O celular que aproxima o brasileiro das apostas também passa a ser utilizado como uma porta de entrada para quem precisa de ajuda para interromper o ciclo da compulsão. O Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou o teleatendimento em saúde mental destinado a pessoas com problemas relacionados a jogos e a apostas.
A capacidade, que começou em março passado com 600 atendimentos mensais, foi elevada para até 100 mil consultas por mês.
A mudança ocorre em meio à expansão das apostas on-line e à preocupação do poder público com os efeitos do fenômeno sobre a saúde mental e a renda das famílias. O serviço não é uma iniciativa criada do zero neste mês, ele já funcionava em escala menor e agora passa a ter uma capacidade 166 vezes maior. Durante o lançamento da ampliação, no início do mês, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, resumiu a estratégia como uma tentativa de enfrentar o problema utilizando a mesma ferramenta que ajudou a ampliar o acesso às apostas, o celular.
Leia mais:“É disputar no aparelho celular aquilo que a tecnologia que leva as pessoas ao vício, leva as pessoas ao isolamento, a gente oferecer na mesma tecnologia, no mesmo instrumento, o cuidado, o acolhimento, o SUS mais próximo, o acesso ao SUS”, afirmou.
Vergonha pode afastar quem precisa de ajuda
A ampliação do serviço parte também de uma dificuldade específica relacionada ao transtorno provocado pelas apostas, muitas pessoas não reconhecem o comportamento como uma questão de saúde ou sentem vergonha de procurar ajuda.
Padilha afirmou que relatos de pessoas que enfrentaram a ludopatia mostram que o sentimento de derrota e o constrangimento podem dificultar até mesmo a conversa com familiares e amigos. “As pessoas têm vergonha de falar, muitas vezes é constrangedor, as pessoas têm um sentimento de derrota”, disse.
Por isso, o atendimento remoto foi desenhado para funcionar como uma primeira porta de entrada. A pessoa pode fazer o autoteste, identificar sinais de compulsão e, sem precisar inicialmente comparecer a uma unidade de saúde, iniciar o contato com profissionais.
O ministro destacou que o acolhimento também foi aberto aos familiares. A intenção é permitir que pessoas que convivem com alguém em situação de dependência também recebam orientação e cuidado. “É muito importante a gente que não foi capturado por esse vício ajude as pessoas a sair dele”, afirmou Padilha.
Para o médico psiquiatra Cláudio Meneghello Martins, vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a definição de quando a aposta deixa de ser lazer não depende apenas da quantidade de dinheiro envolvida.
O principal indicador é a perda de controle e a continuidade do comportamento mesmo diante dos prejuízos.
Entre os sinais estão:
Aumento progressivo do tempo ou do dinheiro destinado às apostas;
Tentativas frustradas de parar, mentiras ou ocultação do comportamento;
Busca por recuperar perdas com novas apostas e;
Irritação ou ansiedade quando a pessoa não consegue jogar.
Problemas financeiros, familiares e profissionais também podem indicar que o comportamento ultrapassou o limite do lazer.
O especialista explica que a vulnerabilidade pode ser maior em pessoas que já apresentam outros transtornos mentais ou histórico de dependências. Impulsividade, ansiedade, depressão, estresse, dificuldades financeiras, facilidade de acesso às plataformas e a expectativa de ganhar dinheiro rapidamente podem contribuir para o desenvolvimento do problema.
A ampliação do teleatendimento também está relacionada à percepção de que a demanda existente na rede tradicional de saúde pode não representar todo o tamanho do problema.
Segundo Padilha, o número de atendimentos de saúde mental na atenção primária do País cresceu de cerca de 3 milhões para mais de 23 milhões nos últimos dez anos.
Nos serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e ambulatórios, também houve crescimento. Nos primeiros meses deste ano, segundo o ministro, os números permaneciam em torno de 4 mil.
