No último domingo, 2 de agosto de 2026, a escritora chilena Isabel Allende completou 84 anos. A autora já publicou mais de 20 livros. Sua primeira e mais famosa obra, A Casa dos Espíritos (1982), é um dos livros de literatura latino-americana mais lidos no mundo.
A obra é um clássico do realismo mágico da América Latina. É um dos mais importantes romances da América do Sul no século XX, no qual o mágico e o real se entrelaçam de forma perfeita e indissolúvel. O título pode levar o leitor a pensar que a narrativa é sobre fantasmas, que se trata de uma obra do gênero terror, mas não é. Os “espíritos” fazem referência ao dom de Clara, que tem premonições; ou seja, ela antecipa os acontecimentos de sua vida e da família: “Clara não adivinhava apenas os sonhos. Também via o futuro e conhecia a intenção das pessoas, virtude que manteve ao longo da vida e, com o passar do tempo, ampliou.”
O livro é uma ficção histórica, pois traz o panorama político de um país vizinho, no qual são relatados alguns dos principais acontecimentos políticos durante a ditadura chilena. Contudo, a autora não situa nem identifica o país. O leitor faz essa inferência a partir da própria identidade de Isabel Allende, que é sobrinha em segundo grau do presidente chileno Salvador Allende. O governo dele foi interrompido na década de 1970, quando foi instaurada uma violenta ditadura militar que durou de 1973 a 1990.
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A narrativa acompanha a saga da família Trueba, que tem como patriarca Esteban Trueba e como matriarca Clara Trueba. Destaco aqui o protagonismo feminino, pois Isabel constrói três mulheres extraordinárias: Clara, Blanca e Alba, que são, respectivamente, mãe, filha e neta. As personagens possuem o mesmo nome porque fazem referência à clarividência, que é comum a essas três mulheres. Mas é por meio de Clara que o dom se manifesta de modo mais acentuado.
O dom de Clara faz dela uma mulher de alma iluminada, de grande sensibilidade, em contraste com Esteban, que é um homem violento, autoritário, machista, um abusador de mulheres — ele estupra as mulheres que trabalham em sua propriedade. Não apenas Clara, mas todas as mulheres que compõem a família Trueba são extraordinárias. Elas não se curvam ao autoritarismo de Esteban nos papéis de marido, pai e avô. Sem dúvida, a matriarca é a personagem mais importante do romance.
A personagem Clara decide, aos dez anos, ficar em silêncio, tendo voltado a falar, quando tinha 19 anos: “Clara estava com 10 anos quando decidiu que não valia a pena falar e se fechou ao mutismo. (…) Todos tinham perdido a esperança de tornar a ouvir-lhe a voz, quando, no dia do seu aniversário, depois de soprar as dezenove velas de seu bolo de chocolate, estreou uma voz que tivera guardada por todo aquele tempo e que tinha ressonância de um instrumento desafinado.” Após nove anos de silêncio, a jovem anunciou seu destino: em breve se casaria com Esteban Trueba, aquele havia sido noivo de sua falecida irmã, Rosa. É a manifestação de sua clarividência.
Já Blanca, única filha do casal Trueba, tem alma revolucionária e enfrenta o pai e as convenções sociais por amor. Alba, filha de Blanca, é a voz narradora do romance. Ela é culta e politizada e acaba sofrendo perseguição durante a ditadura. A personagem representa resistência e memória. Foi por meio dos cadernos de Clara que Alba contou a história de três gerações da família Trueba. Após 50 anos, os cadernos da avó lhe permitiram resgatar o passado e lhe garantiram a sobrevivência no presente.
A obra de Allende é daquelas de muitas camadas. Podemos abordá-la por diversas perspectivas e temáticas: ditadura, história, amor, força feminina e conflitos geracionais. Temos pauta para muitas colunas. O romance, como dito anteriormente, é um clássico do realismo mágico da América Latina. A autora explora o universo maravilhoso, mesclando elementos históricos e ficcionais. Lançado em 1982, se mantém atual por suas temáticas e personagens bem construídos, sobretudo por suas figuras femininas. Como dica de leitura, deixo “A CASA DOS ESPÍRITOS”, de Isabel Allende, romance que faz o leitor se questionar: por que não li esse livro antes?!
Até a próxima, caros leitores!
* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
