Correio de Carajás

Visto como aliado, antioxidante pode favorecer crescimento de tumores

Pesquisa publicada na Nature mostra que a glutationa, geralmente benéfica, pode ser "quebrada" por enzimas para nutrir o crescimento de células cancerígenas.

Célula microscópica com projeções espetadas em vermelho e azul.
Foto: freepik
✏️ Atualizado em 02/04/2026 08h54

Uma substância conhecida por proteger as células do corpo pode, na prática, estar sendo usada por tumores como fonte de alimento.

É o que mostra um estudo publicado na revista científica Nature e liderado por pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, com participação do cientista brasileiro Fabio Hecht.

A pesquisa identificou que a glutationa (um antioxidante produzido naturalmente pelo organismo) pode ser “quebrada” no ambiente do tumor para alimentar seu crescimento.

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“Existe essa concepção de que antioxidantes sempre fazem bem, previnem doenças, inclusive câncer. Mas os dados não mostram isso. Em alguns casos, eles podem até atrapalhar”, explica Hecht.

O que exatamente os cientistas descobriram

 

Para entender a descoberta, dá para imaginar o tumor como uma estrutura que precisa de combustível constante para crescer. E esse combustível pode vir de lugares inesperados.

A glutationa, por exemplo, sempre foi estudada pelo seu papel protetor: ela ajuda a neutralizar os chamados radicais livres, moléculas associadas a danos celulares.

Mas o novo estudo mostra que, dentro do ambiente do tumor, ela pode ter outra função.

Os pesquisadores descobriram que uma enzima do próprio corpo, presente nesse ambiente, “quebra” a glutationa em partes menores —e o câncer aproveita esse material como fonte de energia.

“Quando essa molécula é quebrada, ela libera aminoácidos. E um desses aminoácidos vai direto para o metabolismo do tumor, o ajudando a crescer”, diz Hecht.

 

Uma peça-chave chamada cisteína

 

Entre os componentes liberados nessa “quebra”, um se mostrou essencial: a cisteína.

Foi ela que, na prática, sustentou o crescimento das células tumorais.

“Testamos os três aminoácidos oriundos da glutationa e vimos que o único realmente indispensável para o tumor era a cisteína”, afirma o pesquisador.

 

A cisteína funciona como uma espécie de escudo para as células —inclusive as cancerígenas.

Segundo o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, ela ajuda a proteger o tumor contra condições adversas.

“A cisteína permite que a célula tumoral sobreviva em um ambiente hostil. Ela reduz o estresse oxidativo e funciona como uma proteção, quase uma blindagem”, explica.

 

Ou seja: além de alimentar, o processo também ajuda o tumor a se defender.

O que acontece quando esse ‘combustível’ é bloqueado

 

A partir dessa descoberta, os cientistas testaram uma estratégia simples: impedir que essa quebra da glutationa aconteça. O resultado foi direto.

“Quando usamos uma droga para bloquear esse processo, os tumores passaram a crescer muito mais lentamente”, diz Hecht.

 

Para testar essa hipótese, os cientistas usaram uma substância capaz de bloquear a enzima que “quebra” a glutationa —justamente o passo que transforma o antioxidante em combustível para o tumor.

Ao impedir esse processo, os tumores passaram a crescer mais lentamente. O resultado reforça a ideia de que interromper esse mecanismo pode limitar o avanço da doença, além de ajudar a entender melhor como o câncer se desenvolve.

O composto já existia e vinha sendo estudado em outros contextos, mas ainda não é usado como tratamento contra o câncer.

Isso pode virar tratamento? Calma

 

Apesar do potencial, os próprios pesquisadores fazem um alerta: ainda é cedo.

Os testes foram feitos em laboratório, com células tumorais, e em modelos animais (camundongos), principalmente com câncer de mama —especialmente o tipo triplo negativo, um dos mais agressivos.

Também houve indícios de que o mecanismo pode existir em outros tumores, como pulmão, pâncreas e melanoma.

Mas transformar essa descoberta em um tratamento real ainda é um caminho longo.

“Existe uma grande diferença entre um bom racional científico e um tratamento que funcione na prática”, diz Stefani. “Muitas ideias promissoras não se confirmam clinicamente.”

 

Segundo Fabio Hecht, um dos autores do estudo, o próximo passo é aprofundar o entendimento desse mecanismo e desenvolver estratégias mais específicas para bloqueá-lo.

“A gente mostrou que esse processo é importante para o crescimento do tumor. Agora, o desafio é transformar isso em uma abordagem que possa ser usada com segurança em pacientes”, afirma.

 

E os antioxidantes? Precisa se preocupar?

 

A descoberta pode levantar uma dúvida imediata: afinal, antioxidantes fazem mal? A resposta é não, mas com nuance.

O próprio estudo não avaliou o efeito de suplementos em humanos. Ou seja, não dá para dizer que tomar glutationa cause câncer ou piore a doença.

Mas os achados reforçam um ponto importante: nem tudo que é vendido como “benéfico” funciona da forma que se imagina.

“Não tem muito por que recomendar suplementação de glutationa”, afirma Hecht.

Por outro lado, isso não muda a recomendação clássica da medicina.

Uma alimentação equilibrada, rica em frutas e vegetais —que naturalmente contêm antioxidantes— continua sendo associada a benefícios para a saúde.

O que essa descoberta muda na ciência

 

Mais do que uma resposta definitiva, o estudo abre uma nova linha de investigação.

Ele mostra que o câncer pode usar mecanismos do próprio corpo (até mesmo aqueles considerados protetores) a seu favor.

Na prática, Stefani explica, isso significa uma mudança de olhar. Em vez de apenas atacar o tumor diretamente, uma das estratégias pode ser cortar o que ele usa para sobreviver.

E, nesse caso, o alvo pode estar em algo que sempre pareceu inofensivo: uma mudança de perspectiva que pode abrir novos caminhos na busca por tratamentos contra o câncer.

(Fonte:G1)