia. Encosta no ombro do cidadão e pergunta quanto ele quer pagar para continuar vivo. Ele explica que, se for a pé, chega na padaria já com o cabelo do cliente imaginário grudado na testa, suando como se tivesse acabado de fazer escova em leão.

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O segundo motivo atende pelo nome de dois filhos. Ele os chama de seus fiscais de drama. Se Damião ousar atravessar a rua a pé, os meninos criam um roteiro completo, com direito a trilha sonora e entrevista ao vivo. “Pai, e se aparecer um cachorro?” “Pai, e se te confundirem com alguém?”

O terceiro motivo é o mais sério, porque ele fala com a alma do cabeleireiro. Damião acredita que o carro é uma extensão do salão. Dentro dele há espelho no para-sol, pente no porta-luvas, pomada no console e um frasco de perfume que ele usa antes de descer para comprar pão, como se o padeiro fosse um cliente VIP esperando um corte degradê no balcão. Ele tem a mania de ajustar o retrovisor como quem alinha franja.

E há a história do relacionamento. No início dos anos 2000, quando a Orla era o grande palco das paqueras e das promessas, Damião conheceu a mulher que hoje é sua esposa. Ela trabalhava perto do centro e ria do jeito dele falar, como se cada frase fosse um anúncio de rádio. Damião, já naquela época, era incapaz de aceitar o destino da caminhada. Ele levava a moça para a Orla de táxi. E não era por riqueza, não. Era por cerimônia.

Ele dizia que caminhar até a Orla, mesmo que fosse perto, “gastava o encanto”. Que o romance não podia começar com suor na sobrancelha e poeira no sapato. Então chamava um táxi como quem chama cupido motorizado. O motorista já conhecia o roteiro: sair da Cidade Nova, rodar bonito, passar onde desse para mostrar luz e movimento, e parar com dignidade, como se o casal estivesse chegando a um evento internacional. Às vezes, o táxi rodava mais do que precisava, porque Damião pedia: “Dá uma voltinha, chefe, só para o vento ajudar”. O vento não ajudava. Mas a ideia ajudava.

A esposa conta que, no primeiro mês, achou charmoso. No segundo, começou a desconfiar. No terceiro, entendeu: Damião não queria apenas chegar, ele queria chegar com contexto. Para ele, deslocamento é narrativa porque a pé não tem enredo.

O carro, para ele, é uma cápsula de controle num mundo onde o cabelo insiste em crescer, o calor insiste em ferver e os filhos insistem em inventar perigos. No carro, ele decide a música, a temperatura e o ângulo do próprio destino.

No fim, a Cidade Nova tem seus fiéis, seus apressados, seus pedestres e seus devotos de quatro rodas. Damião é um deles, com sua fé silenciosa em combustível e ar-condicionado. Ele não abre mão do carro nem para atravessar duzentos metros, porque, no fundo, ele acha que a vida é curta demais para ser enfrentada a pé. E, se for para enfrentar, que seja com vidro fechado, som ligado e o pão chegando ao banco do passageiro como uma vitória particular.

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.