Correio de Carajás

Sespa reafirma o Guia Alimentar Brasileiro como referência para a nutrição no Pará

Enquanto modelo americano adota "pirâmide invertida", Guia Alimentar brasileiro mantém foco na cultura regional e em alimentos in natura para combater doenças crônicas

Mulher com máscara e luvas preparando buffet de saladas frescas.
Foto: Divulgação
✏️ Atualizado em 20/02/2026 14h58

A recente divulgação das novas diretrizes alimentares dos Estados Unidos trouxe, mais uma vez, ao centro do debate internacional, a importância das políticas públicas voltadas à alimentação saudável. O documento norte-americano passou a adotar uma pirâmide alimentar invertida, priorizando o consumo elevado de proteínas de origem animal, associado ao aumento da ingestão de verduras e legumes e à redução dos carboidratos, especialmente os refinados.

Além disso, a nova recomendação reforça a diminuição do consumo de açúcar refinado e de alimentos ultraprocessados, incentivando a população a priorizar a chamada “comida de verdade”. As diretrizes são elaboradas por órgãos federais, como o U.S. Department of Agriculture, e orientam políticas públicas, programas de saúde e ações educacionais no país.

No Brasil, no entanto, a principal referência para a promoção da alimentação saudável segue sendo o Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado em 2014 pelo Ministério da Saúde. O documento norteia as estratégias nacionais, estaduais e municipais, incluindo as desenvolvidas no Pará, e adota uma abordagem mais ampla, que vai além da simples contagem de nutrientes.

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Diferentemente do modelo americano, o guia brasileiro não utiliza a pirâmide alimentar. Ele parte do entendimento de que o ato de se alimentar envolve aspectos culturais, sociais, ambientais e afetivos, que não podem ser reduzidos a gráficos ou proporções fixas. O material valoriza o preparo das refeições em casa, o respeito às tradições regionais e a redução do consumo de alimentos prontos e industrializados.

A coordenadora estadual de Nutrição, Walkiria de Moraes Silva, destaca que o foco do Brasil sempre esteve na promoção de hábitos sustentáveis e acessíveis à população. “Nosso guia entende que alimentação não é só nutriente. É cultura, é território, é identidade. Ele valoriza a culinária regional, inclusive a do Norte, e orienta as pessoas a priorizarem alimentos in natura ou minimamente processados. Mais do que dizer o que comer, ele ensina como se relacionar com a comida de forma saudável e consciente”, afirma.

O Guia Alimentar brasileiro classifica os alimentos em quatro grupos: in natura ou minimamente processados, preparações culinárias que utilizam óleos, gorduras, sal e açúcar em pequenas quantidades ao temperar e cozinhar alimentos e por fim, alimentos  processados e ultraprocessados, estabelecendo como regra a orientação de “preferir sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados”. Essa diretriz tem sido fundamental para o enfrentamento de problemas como obesidade, diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares.

Já o documento norte-americano, ao incentivar maior consumo de proteína animal, tem gerado questionamentos entre especialistas. Além dos impactos na saúde, a medida envolve aspectos econômicos e ambientais, como o desmatamento, a emissão de gases de efeito estufa e o uso intensivo de recursos naturais. Outro ponto sensível é o reconhecimento de vínculos de alguns participantes do processo com a indústria da carne e de laticínios.

Para Walkiria, esse contexto reforça a importância de analisar criticamente as recomendações internacionais. “É fundamental que a sociedade compreenda que nem toda diretriz pode ser simplesmente reproduzida em outros países. O Brasil tem uma realidade social, econômica e ambiental diferente cujas as políticas públicas reforçam a promoção da saúde e prevenção de agravos relacionados a alimentação inadequada, assim como sustentabilidade, segurança alimentar e acesso para todos”, ressalta.

A coordenadora também destaca que o debate sobre alimentação é urgente diante dos atuais desafios enfrentados pela população. “Vivemos um cenário de aumento do consumo de ultraprocessados, insegurança alimentar e adoecimento precoce. Discutir esses documentos é discutir o futuro da nossa saúde. Precisamos fortalecer a educação alimentar, valorizar a comida regional e garantir que as pessoas tenham condições reais de fazer boas escolhas”, completa.

No Pará, a Coordenação Estadual de Nutrição reafirma o compromisso com a utilização do Guia Alimentar para a População Brasileira como principal instrumento orientador das ações em saúde, considerando as particularidades culturais e territoriais da população paraense. O material está disponível gratuitamente na internet e segue sendo referência para profissionais, gestores e cidadãos.

(Agência Pará)