Correio de Carajás

UFRA inicia 2026 com greve docente e indefinição sobre escolha para reitoria

Desde 2025 UFRA vivencia um cenário de instabilidade política
Por: Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 08/01/2026 13h16

A Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) iniciou 2026 sob intervenção administrativa, greve de docentes e indefinição quanto à realização de processo de eleição para nova reitoria. A instabilidade teve início em maio de 2025, após acusação de irregularidades no processo de escolha da gestão para o mandato de 2025 a 2029. A sede da instituição é em Belém, mas em Parauapebas há um campus da instituição e docentes e alunos sofrem as consequências dessa instabilidade.

As denúncias foram divulgadas, inicialmente, em 26 de maio e apontavam que a então reitora, Herdjania Veras, candidata à reeleição, teria se afastado do cargo apenas 17 dias antes do pleito, em 13 de maio, em desacordo com o Estatuto da universidade, que prevê afastamento mínimo de 90 dias, prazo que se encerraria em 28 de fevereiro. Também foram levantados questionamentos sobre a composição do Conselho Universitário (Consun), em razão da ausência de posse formal de membros eleitos.

Herdjania, ex-reitora, nega as irregularidades apontadas sobre sua gestão

Diante dos apontamentos, a Justiça Federal determinou, em 28 de maio, a suspensão do pleito, em decisão proferida na véspera da votação. No dia seguinte, a administração da UFRA anunciou a suspensão da eleição formal, mas manteve a realização de uma consulta pública nas mesmas datas, medida que foi interpretada pelo Judiciário como descumprimento da decisão.

Leia mais:

Ainda em 29 de maio, a Justiça Federal expediu nova ordem suspendendo integralmente qualquer atividade relacionada ao processo eleitoral, sob pena de multa de R$ 100 mil e prisão em flagrante dos gestores responsáveis. No mesmo dia, agentes da Polícia Federal foram enviados ao campus da universidade para assegurar o cumprimento da decisão. No local eles apreenderam urnas e notificaram o reitor em exercício, Jaime Viana, e o presidente da Comissão Eleitoral. Naquela noite, a UFRA publicou nota oficial informando o acatamento integral da determinação judicial.

INSTABILIDADE

Nos meses seguintes, a universidade passou a enfrentar novos episódios de instabilidade administrativa. Em 31 de agosto, relatórios internos indicaram que centenas de estudantes estavam impedidos de receber diplomas digitais em razão de pendências financeiras referentes aos anos de 2022 e 2023, que afetavam o funcionamento dos sistemas institucionais.

Em meio à crise, Janae Gonçalves foi nomeada reitora pró-tempore da UFRA, com publicação da nomeação em 1º de agosto, posse administrativa em 7 de agosto e cerimônia oficial realizada em 14 de agosto. Ela ocupou o cargo de vice-reitora da instituição entre 2017 e 2021.

Janae, reitora pró-tempore, afirma que a universidade dará continuidade ao processo eleitoral com foco na legalidade e na transparência

No mesmo período, a prefeitura universitária informou a inexistência de contratos de manutenção, o que teria resultado em falhas na rede elétrica e em sistemas de refrigeração de prédios da instituição.

O desfecho judicial ocorreu em 13 de outubro, quando a Justiça Federal determinou a realização de um novo processo eleitoral. A decisão estabeleceu que a reitora pró-tempore deveria organizar a eleição desde o início, no prazo de 10 dias, garantindo transparência e ampla participação da comunidade acadêmica para a formação da nova lista tríplice.

Contudo, o andamento do processo eleitoral aconteceu apenas em 16 de dezembro, quando a UFRA publicou um edital de chamamento público para a escolha dos membros da Comissão Eleitoral Geral. O documento estabelece que as assembleias das categorias devem ocorrer até 8 de janeiro de 2026, com prazo até 9 de janeiro para o envio das listas de representantes eleitos à Reitoria.

No mesmo dia, em vídeo divulgado no perfil oficial da UFRA no Instagram, Janae Gonçalves informou que a universidade dava continuidade à organização da consulta prévia para a escolha da nova gestão, com foco na legalidade e na transparência. Segundo ela, a Comissão de Reorganização Administrativa, instituída pela Portaria nº 1579 de 2025, identificou inconformidades na composição do Conselho Universitário, o que levou à necessidade de recomposição do órgão conforme o Estatuto da UFRA e determinações judiciais.

Ainda de acordo com a reitora pró-tempore, foi criada uma Câmara Provisória de Consultoria e Assessoramento Jurídico, composta por cinco procuradores federais, incluindo uma procuradora lotada na UFRA, vinculada à Advocacia-Geral da União. O objetivo, segundo a gestão, é garantir segurança jurídica e conformidade legal ao processo eleitoral. Janae também informou que o cronograma da universidade está alinhado com o Ministério da Educação e órgãos de controle, e que as categorias se encontram em fase final de indicação de seus representantes para o Consun.

 

GREVE E PRONUNCIAMENTOS

Já no início de 2026, no dia 5 de janeiro, a Associação dos Docentes da Universidade Federal Rural da Amazônia (Adufra-Ssind) deflagrou greve. Procurado pela reportagem do Correio de Carajás, Carlos Costas, presidente do conselho de greve, encaminhou nota na qual afirma que a paralisação é um instrumento de luta em defesa da autonomia universitária, da legalidade e da democracia, diante do prolongamento da intervenção.

Segundo a entidade, a greve tem como pautas centrais a composição imediata de uma nova Comissão Eleitoral, a definição de um calendário eleitoral com prazos claros e públicos e a realização de uma eleição com consulta ampla à comunidade universitária e uso de urnas eletrônicas. A nota também apresenta críticas à gestão interventora e defende eleições livres como condição para a democracia universitária.

Também procurada por este CORREIO, a Reitoria da UFRA informou, por meio de envio de nota publicada no site institucional em 2 de janeiro de 2026, que tomou conhecimento da deflagração da greve e reconhece o direito dos servidores à paralisação, ressaltando que a adesão é voluntária. A gestão afirma que não haverá alterações no calendário acadêmico e administrativo e que todas as unidades da universidade, incluindo o Hospital Veterinário, continuarão funcionando normalmente. A nota acrescenta que as reivindicações apresentadas pela Adufra-Ssind vêm sendo tratadas como prioridade e que as medidas adotadas seguem o Regimento e o Estatuto da UFRA, com foco na realização do processo eleitoral.

A reportagem do Correio de Carajás procurou ainda a ex-reitora Herdjania Veras para se manifestar sobre as acusações relacionadas ao processo eleitoral. Em resposta, ela negou as irregularidades apontadas. Na nota enviada à reportagem, Herdjania afirma que a consulta para a reitoria ocorreu sob regras claras, com ampla participação da comunidade acadêmica e parceria com o Tribunal Regional Eleitoral. Segundo ela, o afastamento do cargo ocorreu dentro do prazo previsto no Estatuto da UFRA, e a judicialização do processo teria sido motivada por chapas adversárias.

Na manifestação, a ex-reitora também cita ações realizadas durante sua gestão, como investimentos em infraestrutura, revitalização de prédios e redes elétricas em diversos campi, além da captação de recursos para obras e aquisição de equipamentos. Segundo Herdjania, as informações utilizadas para justificar a intervenção não se sustentam e podem ser comprovadas. (Com informações do Dol Carajás)