Correio de Carajás

1º de Abril: uma ‘mentirinha’ inocente que pode virar um grande problema

Luiz Oliveira, diretor do Ciop, diz que trotes têm diminuido nos últimos anos, e que governo fará campanha educativa. (Foto: Ricardo Amanajás/Diário do Pará)
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Em outros tempos, o 1º de Abril, Dia da Mentira, era reservado para “pregar” boatos. A data era aguardada porque, de certa forma, era liberada para mentir. Mas em tempos de redes sociais, a difusão de mentiras ultrapassou a data da brincadeira. Agora basta um clique ou um toque na tela do celular para transformar um boato em uma verdade absoluta, que pode trazer consequências inimagináveis.

É o que diz o professor Mário Camarão, doutor em Comunicação e Cyber Cultura pela Universidade do Minho, de Portugal e Paris-Sorbonne. Ele explica que “Fake News” em tradução literal significa notícia falsa. O uso corrente que essas palavras têm tido atualmente não é, porém, uma relação direta entre notícia falsa e mentira. Ele ressalta, inclusive, que hoje se vive sob o domínio do “pós-verdade”, isto é, um momento em que notícias falsas são difundidas importando muito mais as crenças que a veracidade dos fatos em si.

“A chamada Fake News é uma mentira bem elaborada, uma grande tentativa de falsear informações. Isso sempre existiu. A questão é que com a internet, acabou ganhando força, porque ela passou a ser criada para realmente parecer verdade e está muito relacionada a essa questão de gerar credibilidade no outro”, avalia. “Uma prova disso são os sites falsos que são idênticos aos verdadeiros”, completa.

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Ele apresenta ainda uma outra modalidade de mentira, advinda com a internet, o chamado hoax, termo usado para designar boatos que se espalham pela Rede Mundial de Computadores e que alcançam um número elevado de pessoas. “Sabe aquelas informações que chegam, por exemplo, de que o mundo vai acabar em tal dia? A maioria das pessoas sabe que aquilo é mentira, mas acaba divulgando do mesmo jeito. Isso é um hoax”, detalha.

NARRATIVAS

A psicóloga Flávia Vieira afirma que a mentira faz parte da vida das pessoas e, até certa medida, é aceitável. O problema, de acordo com ela, é quando essas mentiras passam a ser compulsivas. “Isso ocorre quando predomina a intenção de mentir para obter vantagem ou como algo rotineiro”, explica.

A psicóloga chama atenção, no entanto, que nem sempre é possível identificar tão facilmente o limiar entre a mentira social da compulsiva. “Normalmente é possível perceber que algo não vai bem quando a pessoa começa a ter prejuízos sociais, financeiros e em suas relações ou mesmo acaba se envolvendo em danos morais”, comenta. 

Quando isso ocorre, é possível que a mentira esteja relacionada a alguns transtornos, como de ansiedade, bipolaridade, Síndrome de Borderline e a psicopatia.

Quando se fala em crianças e adolescentes, no entanto, a psicóloga alerta que os pais devem ficar atentos. “Durante a fase da infância é comum fantasiar a realidade, criar situações que não existem, enquanto que na adolescência essa mentira pode ser resultado de uma relação familiar difícil, que envolve dificuldade de aceitação e criar histórias acaba sendo uma forma de se desviar dessa realidade”.

Quando isso acontecer, a psicóloga acredita ser necessário tentar estabelecer uma relação de confiança com a criança ou com adolescente para que se sintam confortáveis para falar a verdade. “É importante que se sintam acolhidas para falar o que estão sentindo realmente”, diz a psicóloga.

Campanha irá alertar contra trotes

Outra prova de que a mentira pode ter consequências sérias é o número de trotes registrados por mês pelo Centro Integrado de Operações (Ciop), no Pará. São uma média de 12 mil trotes comunicados por mês, ou 400 ligações falsas por dia. Apesar dos altos índices, o diretor do Ciop, coronel da Polícia Militar, Luiz Rayol de Oliveira, garante que nos últimos cinco anos, os números vêm caindo. Em 2017, foram 18% de ligações a menos e em 2018, 11%. 

“Ainda não estamos satisfeitos, porque os prejuízos são muitos, especialmente quando deixamos de atender uma chamada real para atender a um trote”, afirma o diretor. Para combater as falsas chamadas, o Centro tem investido em ações educativas. Uma delas é o Amigos do Ciop. Criado na gestão atual e já em fase de acabamento, o projeto se destina a conscientizar o público escolar sobre os riscos e consequências de fazer falso comunicado ao número 190.

A ideia, segundo ele, é levar o projeto para as escolas públicas dos bairros identificados pelo governador como prioridade no combate à violência. Ele ressalta ainda que o trote é considerado crime previsto no Código Penal. “Temos o Artigo 240 que prevê detenção de um a seis meses para quem promover comunicação de falso crime e o Artigo 266 que prevê a detenção de até três anos ou multa para quem interromper ou perturbar o serviço telefônico”, cita.

(Diário do Pará)

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